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Vestígios de Outono

“Muitas vezes, como a vida é tão pouco cronológica, eu vivia um dia ou dois atrás de mim, de quando ainda amava Gilberte”. Marcel …

“A maior parte da nossa memória está longe de nós”.

Marcel Proust.

Em seu refúgio em Paris e isolado dos sons e barulhos das ruas, Marcel Proust revisitava os Outonos da infância em sua fictícia Combray. Desde então, ficou difícil, talvez impossível para o aprendiz de escritor se aventurar sobre o Tempo e Esquecimento, sem recorrer à busca da memória como recriadora do passado. Quando percorrer o caminho de Guermantes, ao invés das lembranças venturosas, tropeçamos em estranhamentos e incertezas de uma vida sem sonhos.

***

Os caminhos proustianos de Outonos são marcados por símbolos e imagens de tempos repassados. Começam em uma alameda de plátanos, que deságua em uma praça forrada por folhas mortas, que serão levadas pelo primeiro vento. Ao dobrar a esquina da minha rua, um músico toca ao violino uma canção que acorda vozes esquecidas.                                                   

Mesmo depois do tempo passar, sobraram vestígios da antiga ladeira pavimentada por pedras de granito cinzento. Os sobrados brancos e as casas porta-e-janela foram apagadas, mas alguns teimosos jacarandás continuam floridos, lembrando amores mal resolvidos e dos queridos que desapareceram sem avisar.                     

Em outro lugar mais além, um menino tenta gravar suas iniciais nas lajes de ardósia rosa, usando um prego enferrujado. Mas a paisagem se transforma e não vejo mais calçadas cobertas por flores roxas. Meu olhar ao Outono procura por cenários de outras Primaveras, que ficavam mais distante a cada passo que dava.  Agora, resta este céu outonal, com uma luz dourada embalada por palavras de antigamente. Logo chega o lamurioso toque dos sinos da Igreja de Santa Terezinha, onde um menino que não consegue chorar, olha com espanto as flores azuis e brancas que cobrem o chão da capela onde o pai foi velado.

***

O Tempo sabe ser enganador, manipulando nossas lembranças e reminiscências. Os anos já se foram, os cabelos banquearam e quando o filho pergunta como era o passado, só sabemos dizer:

 “– Não lembro mais como foi, mas não deve ter sido como lembro”.

***

 

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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