Entre as muitas pessoas famosas que visitaram nosso Teatro de Equipe, em Porto Alegre, nos muitos idos anos de 1960, dois nordestinos haviam se destacado em suas atividades: Francisco Julião e Ascenso Ferreira.
Francisco Julião Arruda de Paula (1915-1999), fundador em 1955 e líder das Ligas Camponesas, foi um advogado, político e escritor brasileiro, nascido e atuante em Pernambuco e cujo objetivo era lutar pela distribuição de terras e os direitos para os camponeses.
Como a minha peça, O Despacho, estava em cartaz, Julião foi um de seus espectadores.
Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965) foi um poeta pernambucano que ficou muito popular pelo seu poema Filosofia:
Hora de comer,
– comer!
Hora de dormir,
– dormir!
Hora de vadiar,
– vadiar!
Hora de trabalhar?
– Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
Quase dois metros de altura, com um inseparável chapéu de palha, Ascenso era uma mistura de branco, negro e índio, um representante, ao vivo, da famosa miscigenação brasileira.
Ainda que tivesse sido celebrado por seus muitos versos humorísticos, Ascenso ainda deixou um belo legado de poemas diversos, inclusive líricos.
Entre versos aparentemente humorísticos, ele conseguia passar um retrato trágico da realidade que o cercava, como é o caso de Predestinação:
– Entre pra dentro, Chiquinha!
Entre pra dentro, Chiquinha!
No caminho em que você vai,
você acaba prostituta!
E ela:
– Deus te ouça, minha mãe…
Deus te ouça…
Certa vez, lembrando-me desse poema do Ascenso, escrevi o miniconto mais cruel da minha vida, Destinação:
– Zé, manhã vô s’imbora
– Pra onde, Chiquinha?
– Pra zona.
– Quando sobrá algum, me manda.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Virgem, que coisa linda!!!!!!! Mario, querido Amigo, se você permitir, vou enviar para Deus e para o mundo!!!
“…as dores, quanto mais doídas, são as mais íntimas, são aquelas que não conseguem um texto para se exprimirem. São as dores incomunicáveis, as que dispensam interlocutores.” (Mario de Almeida), Marilia Vellozo, Rio
Mario
Esse seu texto de hoje sobre o dia das mães, caso você não tenha notado a coincidência, coincide com o dia da abolição da escravatura, tudo a ver, grande abraço, Ricardo Mello Abreu, Rio
Mestre Mario.
Muito tocante e inspirador seu relato. Imagino quantas pessoas, como você, tiveram a graça de ter uma Mãe Preta. Coisas de um tempo que não volta mais.
Minha mensagem só não está no pé da coluna porque comento que não sabia de sua depressão. Minha esposa, Sandra, teve logo depois do nascimento de Lara (10 anos). Não foi fácil. Rogo que melhore e supere mais essa, tio.
Abraço. Carlos Eduardo Cunha, Santo Amaro da Imperatriz, SC
Salve a última coluna! Justiça feita às mães pretas. Talvez muitas tivessem tido uma vida dura, mas muitas também eram muito queridas nas famílias. Eu sempre digo que tive uma filha preta, lembras de eu ter comentado sobre a empregada que ficou comigo 34 anos? Retirou-se definitivamente, o que muito nos entristeceu, por causa do diabetes, tem tido muitas complicações, quase perdeu uma perna. Mas me resigno sabendo que está na sua casinha, num terreno que lhe demos e que ela encheu de flores, uma horta e árvores. O que é digno de nota, pois muito pouca gente sabe o que é uma horta. E, sorry pela depressão, preferia que não fosse assim.
Bj, Vera (Verissimo), Porto Alegre

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