Responda para [email protected]: de quem é a culpa pela atual megacrise econômica?
A partir do fato que a Rede Globo está festejando 50 anos de fundação e que eu estava lá, assistindo ao evento, na Rua Von Martius, Jardim Botânico, Rio, comecei a escrever aqui minhas relações com esta que, hoje, é a segunda rede mundial de TV. Não imaginei que iria gastar tantos dígitos e ainda nem cheguei aos anos em que entrei para o quadro dos Recursos Humanos da Rede. Hoje, resolvi descansar do assunto e vou deixar a cabeça funcionar autônoma.
A primogênita de meus pais, Célia, socióloga e psicóloga, antes de embarcar para outros hemisférios, perguntou-me se eu fosse fazer um slogan pessoal, qual seria. Respondi que não poderia, pois era o mesmo da Fiat institucional: “A ideia é ser útil”.
Primeiro mundo: Estava viajando pela Espanha quando, em Granada, dei de cara com uma feira de livros, em praça pública. Perguntei, num estande, se tinham livros do poeta Antonio Machado. O vendedor disse-me que acabara de sair uma antologia do mesmo. Pedi um exemplar, ele consultou o relógio e disse-me que tínhamos que esperar a abertura da feira. Faltavam cinco minutos para as 10 horas e, então, esperamos e compramos…
Freguês de caderno: Na Última Hora gaúcha, onde fui Chefe de Reportagem e tinha a coluna Sem Censura, eu tirava assinatura com um político do governo. Numa tarde, cada repórter que chegava da rua me dizia que o fulano comprara um carro extremamente caro. Os repórteres se admiravam de eu já saber da compra. Eu havia recebido um telefonema anônimo sobre o assunto, aleguei que só poderia dar a notícia se tivesse como provar. Daí o anônimo disse que a prova era ele mesmo: – Fui eu que vendi o carro para ele, deu-me nome e o telefone da revendedora onde trabalhava. Tudo apurado, a nota saiu e minha coluna foi valorizada como rápida no gatilho.
Por doença de Otto Lara Resende, acabei ghost writer do diretor-geral da Globo Walter Clark, então o maior salário do país, antes e depois de eu ir implantar e dirigir a Agência da Casa para a Rede. Minha estreia foi um discurso feito para a Assembleia Legislativa de Sergipe e, em seguida, outro para a Câmara de Vereadores de Aracaju, recebendo títulos de cidadão honorário sergipano e aracajuano. Na ocasião, eu ainda nem conhecia Sergipe e Walter, muito menos. Eu me safei com as informações de um almanaque, e Walter nem precisou fingir, pois os caras-de-pau foram os puxa-sacos que lhe deram os títulos. Anos depois, eu já dirigindo a Agência da Casa, Walter me ligou na manhã seguinte a um minidiscurso que fizera para uns formandos de Contabilidade (!!!): – Mario, nunca mais use aquela abertura de ontem, vou usá-la sempre nos meus improvisos. A abertura, muito safa, era: “A unidade de tempo do profissional de TV é o segundo. Não se assustem, serei breve”.
Quando aceitei o convite para assumir a direção de Comunicação da Fundação Roberto Marinho – propaganda, jornalismo e relações públicas –, passei a ser o escrevinhador do próprio, para textos, discursos e afins. Na única vez em que fui obrigado a ir a uma solenidade onde o patrão iria discursar, ele se perdeu no meio da leitura e não achava mais onde continuar. Minha aflição foi tão grande que quase assoprei para ele a continuação. Quando fui a Porto Alegre representá-lo numa promoção da Zero Hora local, que premiou a Fundação pelo trabalho no Telecurso, meu amigo gaúcho, o jornalista Ruy Carlos Ostermann, conhecedor de minha notória condição de “esquerdista autônomo”, mexeu comigo pelo fato de representar Roberto Marinho. Respondi: – Tranquilo, Ruy, tudo que ele fala ou escreve pela Fundação sou eu que escrevo. Naquela noite, no Country Club gaúcho, dancei com Yeda Maria Vargas, a Miss Universo, mas nunca coloquei isso no meu currículo, onde também não consta um almoço com o potiguar Câmara Cascudo, o papa do folclore brasileiro e de nossas festas populares e, por excesso de luxo, entre ele e Gilberto Freyre, introdutor da sociologia no Brasil e ganhador de um “sir” da rainha da Inglaterra. Tenho consciência do meu tamanho e relutei quanto ao convite deles para sentar-me entre ambos. Face à insistência dos papas, aceitei, mas fui honesto: – Obrigado, mas terei que colocar isso no meu currículo. As risadas que acompanharam minha confissão estenderam-se entre a delícia de estar comendo a carne de sol mais famosa da culinária brasileira, lá mesmo, no restaurante do Lyra e as observações sobre o Festival da Cultura Popular que acontecia naqueles dias em Natal.
Já tendo encerrado meu trabalho na Fundação, criei um projeto sobre meio ambiente para a Rede Globo desenvolver na Expo 92, no Rio, e ela me pagou US$ 30,000.00 para desenvolvê-lo. Terminado o trabalho, uma maquete do tamanho de uma mesa de pingue-pongue foi apresentada ao “mais velho”, expressão que se usava ao dr. Roberto e, ao terminar, ele elogiou: – Bom trabalho, rapaz. Respondi: – O senhor é uma das poucas pessoas que ainda podem me chamar de rapaz. Ele riu, estava com 87 anos e eu ia fazer 60.
Quando Roberto Marinho completou 90 anos, João Câmara, o grande pintor pernambucano, foi convidado para pintar parentes e amigos do aniversariante, entre os quais Armando Falcão, esse que, quando ministro da Justiça do ditador Geisel, foi, para mim, o mais repugnante assecla do País que, desde o AI-5, tornara-se, oficialmente, um Estado assassino. A exposição foi montada na Casa do Bispo, sede da Fundação Roberto Marinho. Era fácil saber, naquele período, se eu estava na casa ou não. Havia um funcionário encarregado de virar o retrato da persona non grata quando eu estava lá.
Certa vez, na Globo, só Boni e eu no elevador, avisei-o que andava assinando memorandos com erros de português. No primeiro memorando no qual eu também era destinatário, li no rodapé: “Este memorando foi enviado sem revisão do signatário”. Quando eu ainda estava na Globo, antes de ir para a Fundação Roberto Marinho, entre dezenas de executivos, recebia memorandos de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho – o Boni – solicitando que a gente não empregasse parentes pois, havendo necessidade de demitir, seria sempre constrangedor. Como desde meus tempos de jornalista, guardava sempre coisas que remetiam ao futuro, guardei aquele memo numa gaveta. Quando fui para a Fundação, doei minha cópia para o Magaldi, superintendente de Comunicação. Quando o Boni chamou o filho – o Boninho – para trabalhar na casa, não sei se o Magaldi usou a cópia, mas na Fundação aproveitou para colocar a irmã na equipe do Telecurso, em São Paulo.
Nossa presidente sofre de otimismo que, infelizmente, a realidade desmente. Avisou que a Copa de 2014 seria a Copa das Copas. Sem considerar a surra do Brasil no campo, o flagelo maior foi a construção de tantas arenas, suas dívidas exorbitantes, a prepotência do infamante “padrão FIFA”. Pois é, agora antecipou um vaticínio que já deu merda (literalmente), ou seja, afirmou que os Jogos Olímpicos do próximo ano serão os Jogos dos Jogos. Alguém precisa avisar a madame que a Baía da Guanabara onde acontecerão as provas de vela está 50% poluída e seus concorrentes, no mundo todo, já sabem disso. Merda em nome do Brasil.
Meu amigo José Monserrat Filho, doutor e especialista em Direito Espacial, sempre escreve artigos sobre o assunto. O último tratava dos riscos de uma catástrofe de fim de mundo. Comentei para ele: Se isso acontecer agora, o Brasil acaba no lucro, pois ninguém conhecerá a nossa situação real. Assinei Mario, o sinistro.
Inté.

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