“Não se pode confiar em faca sem dono
nem em baixinho que fala grosso”.
(Antigo provérbio campeiro).
Naquele tempo, contratar um peão ou um homem para as lides no campo e lavoura, não se pedia recomendação ou o nome de um padrinho. Tudo se passava em uma conversa comprida, com olho vivo na fala e nos modos do candidato.
Depois, ele era mandado buscar água em um poço fundo, encilhar e dar um galope em um potro meio chucro. Eram coisas da rotina do campo, mas era um teste prá valer. De cara limpa e braço forte, o homem estava empregado. De boca torta ou embromado:
“- Passa um outro dia, compadre”.
***
Lembro de uma vez em que precisaram achar um homem bom para o lugar de um peão de confiança que passava mal, depois de um coice de vaca nas pudendas. Mas era tempo de colheita e difícil de achar o homem certo.
O Coronel Patrício mandou procurar mais longe, do outro lado do Camaquam e no alto da serra, até achar um que servisse. Foi então que apareceu alguém recomendado pelo padre Lourenço da igreja da vila. Era um homem atarracado, baixinho e que parecia meio enfezado. Chegou, amarrou o zaino na porteira, foi até o galpão das carroças e se apresentou:
“- Buenas Tardes, meu nome é Antonio das Neves,
mas prefiro ser chamado de Tonhão…”.
Foi o que bastou para o meu tio Dedé alisar os bigodes, uma, duas, três vezes. Quem o conhecia sabia bem o que aquilo queria dizer – o homem havia começado com dois pés esquerdos. A gente conhecia a fama do José Carlos Moraes, que era capaz de identifcar coxo sentado ou cego dormindo. Mas ele pigarreou forte e foi conversar com o Antonio das Neves. Depois o mandou até as cocheiras, onde ele encilhou um potro difícil de montar e galopou campo adentro, sem usar nem rebenque ou esporas.
Voltou, com jeito de quem espera elogios, mas ao cruzar perto da cachorrada, não esboçou um gesto ou agrado aos bichos. E a gente notou que o pastor alemão do avô Picurra rosnou baixinho, arreganhando os dentes.
***
Na porta do galpão, o Tio Dedé alisou os bigodes uma, duas, três vezes. Foi a última vez que vimos o Antonio Neves, que preferia ser chamado de Tonhão.
***


*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial