… caminhante, não há caminho,
Se faz caminho ao andar.
(Antonio Machado, poeta espanhol)
1970. A primeira metade dessa década, além de cimentar uma nova parceria, amarrou minha vida na Rede Globo e extensões. Vamos por partes.
Pela quantidade de vezes que Cícero Leuenroth, o big boss da Standard, começou a entrar na minha sala no começo do ano, pelas mordomias profissionais (sala, staff etc.) concedidas a um simples contato, desconfiei que ele estava desconfiando que eu pensava em encerrar meus cinco anos de muito trabalho e vitórias na Standard Propaganda. Assim que ele pegou um avião para Los Angeles, comuniquei ao gerente, Maurice Cohen, que estava de saída da empresa. Sem a mínima ideia do que pretendia fazer, enquanto descansava de um ano anterior de trabalho estressante, fui surpreendido com a visita, em minha casa, de José Carlos Manso Cabral, vice-presidente da Construtora José Lessa Ribeiro, de Salvador, e da qual fui o primeiro contato e atendi à conta, por bom tempo, inclusive enquanto implantava a nossa agência lá na Bahia. Quando tive que enfrentar desafios mais exclusivos, fazia um “police” no atendimento deles. Como fiz amizades lá, ao sair da Standard, mandei um bilhete, na qualidade de amigo. Síntese: a Construtora decidira que eu podia sair da Standard, mas não da vida deles, que pagariam o mesmo salário que eu ganhava e assim começou minha ponte aérea, Rio/Salvador/Rio. Meses depois, Dil Thome, que também saíra da Standard, disse-me que estava à minha disposição a direção da Kadette Propaganda, uma agência da Exposição Modas, uma grande loja de departamentos no Centro do Rio. Peguei um avião, fui a Salvador, coloquei o problema para a Construtora que me liberou. Na Kadette, transformando-a numa agência de mercado, ganhei logo uma concorrência da conta da Lan Chile – Linhas Aéreas do Chile e uma conta de enorme prestígio: da Rede Globo de Televisão. A José Lessa Ribeiro começou a sofrer graves problemas financeiros e ainda trabalhei para eles de graça alguns meses, coisa que até alguns diretores estranharam, mas agradeceram. Em seguida, por problemas arriscados de despesas e atrasos com débitos da Kadette, resolvi descansar e alegando o não compromisso da direção da Exposição com nosso acerto inicial, resolvi descansar e flanar por uma cidade que ainda tinha uma grande porção de maravilhosa. Aproveitei o ócio, fui a Casablanca, Lisboa, Madri, Barcelona, Roma, Florença, Paris e Londres.
De volta, encontrei meu velho e grande amigo que estava encerrando suas atividades em São Paulo, onde, nos anos 1950, nos conhecemos para sempre, aos pés da estátua no saguão da Biblioteca Municipal. Cyro, um artista que fizera do designer e da arquitetura promocional seu universo de faturamento e estava especulando no mercado carioca, indagou se eu não queria fazer um teste para tentar vender o talento dele. Topei, encontrei um mercado cheio de demanda reprimida e daí nasceu a Macy Comunicação, instalada num sobrado em Botafogo. As coisas foram muito bem para mim, mas os 50% do lucro não cobriam as necessidades do parceiro, que mantinha, em São Paulo, ex-esposa e cinco filhos. Arrumei uma executiva para me substituir e fui flanar mais um pouco. Essa flanação durou pouco, pois Murilo Nery, que eu conhecera fazendo um trabalho para a Kadette, fora chamado pela Globo para chefiar uma empresa criada para uma parceria com a “Disney on Parade”, empresa norte-americana. Nery, supondo que minha parceria com o Cyro continuava, me chamou. Não continuara, mas percebi o megatamanho do negócio que era apoiar e suprir as necessidades de uma série de espetáculos no Maracanãzinho e no Ginásio Ibirapuera, em São Paulo. Cyro achou que só poderia enfrentar o desafio se eu entrasse numa parceria com ele. Entrei, então, na operação “Disney on Parade”, cujo trabalho inicial era criar um palco de 800 m²(!) desmontável para viagens para São Paulo, por terra e, depois, por navio para outros destinos. Os gringos chegaram e numa reunião inicial ficou decidido que eu seria o contato entre o gerente operacional deles, no Maracanãzinho, e o Cyro em nosso escritório. Providenciei a compra da madeira e ferragens necessárias para a construção do palco, arregimentei a mão de obra e iniciamos a operação que se estendeu por criação e produção de muitas outras peças necessárias para os shows no Brasil. Em paralelo, Nery me entregou uma lista dos profissionais necessários para a realização dos shows: eletricistas, contrarregras, “maquinistas” etc. e pediu que eu arranjasse esses recursos humanos e entregasse a ele um orçamento. Conclusão, ganhando 10% sobre a folha de pagamento dominical, encarreguei-me de ser o “trem pagador” da mão de obra local, no Rio e São Paulo. Para a Paulicéia eu ia, todo domingo, pela Ponte Aérea, com uma maleta de dinheiro na mão. Foi nessa época que Alfred Buzaid, ministro da Justiça (sic) da ditadura, proibiu, através da Censura, que qualquer veículo de comunicação divulgasse que uma epidemia de meningite assolava o país. Não se sabe o número de mortos assassinados pelo silêncio da justiça brasileira…
Quanto ao “Disney on Parade”, face ao sucesso obtido, resolveu realizar uma outra temporada no Brasil e, entre outras coisas, Murilo Nery recebeu deles um Western (telegrama confiável da época): We wanted mr. Almeida.
Mr. Almeida e Cyro faturaram de novo os gringos e todo mundo foi feliz.
Confissão: Apesar das duas temporadas no Rio e São Paulo, como eu não tinha criança para levar, nunca assisti ao “Disney on Parade”.

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