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Verdades e mentiras sobre o ato de mentir

Desde já você está desobrigado de acreditar nestas palavras, apenas reconheça que, se tivesse dito estritamente a verdade durante toda a sua vida, provavelmente …

Desde já você está desobrigado de acreditar nestas palavras, apenas reconheça que, se tivesse dito estritamente a verdade durante toda a sua vida, provavelmente seus amigos e toda sua comunidade iriam dizer que você é louco ou mentiroso. Sem a mentira a vida é irreal. A mentira é o grande amortecedor que torna possível a nossa aceitação razoável dentro do mundo. Na ausência de um mecanismo biológico que faça com que nossos narizes cresçam no ato da mentir, todos se socorrem deste recurso civilizado para tornar viável a convivência entre pessoas que se estimam.

Quando a esposa diz que não quer fazer sexo porque está com dor de cabeça, ela está sendo diplomática. Trata-se de uma mentira afetiva, recurso de quem quer tangiversar o conflito prematuro e evitar uma exposição ressentida das suas razões. Diferentemente se dissesse: “Não estou afim porque você é um porco chauvinista que chega tarde com manchas de batom na camisa e mente para mim”. Mas ela o ama e quer ganhar tempo para ver como pode lidar com aquilo.

Imagino que uma simples copeira do Senado recebeu pelo correio um misterioso frasco em cujo rótulo dizia somente: “Soro da Sinceridade”. Como estava farta de ouvir mentiras, tanto de quem interrogava na CPIs quanto do interrogado, ela deitou porções da droga na água mineral de todos. Durante as seções ouviríamos depoimentos assombrosos porque as confissões não seriam nada mais do que aquilo que todo o país sempre soube.

– Vossa excelência possui extensões de terras e bens imcompatível com a sua renda, como conseguiu amealhar este patrimônio?

– Ora, roubando, claro. Dediquei meus melhores anos para saquear o erário público, muitas vezes com o sacrifício da família e da minha honra. Por que vossa excelência pergunta? – Ele fala mas se retorce e estremece como se estivesse estarrecido ao ouvir o que disse.

– Pergunto por que passei a noite em claro construindo perguntas de grande estofo moral e aparência ética com o objetivo me revestir de uma aura de probidade e assim afastar do meu mandato uma possível investigação. Se fizerem, estou frito – responde o presidente da CPI.

O presidente da mesa dá um gole no copo, pega o microfone e diz:

– Questão de ordem, quase todo mundo aqui se elegeu para levar vantagem pessoal, inclusive eu, no fundo estamos no lixando para o país e para o povo, mas, por favor, queiram se restringir à pauta da mesa.

– No fundo não, no raso senhor presidente.

Achando tudo aquilo muito divertido um “papagaio de pirata” toma um gole, tem um leve estremecimento, pega um microfone da mesa e interrompe a todos.

– Por favor, por favor, vocês nem sabem bem quem eu sou. Faço parte do baixo clero, sou suplente do suplente e estou aqui só para me arrumar. O meu primo, o deputado Paranhos, me arranjou esta boquinha. A minha nobre missão é me colocar onde haja uma câmera e ficar sorrindo com cara de inteligente, só isso, porque eu não sei fazer mais nada. Por sinal esta moça que está aqui rabiscando num bloco com cara de preocupação é amante do Dr. Ronildo e me aconselhou a nunca abrir a boca, mas hoje não sei o que aconteceu comigo. Constrangimento geral. A moça reage, como está muito nervosa dá um gole no copo com água com o soro da verdade:

– Claro que sou amante do Ronildo, aquela perua da mulher dele deitou com o meu marido e eu dei o troco. Já fui para Paris duas vezes com o marido dela, com tudo pago pelo senado. Estou me sentindo bem vingada. Por sinal estava escrevendo aqui uma receita alternativa que é muito melhor que Viagra, pois é feita de florais.

O Gabeira que nunca precisou tomar o Soro da Verdade para dizer tudo o que pensa, toma um gole da água e faz um aparte:

– Usei a cota das passagens sim, quero que fique registrado. E tenho a declarar que estou vestindo a minha tanguinha de crochê por baixo das roupas. Alguém responde: “Ninguém te perguntou, porque não se cala?”.

Collor dá um gole na água, intervém e diz de pronto:

– Fiquem todos sabendo que vou voltar, sim, eu tenho todas as qualidades para ser presidente outra vez. Sinceramente não quero nada mais do que me ver no espelho com faixa presidencial, vestir uma roupa de Super-homem e voar pelos os céus do Brasil.

Curiosamente o deputado Moraes, sem beber nenhum gole da água com o Soro da Verdade, reafirma a sua posição:

– Estou me lixando para tudo isso, para tudo e para todos. Por que o meu negócio é grana, não sei se fui claro, g erre a ene a, graaaaanaaaaa. Atire a primeira pedra quem não veio para esta casa para buscar a mesma coisa.

Algumas poucas pedras foram atiradas e ficou o dito pelo não dito, como de hábito.

Autor

Paulo Tiaraju

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