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Uma bela notícia

Pela primeira vez, usando a indulgência etária, fugi ao chamamento do cidadão e não compareci ao plebiscito da utopia, ainda que respeitando os argumentos …

Pela primeira vez, usando a indulgência etária, fugi ao chamamento do cidadão e não compareci ao plebiscito da utopia, ainda que respeitando os argumentos válidos de ambos os lados. Reparei que quem apenas defendeu o seu voto, sem acusações às razões contrárias, desfilou um arrazoado crível, o que, de modo maior, não aconteceu sempre com quem atacou o voto contrário. O referendo deu vazão a críticas fora do contexto, a agressões injustificáveis e, na minha modesta, mas exigente opinião, produziu três campanhas publicitárias indigentes, pobres de imaginação e paupérrimas de tudo. Quanto aos eleitores, creio que a maioria estava nesses três tipos, mais ou menos assim:

1. Os que carregam a esperança de que um dia a realidade seja melhor

2. Os que querem que quem tente se defender, que tente

3. Os que votaram em branco ou anularam o voto por absoluta descrença em sua utilidade.

Eu preferiria um referendo no qual se votasse decretar estado de sítio em cidades como o Rio, onde o Estado, há muito, divide o poder com o Crime. Eu votaria Sim. 

Apesar das balas perdidas, nem tudo está perdido e as notícias boas acontecem e – quase que simultaneamente – recebo de três fontes distintas a notícia de que o Projeto Memória Viva  resgatou parte considerável da revista que foi o maior sucesso editorial, em todos os tempos, de todas as publicações brasileiras: O Cruzeiro. 

Criada em 1928, inspirada em publicações como a Life, na década de 1950 O Cruzeiro chegou a vender um exemplar para cada 100 brasileiros, o que significaria, hoje, uma tiragem de 1.800.000 exemplares. Assis Chateaubriand foi o antecessor de Roberto Marinho na história da comunicação brasileira e foi o pioneiro na transmissão por TV, quando já dominava o mercado nacional da radiofonia e da imprensa.

Em 19 de setembro de 1950, ao inaugurar a TV Tupi de São Paulo – a pioneira – Chatô, como se referiam ao poderoso chefão, quebrou uma das câmeras com a garrafa do champagne batismal. Tupi no Rio; Rádio Clube – TV Tupi, em Pernambuco; Itacolomi, em Minas; Piratini no Rio Grande e Itapuã, na Bahia, deram sucessão, com nomes indígenas, à Rede Tupi de Televisão pelo Brasil adentro, inclusive a TV Ceará, cujo vocábulo desconheço a origem.  Em quase todos os estados brasileiros, Chateaubriand já possuía emissoras de rádio e jornais, sendo que, no Rio Grande, o Diário de Notícias tinha uma boa cobertura política e boa circulação. 

A Cruzeiro, início de carreira de Ziraldo e popularizão de Millôr Fernandes como Vão Gogo, abrigou “cobras” do porte de Borjalo, Carlos Estevão e Péricles, o criador do Amigo da Onça.

 Coube a Leão Gondim, diretor das Cruzeiro, o batismo do personagem, baseado numa piada da época:

Dois caçadores conversam:
– O que faria se uma onça aparecesse na sua frente?
– Ora, dava um tiro nela.
– Se você não tivesse arma de fogo?
– Então eu matava ela com meu facão.
– Se você estivesse sem o facão?
– Apanhava um pedaço de pau.
– Se não tivesse nenhum pedaço de pau?
– Sairia correndo.
– E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro, já irritado, retruca:
– Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

O famoso personagem, criado pelo cartunista pernambucano Péricles de Andrade Maranhão, publicado em 23 de outubro de 1943 pela primeira vez, fundiu para sempre criador e criatura, sendo que a criatura sobreviveu ao suicídio de seu criador – 31 de dezembro de 1961 – e até 3 de fevereiro de 1962 foi continuado por Carlos Estevão. Alma sensível e gentil, ao suicidar-se abrindo as torneiras de gás, Péricles deixou um aviso na porta:

“Não risquem fósforos”.

Inté

 

Serviço:

http://memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro

Imagem

Autor

Mario de Almeida

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