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Ventos antigos

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Naquele tempo, as estações do ano seguiam religiosamente o calendário. Verões, Outonos, Invernos e as Primaveras eram pontuais e chegavam sempre nos dias 20 e 21. E até nos avisavam antes – folhas amarelas dos plátanos da Redenção? O Outono não ia demorar. Janelas da nossa casa embaçadas de manhã cedo? Era sinal que o Inverno estava por perto. 

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O pai entra em casa, retira a manta de lã e avisa que o vento sul já está chegando ao Guaíba. A mãe suspira resignada e vai buscar mantas e cobertores no fundo dos roupeiros. E por dias, salas e quartos cheiram a naftalina. Na rua, janelas das casas fecham mais cedo, as pessoas apressam o passo e erguem as golas dos casacos. Das chaminés, sobem fios de fumaça azul e se sente a lenha queimando. 

Depois de tantos invernos, não reconheço mais o bairro onde cresci. Derrubaram os sobrados, depois cobriram de asfalto os paralelepípedos e sumiram com os fogões a lenha que aqueciam as cozinhas. Mas o minuano ainda é o mesmo, desfolhando os jacarandás e varrendo as ruas desertas. Em um gesto antigo, levanto a gola do casacão e saio em busca dos meus caminhos de antes.

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Nas placas das ruas, nomes de esquecidos heróis – Júlio de Castilhos, Ramiro Barcelos, Fernandes Vieira, Corte Real. No lugar dos sobrados de venezianas coloridas, ergueram edifícios gradeados. Procuro os rastros dos companheiros e amigos – na Ramiro, eram os Dischingers, na Castro Alves, os Dreher e os Schneider. Descendo a Felipe, os Starostas, Goldbergs e Millers. Haviam outras tantas famílias, com pré-nomes germânicos, iídiches, italianos, mas já não sei quais. O tempo da razão apagou muitas e caras recordações. Até lembrando aquelas matinês no Cinema Apolo – o projecionista cochilava e deixava o filme queimar…

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Quando comecei como repórter de rua, Agosto era o mês mais temido – tempo dos ventos gelados. Não tinha um sobretudo, usava ternos de meia-estação e me abrigava com a manta de lã que era do pai. Diziam que o pior do Inverno era o Pampeiro. Que nascia na Patagônia, subia pelos Andes, levantava ondas na Lagoa, assobiava nas ferragens dos guindastes do cais, até chegar à Praça da Alfândega. 

Na redação do jornal, as Underwoods silenciaram, o ar está azulado pela fumaça dos cigarros e a edição do dia seguinte foi fechada. Chega a hora da canja do Treviso e do último bonde para casa. Os ventos cederam e um chuvisqueiro fino faz brilhar a Avenida Independência deserta. Ainda faltam semanas para a Primavera e os dias inundados de luz.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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