Uma coisa parecida com ternura

José Antônio Moraes de Oliveira

" Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que tem". 

Bernardo Soares.

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Uma das obras maiores da poesia de Portugal, "O Livro do Desassossego" não foi concebida como poema, mas como prosa. E não foi assinada pelo autor, Fernando Pessoa, mas por um de seus heterônimos, Bernardo Soares. Que tanto pode ser lida como roteiro confessional como diário íntimo e ficcional. É uma colagem de centenas de fragmentos, sem príncípio, meio nem fim, que exibe a personalidade extremamente complexa do poeta. Foi encontrada na casa onde ele morava em Lisboa, quase 50 anos após sua morte. É visível que Fernando Pessoa usou Bernardo Soares como máscara para suas confissões, onde passeia por angústias, inquietações e tédio. Mas sempre vincados pela lucidez e por sua inesgotável capacidade de refletir sobre a condição humana.

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Em O Livro do Desassossego, Bernardo Soares surge como um alter ego profundamente identificado com a essência poética de seu malter ego Fernando Pessoa. E portador de biografia fictícia, que o distancia dos demais heterônimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

O poeta Alberto Caeiro é descrito como um camponês sem estudos, que acreditava ser mais importante para o poeta sentir do que pensar. Em seu inspirador O Guardador de Rebanhos ele sugere que prefere a contemplação das coisas da natureza como fuga do pessimismo e do tédio, muito comum aos poetas de seu tempo.

Já Ricardo Reis ganhou perfil mais sofisticado - estudou medicina e era um monarquista declarado. Para demonstrar desprezo à modernidade, praticava um vocabulário erudito e a linguagem dos clássicos. O ano de seu nascimento é conhecido (1887, na cidade do Porto) mas Fernando Pessoa não define o ano de sua morte. 

O mais conhecido dos herônimos, Alvaro de Campos, é considerado como autêntico alter-ego de Fernando Pessoa. Educado no idioma de Shelley e Shakespeare, se sente como um estrangeiro em Portugal. Se apresenta como otimista quando se refere ao passado, mas se comporta como pessimista, ao contemplar as angústias do presente.

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Quando Bernardo Soares descreve a si mesmo como um simples ajudante de guarda-livros empregado em um sombrio escritório na Baixa, ele está projetando o espelhamento do próprio Fernando Pessoa. Que na verdade trabalhou como tradutor de idiomas em um 4º andar da Rua dos Douradores, no centro de Lisboa.  Em outro dado momento, ocorre um contraponto, quando Fernando Pessoa assume a identidade de Bernardo Soares e sai pelas ruas de Lisboa, praticando a flanêrie. Ele observa os transeuntes, refletindo sobre a banalidade da existência humana, com  um agudo realismo, mas temperado com ternura: 

" Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do brac?o esquerdo e punha no cha?o, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na ma?o direita. Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de fami?lia que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forc?osamente se compo?e a sua vida, pela inoce?ncia de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas".

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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