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Durante décadas, a Comunicação foi construída sobre um princípio central: emocionar para persuadir. Narrativas envolventes, símbolos aspiracionais e campanhas memoráveis moldaram a forma como as marcas disputaram a atenção e preferência. Entretanto, algo silencioso está mudando essa lógica. Cada vez mais, antes de uma decisão de compra chegar ao consumidor, ela passa por um filtro invisível: algoritmos que pesquisam, comparam, organizam e sugerem.

Na prática, parte significativa do tráfego digital já não é humano. Assistentes inteligentes, agentes autônomos e modelos de linguagem navegam por sites, leem descrições, cruzam avaliações e retornam com respostas prontas. “Quando procuramos um produto, uma passagem aérea ou um hotel, algum algoritmo rodou em vários sites e produziu um conteúdo para mim”, explica Thiago Rigo, professor da Escola de Comunicação, Artes e Design — Famecos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). “Hoje, boa parte de quem ‘olha’ campanhas e sites são as IAs. Não somos só nós.”

Isso não significa o fim do storytelling, mas muda o lugar na estratégia. Segundo Rigo, não é terra arrasada. O consumidor continua existindo e nem todos os processos são 100% digitais. Porém, há uma nova etapa anterior ao olhar humano: a etapa da leitura algorítmica. “Não adianta ter uma campanha linda se parte de quem está sendo impactado não é humano. Estamos entendendo isso agora, como foi com o Search Engine Optimization (SEO) no passado.”

Se antes o desafio era aparecer nos buscadores, agora é ser compreendido por sistemas generativos. Conteúdos precisam ser mais escaneáveis, mais indexáveis, mais estruturados. Descrições detalhadas, dados técnicos claros, preços atualizados, condições logísticas e avaliações consistentes ganham protagonismo. A persuasão desloca parte do seu eixo da emoção para a lógica.

A confiança migra, mas não desaparece

Quando um assistente digital apresenta três opções de produto, o primeiro filtro já foi feito. A pergunta inevitável é: a autoridade está migrando da marca para o sistema?

“Quando o agente traz a resposta, ele busca atender à sua necessidade, independentemente da marca”, comenta Rigo. “Você passa a confiar no Chat GPT, no Gemini, em quem está fazendo o primeiro filtro.” A lógica não é nova: marketplaces já funcionam assim. O consumidor confia no mecanismo de busca da plataforma para organizar as alternativas.

Contudo, isso não elimina o papel do branding. Ao contrário. Se o sistema recomendar uma marca desconhecida, a decisão final ainda será humana. “A credibilidade das marcas continua sendo essencial. O agente traz as opções, mas o histórico, a reputação e a percepção acumulada pesam na decisão.”

Para Gabriel Casara, Chief Growth Officer (CGO), ou diretor de Crescimento em tradução livre, da BlueMetrics, o fenômeno exige uma mudança profunda de mentalidade. “Hoje, a maioria das marcas organiza sua informação pensando em SEO e na navegação humana. O que está mudando é que, antes de chegar no humano, essa informação passa por uma camada de interpretação de IA.”

Casara afirma que o debate vai além de SEO. Alguns já falam em Answer Engine Optimization (AEO), ou Otimização para Mecanismos de Resposta, estratégia voltada a tornar conteúdos mais compreensíveis para ferramentas que entregam respostas diretas ao usuário, como assistentes de IA e buscadores generativos. Outro conceito em ascensão é o Generative Engine Optimization (GEO), ou Otimização para Mecanismos Generativos, focado em aumentar a relevância e a confiabilidade de conteúdos para plataformas de inteligência artificial generativa.

Contudo, para ele, o ponto central é a governança de informação. “A IA não se encanta com storytelling. Ela busca dados comparáveis: especificações claras, preços, avaliações, reputação mensurável. Se os dados estão fragmentados ou inconsistentes, a marca simplesmente não aparece.”

Na prática, isso já acontece. Empresas com bons produtos deixam de ser recomendadas porque suas informações estão espalhadas, desatualizadas ou mal estruturadas. “É o equivalente digital a ter uma loja excelente numa rua que não está em nenhum mapa”, resume.

O funil colapsou?

Se a IA antecipa etapas da jornada, o tradicional funil linear perde sentido? Para Nicolas Pedroso, Product Owner — profissional responsável pela gestão e evolução do produto — da Dinamize, a resposta é menos dramática do que parece.

“A IA não substitui a automação, ela antecipa etapas. O modelo não acabou, ele virou um ecossistema dinâmico.” Conforme ele, pesquisa, comparação e decisão continuam existindo, porém de forma mais fluida e distribuída. Plataformas de automação passam a integrar dados de navegação, eventos de e-commerce e sinais de intenção capturados, inclusive a partir de interações mediadas por IA.

Quando o consumidor sai da pesquisa e acessa um produto, os sistemas identificam o comportamento e acionam fluxos personalizados. A lógica deixa de ser apenas reativa e passa a ser preditiva. “Branding e inteligência de dados não competem. Operam de forma convergente.”

A reputação, reforçada por avaliações, recorrência e prova social, alimenta tanto a percepção humana quanto os critérios utilizados pelos modelos de linguagem. No entanto, a reputação algorítmica não nasce do dado isolado, nasce da construção simbólica acumulada ao longo do tempo.

Marcas bilíngues

A grande transformação talvez esteja na exigência de um novo tipo de fluência. Para Casara, as marcas precisam se tornar bilíngues: falar a linguagem emocional para pessoas e a linguagem estruturada para máquinas. “Se o branding é forte, mas os dados são ruins, a IA simplesmente não vai te recomendar.” 

Rigo complementa que estamos vivendo um momento de encantamento tecnológico. A simplicidade das respostas esconde a complexidade dos processos. “Nós, da Comunicação, precisamos entender de engenharia. Marketing orientado por dados não é mais diferencial, é competência básica.”

A transformação também é geracional. Enquanto os mais jovens dominam intuitivamente a tecnologia, os mais velhos carregam a capacidade crítica. A adaptação será coletiva e inevitável. “Esse é um caminho sem volta”, alerta Rigo.

À medida que assistentes inteligentes passam a pesquisar, comparar e recomendar produtos, as marcas enfrentam um duplo desafio: garantir que suas informações estejam estruturadas e legíveis para sistemas e, ao mesmo tempo, refletir sobre os impactos dessa mediação algorítmica nas escolhas de consumo. Estar presente nas respostas geradas por IA depende de dados consistentes, descrições claras e reputação organizada. 

Mas o avanço desses filtros também levanta questões importantes: os algoritmos ampliam ou limitam a diversidade de opções? Pequenas marcas conseguem competir em igualdade? E quem define os critérios que determinam o que será recomendado? Entre eficiência e transparência, o futuro do consumo passa cada vez mais por decisões que começam, invisivelmente, nas máquinas. 

Confiança algorítmica

Há, ainda, uma dimensão delicada nesse processo: a delegação crescente da decisão para sistemas que operam com critérios muitas vezes opacos. Se o consumidor confia no agente para filtrar opções, surge a pergunta inevitável: com base em que parâmetros essa escolha é feita? Relevância técnica? Histórico de navegação? Relações comerciais com plataformas?

A mediação algorítmica tende a simplificar a experiência, mas também pode reduzir a diversidade de opções apresentadas. À medida que os assistentes aprendem com padrões anteriores, a personalização extrema pode reforçar bolhas de consumo, limitando o contato com novas marcas e propostas. O que parece eficiência pode se transformar em repetição.

Para as empresas, isso impõe um novo desafio reputacional: além de serem confiáveis às pessoas, precisam ser transparentes e consistentes para sistemas. Dados corretos, informações verificáveis e coerência entre canais deixam de ser apenas boas práticas, tornam-se critérios de existência digital.

Comunicação técnica

Se antes o diferencial competitivo estava concentrado na criatividade, agora ele também passa pela arquitetura da informação. Marketing, tecnologia e dados deixam de operar em silos. A Comunicação passa a depender de times híbridos, capazes de pensar na campanha e, ao mesmo tempo, em estrutura semântica; narrativa e, simultaneamente, metadados.

Essa transformação altera inclusive o papel das agências. Não basta criar peças impactantes. É preciso garantir que produtos estejam corretamente classificados, que atributos estejam padronizados, que descrições sejam completas e que avaliações estejam organizadas. A construção de marca passa a dialogar com governança de dados.

Nesse cenário, o Marketing orientado por dados ganha uma nova camada de complexidade. Não se trata apenas de medir performance, mas de estruturar informação de forma estratégica. A competitividade deixa de ser somente simbólica e passa a ser também computacional.

O novo momento zero

Tradicionalmente, o “momento zero da verdade” era aquele em que o consumidor pesquisava antes da compra. Agora, esse momento pode acontecer antes mesmo da intenção consciente. Assistentes inteligentes monitoram padrões, antecipam necessidades e sugerem soluções antes que o desejo seja verbalizado.

A decisão fica mais fluida, menos linear e mais automatizada. O consumo tende a se tornar altamente personalizado, moldado pelo perfil de cada indivíduo, pela sua casa, sua rotina e seu histórico. Se, por um lado, isso amplia conveniência, por outro redefine o espaço de disputa das marcas: a batalha acontece cada vez mais no campo invisível dos dados.

A comunicação, portanto, não abandona a emoção, mas precisa aceitar que a lógica ganhou protagonismo. A criatividade continua essencial, porém agora convive com planilhas e engenharia de informação. A sedução não morreu. Ela apenas deixou de atuar sozinha.

Na era dos consumidores não humanos, convencer pessoas segue sendo fundamental, mas, antes disso, é preciso ser compreendido pelas máquinas que decidem o que as pessoas irão ver.

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Autor

Márcia Dihl

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