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Um mau começo

Ney, a cunhada, o meu irmão, seu filho e o neto, todos Eduardo, o outro neto, Fabiano, o outro sobrinho Ricardo, sua noiva Maria …

Ney, a cunhada, o meu irmão, seu filho e o neto, todos Eduardo, o outro neto, Fabiano, o outro sobrinho Ricardo, sua noiva Maria Cecília e eu, sábado, 26 de janeiro, almoçamos numa estrada, após a visita ao Museu Aeronáutico, na cidade paulista de São Carlos.

Pergunto-me: mas isso é jeito de começar uma crônica?

Respondo: muito pior é acabar assim.

Mudo de assunto, pois o tipo de avião que sempre me interessou não abre mais as asas para mim. Idade provecta e proverbial fidelidade (!!!) só rendem suspiros. Já o mano e sobrinho são pilotos amadores e sabem tudo sobre todos os tipos de aviões.

Na quinta, 24, almocei com Cyro del Nero, o amigo-irmão hoje professor titular de Cenografia e Indumentária Teatral da Pós-Graduação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Essa fraternidade teve início aos pés da estátua da Biblioteca Municipal de São Paulo, nos anos de 1950.

Cyro levou-me outro exemplar do seu livro “Com a Grécia na Mochila – 50 Anos de Peregrinação na Grécia”, esse para a minha filha Rachel, que viajará para aquele nosso berço e aprofundará seus conhecimentos sobre o teatro grego, ela que é jornalista e cobre, para o Jornal do Brasil, as artes cênicas.

Referência obrigatória na história da moda brasileira, Cyro levou-me o seu livro lançado no fim do ano passado pela Editora Anhembi Morumbi: “Com ou sem a folha da parreira – A curiosa história da moda””.

Já escrevi aqui diversas crônicas dando testemunho sobre o extremo valor que dou às amizades que a vida me doou. A amizade do Cyro é recíproca e não me constranjo em tornar público o sentimento que nos une. Trouxe no coração a alegria e, para casa, o exemplar com a dedicatória:

Para meu querido

ALTER EGO

Com o amor do

Cyro

           Janeiro 2008.

Permito-me lembrar que “alter ego”, além do significado literal de “outro ego”, tem também, em português, a extensão “Pessoa em quem se pode confiar como em si mesmo”.

Não vou desfilar aqui a troca de gentilezas havida entre nós neste mais de meio século de amizade, mas pelo menos uma, pelo inusitado, merece ser contada.

Cyro telefonou-me, certa vez, de São Paulo, dizendo que precisava falar comigo. Fui encontrá-lo no Santos Dumont, em cuja proximidade almoçamos e, em seguida, ele me disse que voltaria imediatamente para São Paulo. Sem entender nada, perguntei-lhe o motivo de sua vinda: – Vim dar um abraço em você.

Eu havia encerrado uma longa relação profissional e ele trouxe-me solidariedade.

Apesar de brasileiros, Cyro e eu somos pontuais ao extremo. Nesse almoço, olho para o relógio, são 13h55min e levo um susto:

– Cyro, marquei com o motorista que vem me apanhar às duas horas, na rua!

– Deixe tudo comigo e vá embora já!

Já no Rio, mandei-lhe um e-mail que, entre outras coisas, dizia: “o carro e eu chegamos juntos. Obrigado!”.

Passei três dias em São Paulo e em Ribeirão Preto, mas essa viagem teve uma finalidade muito excepcional e única, pois minha irmã Célia, a primogênita dos quatro irmãos, festejou, em grande estilo, seus primeiros 80 anos de vida, sendo que desde 1955 reside em Ribeirão Preto onde aposentou-se como professora da Faculdade de Enfermagem.

Já afirmei que meu clã – do qual a Célia e a mana Rachel são, hoje, as titulares femininas –, é extremamente afetuoso. Meu irmão Eduardo e eu, os outros titulares, não somos exceções.

Contei aqui sobre o encontro, em novembro do ano passado, num sítio em Itu, de 40 familiares desses quatro irmãos. Agora, com a legião de amigos, foram 150 convivas brindando, em Ribeirão, a saúde da mana.

Que dizer? Prefiro apelar para versos do querido amigo Mario Quintana, num dos seus mais belos sonetos:

… “Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”.

Digo…e retorço as pobres mãos cansadas…

Caros leitores:

Creio que, apelando para Quintana, encontrei uma maneira muito legal de encerrar a crônica. Caso não, existe outra, que alivia e é definitiva: Fim.

Inté.

Advertência:

Apesar de bem lembrar o soneto de Quintana aí abaixo, por excesso de escrúpulo fui conferir minha memória e aconteceu o inverso. No primeiro site que abri no Google, o verso que fui checar está errado, comendo o “de” que antecede “imprevisto”.

Aí vai:

Eu faço versos como os saltimbancos

Desconjuntam os ossos doloridos.

A entrada é livre para os conhecidos…

Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

 

Vão começar as convulsões e arrancos

Sobre os velhos tapetes estendidos…

Olhai o coração que entre gemidos

Giro na ponta dos meus dedos brancos!

 

‘Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!’

Protesta a clara voz das Bem-Amadas.

‘Que tédio!’ o coro dos Amigos clama.

 

‘Mas que vos dar de novo e de imprevisto?’

Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:

‘Eu sei chorar… Eu seu sofrer… Só isto!’ 

Autor

Mario de Almeida

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