José Antonio Vieira da Cunha é o Diretor e Editor de Coletiva e eu, pelo andar da carruagem, acabo sendo o editor da minha coluna – e não é por preguiça. Acontece que além do leitor deste espaço ser qualificado e a intercomunicação ser fácil, chovem em abundância comentários e até crônicas, como fez o meu amigo José Antonio Moraes de Oliveira, que escreveu um texto tão bom à margem de minha penúltima coluna que o Vieira publicou-o. Inclua-se no gesto a vontade de repartir com leitores bons momentos de leitura.
Gustavo Borja Lopes, lendo uma crônica minha sobre propaganda, mandou-me um e-mail perguntando quando eu lançaria um livro contando casos da profissão, pois ele tinha alguns para me passar. Eu respondi “manda” e acrescentei que como o pai dele dizia que eu era a cafetina dele, memória do mesmo, eu seria também a cafetina do filho. Gustavo é filho do Mauro Borges Lopes – o Borjalo –, fez parte da minha equipe na Fundação Roberto Marinho e hoje empresta seu brilho à TVE. Foi, inclusive, quem fez o Jô Soares, outro amigo, entrevistar-me ainda no SBT.
Conta aí, Gustavo:
O “pedido” veio de Brasília, naquele final de governo Figueiredo: a Fundação Roberto Marinho tinha que produzir um bom VT sobre o Museu Villa-Lobos. Mesmo sem ordens palacianas, tínhamos mesmo que fazer um bom VT sobre o Museu Villa-Lobos. Nem é preciso explicar o motivo. Villa é Villa. Merece.
Mario de Almeida me chama à sala dele, e vai logo me brifando: “Você tem uma reunião depois de amanhã, às dez horas, com D. Arminda Villa-Lobos, na sede do museu, lá no Palácio Capanema. Leve um redator e um editor e recolham o máximo possível, tanto em informações para o texto, quanto em fotos, iconografias, o que tiver de imagem”. Eu já ia saindo da sala quando Mario arrematou: “Ah! E depois da reunião convide Mindinha para almoçar. Peça verba para isso lá na Administração. Leve ela num bom restaurante, heim?!”.
Convoquei o redator Mário Lago Filho e o editor Maurício Palleta. Em seguida, peguei o dinheiro do almoço com o tesoureiro da Fundação, que me fez um importante pedido: “A nota fiscal do restaurante precisa discriminar o que foi consumido. Não pode mais colocar somente ‘quatro refeições’. Novas normas da casa!”.
Na data e hora marcada estávamos os três lá, animados com o trabalho e também com a perspectiva de um baita almoço, boca-livre. A verba era boa, acima da média da Fundação. Nos reunimos com Mindinha, que, muito simpática, nos ofereceu um baú cheio de boas fotos, toneladas de informações e, o mais importante, um delicioso bate-papo. Mindinha recordou as passagens do velho maestro; Mariozinho evocou as canções do pai dele, Mario Lago; eu lembrei alguns cartoons de meu pai, Borjalo; Maurício, o mais novinho do grupo, ouvia tudo, em estado de graça. Nas despedidas, mandei o convite: “Almoce conosco, Dona Arminda. A senhora é convidada da Fundação Roberto Marinho”. Mindinha, doce como sempre, sorriu e disse: “Estou sem fome, meu filho. Fica para uma próxima vez”.
Descemos ao térreo, calados. Nas pilastras do palácio, a caminho do carro, Mariozinho Lago, com um sorriso matreiro, me mandou a indireta: “Estás pensando o mesmo que eu?” “Estou, Mario. Mas eu preciso que vocês sejam mais que meus parceiros, sejam cúmplices…”. Maurício não sacou a mensagem codificada, mas nós dois explicamos que seria uma mentirinha à toa, em comparação com as delícias que nos esperavam no Antiquarius. Topou na hora. Teve entrada, bacalhau, vinho branco, licor, tudo sob a supervisão do eficiente maitre Manoelzinho. Ao final, pedi a nota. “Discriminada!”, fiz questão de frisar.
Voltando à Fundação, enviei ao tesoureiro a prestação de contas do “almoço da equipe com a convidada Arminda Villa-Lobos”, junto com a nota-fiscal e o pouquinho de dinheiro que sobrou. No dia seguinte, toca meu ramal. Era o tesoureiro: “A nota só discrimina três pratos. Vocês não eram quatro? Está escrito aqui…”. Caiu a ficha. Dei mancada. Respirei fundo, cheio de remorso, mas respondi sem perder o rebolado: “Dona Arminda e eu estávamos com pouca fome. O ‘Bacalhau à Lagareira’ do Antiquarius dá para dois, mole…”
Dona Arminda faleceu pouco depois. Te devemos essa, Mindinha!
Conclusão do titular da coluna: Malandro que é malandro come bacalhau para um, mas arrota só a metade.
Inté.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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