Não tenho certeza sobre o ano – creio que era 1979. Alguma coisa nos levou a fazer um grande desvio pelas estradas do interior de New Hampshire. Meu colega de viagem estacionou o carro e apontou para o alto de uma colina. Ao longe, vi uma casa cercada de muros, no meio de um campo. Ele disse que ali vivia J.D. Salinger.
Era outono e havíamos saído cedo de Boston para fotografar a foliage em Vermont e Massachussets. As árvores ao longo dos caminhos e os bosques nos vales tinham colorações que variavam do amarelo dourado ao vermelho escarlate. Meu colega de viagem, um diretor de arte de New York, pretendia usar aquelas paisagens como tema da nova campanha “Visite os USA”.
Mas naquele outono, as cores da foliage não me encantaram como em outras vezes. Passei o resto da viagem rememorando quando li “The Catcher on the Rye”, pela primeira vez. Foi em setembro de 1961, em New York. Uma banca da Sexta Avenida exibia o Time Magazine com J.D. Salinger na capa. O título prometia: “Um Mundo Privado de Amor e Morte”, com os críticos comparando Holden Caulfield aos grandes personagens da moderna literatura norte-americana, como George F. Babbitt e Jay Gatsby.
Minutos depois, entrei no Brentano’s e comprei “The Catcher on the Rye” e o recém lançado “Franny and Zooey“. Naquela mesma manhã, em um café de esquina, li “O Apanhador” da primeira à última página.
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A aderência do escritor com New York permaneceu ao longo de toda sua vida. Durante os anos 60 e 70, como John O’Hara, John Cheever e John Updike antes dele, Salinger foi transformado em um dos escritores-avatares da cidade. Era incensado pelos intelectuais que liam o The New Yorker, que acreditavam que sua ficção seria impensável fora dos cenários de Manhattan. Não por acaso, seus personagens marcam encontros sob o relógio do Biltmore Hotel, fazem compras no Saks’, passeiam no Central Park e vão a clubes de jazz no Greenwich Village. De seu retiro na cidadezinha de Cornish, ele afirmou uma vez que tinha bucólicas recordações dos canions novaiorquinos.
Para os adolescentes sonhadores da minha geração, Salinger foi um ícone inescrutável, algo que não conseguíamos decifrar. O personagem Holden Caulfield era como um reflexo ao espelho, sofrendo conosco as penas do rito de passagem pela adolescência. Tinha pouco a ver com os demais escritores que tanto líamos e relíamos, como Ernest Hemingway, Norman Mailer ou Scott Fitzgerald. Ele era diferente dos outros, que escreviam para serem lidos e admirados. Jerome David Salinger vivia apenas para o prazer de escrever. Deixando para nós leitores, o enigma de sua vida e sua negação ao sucesso. Como declarou em uma de suas raríssimas entrevistas: “Gosto de escrever, vivo para escrever. E o faço para mim mesmo e para meu prazer pessoal. Publicar um livro é uma invasão inaceitável de minha privacidade. Sinto uma paz maravilhosa em escrever e não publicar”.
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Na viagem de regresso para Boston, passamos novamente pelas estradas do interior de New Hampshire. Quando avistamos uma placa que dizia: ”Cornish – 1.661 habitantes”, meu amigo, diretor de arte, lembrou que um governador do Estado havia proposto mudar o texto das placas para: “Cornish, cidade de J.D. Salinger”. O escritor apelou para a justiça e ameaçou mudar de Estado. A duvidosa homenagem foi esquecida.
Um ano mais tarde, no dia 8 de dezembro de 1980, eu estava no bar do Essex Hotel, em New York, quando o noticiário na TV silenciou a todos – bem perto dali, na calçada do Edifício Dakota, no Central Park com a Rua 72, John Lennon fora abatido a tiros por Mark David Chapman. Ao ser preso, o assassino segurava nas mãos um surrado exemplar de “The Catcher on the Rye”. Algo parecido se repetiria um ano depois: John Hinckley Jr., que tentou matar Ronald Reagan, guardava um exemplar do livro em seu quarto de hotel.
Ninguém sabe porque Salinger escolheu a pequena e isolada cidade de Cornish como refúgio, onde viveu desde 1953 até sua morte, dias atrás. Mas, se tratando dele, qualquer enigma é possível. Não se sabe de outro escritor que tenha morado no interior de New Hampshire. Na cabana em que se isolou, com vista para o Rio Connecticut, não havia lareira nem água encanada. Contam os vizinhos que ele costumava buscar água em um riacho e cortar lenha para fazer fogo.

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