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Versos

Sento-me diante do computador para escrever esta coluna. Assunto? Diversos: a falta de comida para os miseráveis (comida existe, o que não existe é …

Sento-me diante do computador para escrever esta coluna. Assunto? Diversos: a falta de comida para os miseráveis (comida existe, o que não existe é a distribuição para os miseráveis); a oferta de educação para todas as classes sociais; o excesso de automóveis nas ruas, ou a falta de ruas para tantos automóveis, enfim, assuntos não faltam, o que falta é apetite para escolher um e mergulhar no jogo de palavras. O desaparecimento do Amarildo poderia gerar uma bela crônica, como fez Drummond no poema O desaparecimento de Luísa Porto.

Drummond? Peraí: Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. Esses versos do poeta maior em Campo de flores sugerem o caminho das pedras.

Salta uma crônica sobre versos que impregnam a admiração do colunista, sem ideia de antologia ou coisa parecida. Versos, apenas versos, poemas ou fragmentos de poemas. Versos…

Eu faço versos como os saltimbancos

Desconjuntam os ossos doloridos.

(Soneto – Mário Quintana)

Liberdade  essa palavra,

que o sonho humano alimenta:

que não há ninguém que explique,

e ninguém que não entenda!

(Cecília Meireles – Romanceiro da Inconfidência)

A praça, a praça é do Povo!

Como o céu é do Condor!

(A Praça – Castro Alves)

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?!…

Silêncio!… Musa! chora, chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto…

(Navio Negreiro – Castro Alves)

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena! Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português

(Erro de português – Oswald de Andrade)

No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

(No meio do caminho tinha uma pedra Carlos Drummond)

Era preciso que um poeta brasileiro,

não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,

girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver

como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,

de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior

onde nem sempre se usa gravatas mas todos são extremamente polidos

e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,

preso à tua pantomima por filamentos de ternura e riso dispersos no tempo,

viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse

para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

(Canto ao homem do povo Charlie Chaplin – Carlos Drummond)

Onde não há jardim, as flores nascem de um

secreto investimento em formas improváveis.

(Campo de flores – Carlos Drummond)

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

 Imagino Irene entrando no céu:

– Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

(Irene no céu – Manuel Bandeira)

Tu queres ilha: despe-te das coisas,

das excrescências, tira de teus olhos

as vidraças e os véus, sapatos de 

teus pés, e roupas, calos, botões e

também as faces que se colam à

tua, e os braços alheios que te abraçam

e os pés que querem ir por ti, e as moças

que querem te esposar, e os ais (não ouças!)

(Invenção de Orfeu – Jorge de Lima)

Amor chovia

Choveriscou

Tava lavando roupa maninha

quando boto me pegou

Ó Joaninha Vintém

Boto era feio ou não?

Ai era um moço loiro, maninha

tocador de violão

Me pegou pela cintura…

Depois o que aconteceu?

Gente!

Olhe a tapioca embolando nos tachos

Mas que Boto safado!

(Cobra Norato – Raul Bopp)

Ouve como o silêncio

Se fez de repente

Para o nosso amor

Horizontalmente…

(Oxford – Vinicius de Morais)

Hora de comer — comer!

Hora de dormir — dormir!

Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

(Filosofia – Ascenso Ferreira)/

Residem juntamente no teu peito 

Um demônio que ruge e um deus que chora.

(Dualismo – Olavo Bilac)

Foi em março, ao findar das chuvas, quase à entrada

Do outono, quando a terra, em sede requeimada,

Bebera longamente as águas da estação,

Que, em bandeira, buscando esmeraldas e prata,

À frente dos peões filhos da rude mata,

Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão.

(O Caçador de Esmeraldas – Olavo Bilac)

Ao redor da vida do homem

há certas caixas de vidro,

dentro das quais, como em jaula,

se ouve palpitar um bicho.

(O Relógio – João Cabral de Melo Neto)

A porta do barraco 

Era sem trinco

E a lua, furando o nosso zinco

Salpicava de estrelas 

O nosso chão…

E tu 

Tu pisavas nos astros distraída

Sem saber que a ventura desta vida, 

É a cabrocha, 

O luar 

E o violão…

(Chão de estrelas – Orestes Barbosa/Sílvio Caldas)

Sou Flamengo e tenho uma nega chamada Tereza

(Paraíso Tropical – Jorge Ben Jor)

Inté.

 

Vitrine (Correio virtual)

Grande Mario, lembrar de Magaldi é sempre muito bom. Obrigado pela coluna de hoje e um bjo em Áurea. Para vc o costumeiro abração, Nelson Gomes, São Paulo.

Jovem Mario, bom dia… retornando ao Recife agradeço a lufada de bom oxigênio… Moisés Andrade, Olinda/Recife.

Querido amigo Mario, deliciosas memórias de suas viagens, mas imaginar o povo sentado no sanitário público é difícil… Que situação! Beijos, Monica Magaldi Suguihura, Bebedouro, SP.

Amado Irmão/cunhado Mario, é sempre um bálsamo em meus dias difíceis ler você em sua Coletiva. Parece que, desta vez, viajei com vocês! Envio meu amor, Lúcia Aguiar, Fortaleza.

Autor

Mario de Almeida

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