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Woody Allen, o brilho da neurose

Woody Allen faz rir porque nos fala abertamente sobre as nossas mais secretas dúvidas. Não tem medo de fatiar os tabus, como numa ressonância …

Woody Allen faz rir porque nos fala abertamente sobre as nossas mais secretas dúvidas. Não tem medo de fatiar os tabus, como numa ressonância magnética, e demonstrar que muitos dos nossos desejos, fantasias e neuroses, tidas por nós, no mínimo, como inconfessáveis, todo mundo as tem, e que, no fundo, o repertório de fetiches e tesões desencaminhadas, guardadas a sete chaves pelo portador, está lá, na telona, nos filmes do velho Woody. Por isso, a gente ri das suas sacadas. E quanto mais nos faz rir, mais desmistifica o ranço moral burguês, mais nos faz rir de nós mesmos e, sim, nos desassombra. Bang. E este é o seu maior talento.

Em Tudo pode dar certo (Whatever Works), Woody Allen consegue fazer um looping. Ele faz uma manobra tão radical que volta ao seu estado original, ou seja, tudo ali é ele, é a sua história. O fio de sua inteligência é uma navalha. É magnífico quando usa o protagonista (Larry David) para dizer o que pensa e sente sobre o amor, o desamor, o seu encanto e desencanto com a natureza humana. Não disse pouca coisa. Só para dar um trechinho, disse, com outras palavras, que a bíblia é um livro virtuoso, e que O Capital, de Marx, contém a fórmula justa e irretocável, para que os mecanismos de produção e resultados sejam distribuídos de forma equânime, e assim fazer a felicidade de todos. E logo completa: “São dois livros que não servem para nada, pois o ser humano, essencialmente e, de modo geral, não tem boa índole. Tanto é verdade que foi necessário instalar células fotoelétricas nos vasos sanitários dos banheiros públicos, pois as pessoas são incapazes, pelo bem comum, até mesmo de puxar a água e dar a descarga”.

Woody Allen fala sobre o amor exatamente como sempre pressenti que fosse, desculpe. Sempre achei que a relação amorosa, pelo muito de encantamento, quando começa, deveria ser duradoura, mas isso não corresponde aos fatos, como diria Cazuza. Não que a nossa piscina esteja cheia de ratos, mas não podemos ignorar as traças que vêm junto com o tecido amoroso. Como num genoma impresso em nossos corações, há um impiedoso prazo de validade para os nossos sentimentos inebriantes.

Muito se falou sobre os temíveis 7 anos de casamento, prazo em que chegam os filhos. A mulher sai de cena e entra a mãe, entra o pai. O cara começa a trabalhar até mais tarde, e às vezes, sofre pequenos incidentes, como sujar o colarinho de batom, num esbarrarão com uma colega, no corredor, ou no quartinho do arquivo morto. Coisas que acontecem, ela subiu numa cadeira para pegar uma caixa com notas fiscais, numa prateleira mais alta. Bem, escorregou, caiu por cima dele e, acidentalmente, tocou seus lábios carnudos no colarinho dele. Meu deus, um acidente (Fato que poucas mulheres são capazes de compreender e aceitar). Já aconteceu comigo. Sabe o que aconteceu quando contei a verdade para minha (ex) esposa? Contei que esbarrei numa colega, e por isso estava com a mancha de batom no colarinho, sabe o que aconteceu? Apanhei na cara. Francamente, não entendo a incredulidade feminina.

Quando comecei a escrever esta crônica sobre o amor (e seus demônios), sabia que estava entrando num labirinto. Onde você pensa que estou agora? Perdido, é claro. Por mais que se pense e que se façam reflexões mais abstratas, etéreas e até filosóficas, mais me convenço que os estados de encantamento, em que os “zóinhos” dos enamorados se tornam cintilantes, ora, isso é para quem que conhece a senha que abre as portas do paraíso.

A senha? Eu sabia, mas não sei onde guardei, não sei que fim levou. Mas conheço quem sabe. Fale com aquelas pessoas que no fim do dia põem cadeiras na calçada, para conversar. Fale com elas.

Autor

Paulo Tiaraju

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