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Você sabe com quem está falando?

Por Carlos Guimarães

Eu li no Twitter essa frase e ela é sensacional. O autor é Caio Almendra (@CaioAlmendra). Alô, Caio! Quando for dar aquele famoso egosearch nas redes sociais (quem nunca?), saiba que estou garantindo o crédito a você. Espero, de coração, que não tenha plagiado. A frase é: “Agora que todo mundo tem câmeras no bolso, os OVNIS sumiram e a violência policial está em todo lado”. Brilhante.

Com um rápido passeio pelas redes sociais, especialmente pelo Youtube, é possível verificar que as grandes histórias sobrenaturais não foram devidamente documentadas pelo homem na era dos smartphones. Nesse mundo registrável, em que um ovo cozido precisa ser fotografado, ninguém mais viu seres de outros planetas, fantasmas, almas penadas, aparições inesperadas ou fenômenos inexplicáveis. Ninguém registra mais o mistério. Talvez porque ele não exista ou talvez porque os vultos descobriram que não dá mais para dar um rolê na Terra de forma sigilosa. É claro que estas estórias (com “e” mesmo) eram baseadas em folclore, teorias da conspiração e ficção. Não se filma o que não existe.

Em compensação, é possível cada ver mais ver a vida como ela é. A vida de verdade, aquela que escapa aos olhos de quem vive a vida sem ver a vida, que, no caso, é algo que todos nós fazemos. Os dias são corridos, o pensamento está voltado para cumprir tarefas. Mas há, neste sentido, uma transformação: o que antes parecia inusitado e que a gente levava para o bar como uma conversa daquelas que “só eu tenho”, hoje é usual. Torna-se ordinário porque há o registro. Não é a foto ou o vídeo que tornam isso cotidiano. A gente só está mostrando mais.

Em Santos, desembargador comete abuso de autoridade, desacata guarda municipal, humilha o funcionário com o famoso “você sabe com quem está falando?” e isso tudo é registrado em vídeo. Ele não teve sequer vergonha de seguir destratando um trabalhador. Não é a primeira vez que a gente vê isso. Na minha coluna passada, destacava como assunto a briga entre o “engenheiro civil, superior a vocês”, sua esposa e o fiscal da prefeitura do Rio. Novamente, documentado. Não escapa mais nada do cotidiano.

Não lembro quantas vezes um ouvinte reclamou comigo (por telefone ou em redes sociais) de alguma coisa que falei “no ar” usando o “tem que fazer o que eu quero, eu pago teu salário”. Dias desses, um sujeito me interpelou no Twitter dizendo que “quando eu fui demitido, ele segurou meu emprego”, lembrando de um caso que aconteceu em julho de 2018 (procure na Internet, não é um assunto que eu gosto de falar). Antes, eu me revoltava. Hoje, eu dou risada. Primeiro, que em qualquer relação trabalhista, o que paga o salário é aquilo que eu forneço como mão de obra. Parece papo marxista (ok, é), mas não consigo achar nada que seja tão direto quanto explicar as relações trabalhistas desta forma. Em segundo lugar, quando se estabelece uma hierarquia invisível nas relações que são estruturadas por trabalho ou “status social”, temos um nítido caso de abuso, preconceito e domínio de poder sobre o outro. E, por fim, em terceiro lugar, quem se utiliza desse subterfúgio tem, em geral, insegurança, baixa autoestima, disfunções sociais (talvez físicas) e um grau de crueldade que torna essa pessoa insignificante. Mas, dentro de si, existe aquela superioridade arrogante de querer demonstrar uma grandeza (mais para provar para si do que para o outro) através do cargo, do dinheiro ou de uma relação falsa de poder, que ele não teve ali.

Teve uma vez em que um sujeito, numa discussão de rede social, tentou me humilhar, escrevendo que “até te deixo abastecer num dos tantos postos de gasolina que eu sou dono”. Ok, dono de posto, obrigado pela benevolência. A decadência moral em que o país está faz a gente ler coisas como essa.

Mas por que eles dizem isso tudo? Ora, porque funciona. Porque eles contam com uma condescendência tão grande de quem se submete a isso que, (in)conscientemente, quem não é desembargador (ou dono de posto) assume sua inferioridade na hora. No fundo, essa utopia que as ciências humanas carregam de desafiar, fiscalizar ou, até mesmo, enfrentar o poder, é balela. Quem não está nessa posição privilegiada nessa idiota hierarquia produzida pelos poderosos, ao fim e ao cabo, gosta de encher a boca para dizer que “é amigo do dotô” mais do que quando diz que “é amigo do Zé”.

As câmeras só revelam o óbvio. O desembargador, com salário de 73 mil reais, que já atropelou uma cancela de pedágio, que já brigou com uma copeira por não ter o suco que ele queria, vai repetir o ato. Ele só vai olhar para o lado para ver se ninguém está gravando. Funciona porque o Brasil é isso: ele não é o país do samba e do futebol. Ele é em que normalizamos a imoralidade como status quo. Imoralidade que está conosco quando nos deitamos eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo. Os risonhos lindos campos de desembargadores, donos de posto, engenheiros civis e competentes de porra nenhuma têm mais flores. Tudo disponível no YouTube. 

Autor

Carlos Guimarães

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