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Ventania

Nas conversas no bolicho do galego António e nas rodas de fogo do Passo Grande assunto era o que não faltava. Naquele tempo antigo, as façanhas dos domadores de chucros eram motivo de admiração – e de uma ponta de inveja. Um daqueles campeiros bem falados era o meu tio Álvaro Vieira de Moraes. Do qual se ouvia estórias que contavam e recontavam. Um certo dia, ouvi  o causo de um garanhão zaino que jogava domadores na poeira.

Não por nada, era chamado de Ventania. Quando chamaram o tio Alvinho, ele chegou, montou, meteu freio, rebenqueou e acalmou o Ventania de uma vez por todas. Em outra ocasião, se falava de quando uns homens do governo entraram nas terras dele sem permissão e sem falar:

“- Ó de casa, podemos chegar?”

E foram recebidos a tiros de Winchester.

***

O guri da cidade ficava mais do que curioso quando ouvia aquelas estórias, que não sabia se inventadas ou de verdade. Mas chegou um tempo que o Tio Arno, que era mais falador do que os irmãos, me pegou para contar das coisas do campo. E foi justamente naqueles dias, que um fazendeiro vizinho caiu do cavalo e morreu no hospital de Tapes. O que se passou depois, foi um dia que não não esqueci. No campo, quando alguém batia as botas, não havia lamúrias ou luto fechado, já que a vida de campo não dava tempo nem hora. Os bailarecos da Várzea eram suspensos e os bandoneons calavam por 3 dias. Se dizia que, dependendo do calibre do falecido, até o vento ventava e uivava.

Os velórios se prolongavam até a chegada dos parentes de longe. Os homens vinham a cavalo, o mulherio e a crianças, de carroção ou de charrete. Cansados, com sede e fome, eram recebidos com assado de ovelha e paneladas de arroz com linguiça. Sem falar de das tantas garrafas de canha curtidas no butiá – que se dizia – cura tristezas e amarguras.

***

Eu devia ter uns nove para dez anos, quando vi de perto um enterro de verdade. O Tio Dedé me levou até uma estradinha, marcada por pedras brancas e com flores do campo nos dois lados. Era o caminho para o cemitério da vila, no alto da coxilha, onde muita gente boa estava enterrada. O cortejo foi subindo devagar, os homens levando as montarias a cabresto, as mulheres de braço dado com lenço preto na cabeça. A criançada ficava na espera no campo, com os peões e a cachorrada. Quando o cortejo chegou no alto, Tio Dedé comentou:

“- Tão tranquilo que dá vontade de morrer…”.

Foi então que, de repente, soprou uma ventania vinda de não se sabe de onde, levantando poeira e fazendo os cavalos corcovear.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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