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Vinicius

Na noite de 25 de setembro de 1956, fui ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro assistir ao espetáculo Orfeu da Conceição, texto de …

Na noite de 25 de setembro de 1956, fui ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro assistir ao espetáculo Orfeu da Conceição, texto de Vinicius de Moraes que marcou o início de sua parceria com o maestro Antonio Carlos Jobim. Encenado pelo Teatro Experimental do Negro de Abdias Nascimento, foi a primeira vez que um elenco de atores negros ocupava aquele teatro, com direção de Léo Jusi e cenário de Oscar Niemeyer.

Após o espetáculo, apresentado ao poeta por um amigo comum, mal começamos a conversar quando uma linda senhora apresentou-se para cumprimentá-lo. Retirei-me sem me despedir, pois eu não existia mais.

Esse conhecido fascínio do poeta pelo belo feminino expressou-se em sua obra e comprovou-se em sua vida atrvés dos casamentos.

Ao longo de sua vida, ele se casou nove vezes: Tati de Moraes, Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Nelita de Abreu, Lúcia Proença, Christina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues e Gilda de Queirós Mattoso. Pode parecer, pela quantidade, que foram relações-relâmpagos, curtas. Puro engano. Relações de onze, de sete e de cinco anos marcaram a atribulada carreira matrimonial do poeta.

Dessas nove mulheres, conheci apenas duas, Lúcia Proença e Christina Gurjão.

A belíssima Maria Lúcia Proença foi conhecimento apenas de uma noitada, em sua própria casa, em Montevidéu, onde seu marido, Vinicius de Moraes, era o adido cultural do Brasil. Contei aqui que um grupo gaúcho, por mim dirigido, foi ao Uruguai, em 1958, apresentar um espetáculo de poesias coreografadas, Poetas & Poemas.

Depois do espetáculo, fomos à sua casa e, violão na mão, o espetáculo foi o próprio Vinicius até o sol raiar. Naquela época, o que mais se ouvia nas rádios brasileiras era

  Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim

  Que nada nesse mundo levará você de mim

  Eu sei e você sabe que a distância não existe

  Que todo grande amor só é bem grande se for triste

  Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer

  Pois todos os caminhos me encaminham pra você

  Assim como o oceano só é belo com o luar

  Assim como a canção só tem razão se se cantar

  Assim como uma nuvem só acontece se chover

  Assim como o poeta só é grande se sofrer

  Assim como viver sem ter amor não é viver

  Não há você sem mim, eu não existo sem você

  Muitos anos depois da noitada uruguaia, quando nos reencontramos no Rio, no Antonio’s, Vinicius me rebatizou: Almeidinha.

   Quanto a Christina Gurjão, frequentadora do Antonio’s, sexta esposa do poeta, com quem teve a filha Maria, conheci de muitas noitadas e lá começou uma amizade que culminou com a colaboração dela no meu livro Antonio’s caleidoscópio de um bar, do qual reproduzo um trecho:

…”Nesta época era raro eu ir ao Antonio’s. Havia vivido em Portugal dois anos, como correspondente de O Globo, e depois em Itaipava mais dois. Numa descida para ver minha irmã e meus filhos mais velhos, marquei com meu companheiro Roberto Paulino para nos encontrarmos no Antonio’s quando ele saísse do Jornal do Brasil, onde trabalhava na Editoria Política. Enfim sempre é bom ver amigos e estar em dia. Neste tempo eu morava na roça e era feliz. Logo após Roberto ter chegado, adentra o poeta Vinícius de Moraes. Estávamos espremidos no início do bar. Era a primeira vez que Vinícius via o homem que criava a nossa filha Maria e a quem ela chamava “papai Roberto”. Como sempre a grandeza de Vinícius veio à tona. Quando eu apresentei um pai (o que fez) ao outro (que a criou e até hoje a acompanha), Vinícius disse: “Que prazer lhe conhecer, papai Roberto. Quero lhe dizer muito obrigado por criar ‘a nossa filha Maria’.”

Vinicius escreveu um belo poema para Christina

  Quando a luz dos olhos meus

  E a luz dos olhos teus

  Resolvem se encontrar

  Ai que bom que isso é meu Deus

  Que frio que me dá o encontro desse olhar

  Mas se a luz dos olhos teus

  Resiste aos olhos meus só p’ra me provocar

  Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

  Meu amor, juro por Deus

  Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

  Quero a luz dos olhos meus

  Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

  Pela luz dos olhos teus

  Eu acho, meu amor, que só se pode achar

  Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

  Vinicius foi um dos seres mais delicados que conheci, no entanto, cometeu comigo uma indelicadeza involuntária: morreu no dia do meu aniversário.

  Inté

Vitrine (correio virtual)

Oi, estou ficando preocupada com minhas previsões. Sabia que ias escrever sobre Vinicius. Como sabes rir de minhas bobagens, guenta aí. Coisa muito linda e verdadeira esse poema. Da viagem eu até sabia mais, pois dali pariste o Trem de Volta. Homem pare criando obras. Mulher também pode, nesse caso temos vantagem. Quando é poesia, melhor ainda. Bj. Vera Verissimo, Porto Alegre

 … viva a vida … Moisés Andrade, Olinda/Recife

 (Ao pé da coluna chegou)

Se todos soubessem viver igual a você… – “Que bela história e homenagem ao Poetinha, Mario. Onde quer que ele esteja, deve ter levantado um brinde, com um bom scotch, à sua saborosa crônica.” Carlos E. F. Cunha – Santo Amaro da Imperatriz/SC

Autor

Mario de Almeida

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