A “folha em branco” morreu. O silêncio criativo que antecedia um roteiro, um storyboard ou um plano de filmagem foi substituído pelo sussurro constante dos algoritmos. A Inteligência Artificial (IA) já não é uma ferramenta à disposição do audiovisual; ela é o novo solo sobre o qual a indústria se move, um ecossistema onde os estúdios são virtuais, os orçamentos são desafiados e o próprio conceito de autoria entra em colapso.

Enquanto a Forbes relata que estúdios globais já usam IA para edição automática e personalização de campanhas em massa, o Brasil vive seu próprio ponto de virada: a primeira Mostra de Filmes Gerados por IA, ocorrida durante o Festival de Cinema de Gramado, não é uma curiosidade marginal, mas o batismo de um novo campo de atuação. Nesse novo mundo, o profissional de Comunicação não pergunta se vai usá-la, mas como se tornará o arquiteto de realidades que essa ferramenta exige.
A infiltração silenciosa
A revolução começou de forma imperceptível. Não foram os avatares ultrarrealistas que primeiro dominaram o mercado, mas a IA discreta, que opera nos bastidores para baratear e agilizar produções complexas. Francisco Pereira, professor da Feevale, é curto ao dizer que “a IA já faz pra nós, mas não substitui o penso“, destacando o papel em automatizar o trabalho braçal e otimizar fluxos. No front do mercado essa visão se concretiza.
Alek Nascimento, diretor da Vídeo Alek, sustenta que o uso real da IA está em “coisas imperceptíveis”, citando o comercial da Claro, com Anitta como rosto principal, em que o planos de fundo foram gerados pela ferramenta generativa, tornando ideias “fora da caixa” viáveis com orçamentos enxutos. Ele revela um caso concreto: uma produção que custaria R$500.000,00 foi viabilizada com uma fração do valor usando IA para criar a estética de cenários, um processo estudado no artigo How AI Is Transforming the Video Production Landscape e publicado no Streaming Media, que confirma ser uma tendência global para “democratizar o escopo criativo”.
Esta democratização, no entanto, tem um impacto direto na cadeia produtiva. Francisco provisiona que “de três a cinco anos será obrigatório ter um setor que cuide de IA”, antevendo uma reestruturação organizacional inevitável dentro de agências e produtoras.
Do editor de vídeo ao ‘diretor-prompteur’

Enquanto isso, para o criador de conteúdo individual, a transformação é ainda mais radical. Uandrey Bergmann, especialista em IA que acumula mais de 200 mil seguidores do Instagram, projeta o fim de uma era: “o editor de vídeos de 2020 não existe mais. Hoje ele precisa entender de IA”. Bergmann vive o que prega: 90% do seu conteúdo é feito com avatares e vislumbra um futuro próximo onde “será muito acessível pedir à sua ferramenta, que já está arrumada, penteada, maquiada e bem vestida, gravar conteúdos audiovisuais. Tenho certeza que muito em breve, qualquer um vai poder criar isso”.
Esta não é uma visão isolada. O relatório da Wondercraft AI, indica uma explosão no uso de Inteligência Artificial para geração de vozes e podcasts, mostrando que a disrupção é transversal. No entanto, Alek alerta sobre o lado prático: “a divulgação da facilidade está atrapalhando um pouco o mercado”. Segundo ele, o cliente acha que é simples, mas para chegar a um resultado de qualidade, são necessárias dezenas de tentativas. O profissional deixa de ser apenas um executor para se tornar um curador obstinado, que domina a arte de guiar a inteligência artificial.
Este novo expert não é definido pelo software que opera, mas pela capacidade de traduzir intenção criativa em linguagem de máquina, um ofício que exige paciência e uma nova forma de pensar o processo. A exigência, como Bergmann antevê, é que “para atingir um nível de perfeição, precisa ter mais conhecimento ainda”, elevando, e não rebaixando, a barreira de excelência. Por outro lado, Marcio Toson, diretor do curta ‘As Marcas nas Paredes’ , pondera que o amanhã ainda é volátil, porque “as imagens ainda são geradas por meio de tentativa e erro. O resultado exige múltiplas etapas de refinamento. Mas, em um mês, a realidade pode ser outra, nos permitindo domínio completo sobre a geração”.
Emoção, autoria e a ética
Se a técnica está sendo dominada, a discussão sobre a alma da criação é o novo tópico. Toson traça um debate fundamental: “A IA, por si só, não gera emoção; ela é uma ferramenta para evocá-la, assim como o texto para um dramaturgo ou as notas para um compositor.” Para Toson, a emoção é um cálculo de probabilidades comandado pela intenção humana, uma reprodução de padrões que, sem a curadoria do artista, pode cair no clichê. É aqui que surge o nó central: a autoria.

Toson antevê um cenário de “coautoria que embaralha os limites”, envolvendo o criador do prompt e os incontáveis autores cujos trabalhos treinaram o modelo, uma questão que já mobiliza greves em Hollywood, conforme analisa a MIT Sloan Review. A solução, ele sugere, pode passar por modelos de remuneração para esses autores originais. Paralelamente, ele estabelece um marco ético crucial: na ficção, há liberdade; no documentário, é fundamental “deixar explícito o que é sintético e o que é real”. Essa ‘ética dos gêneros’ será um pilar para a credibilidade do Jornalismo e do documentário na era das deepfakes, um risco para as eleições de 2026 que o Professor Francisco prevê ser uma grande preocupação, alertando que “agências de checagem vão ter mais problemas do que nunca”.
Assim, enquanto a técnica avança em velocidade exponencial, a discussão sobre os pilares fundamentais da criação – quem sente, quem cria e com que responsabilidade – ganha urgência crítica. O que emerge não é apenas um debate tecnológico, mas uma reavaliação profunda dos próprios alicerces que sustentam a produção audiovisual: a emoção como território humano, a autoria como conceito em transformação e a ética como bússola indispensável. Esta tríade formará, portanto, o novo tripé sobre o qual se construirá não apenas a credibilidade, mas a própria legitimidade do audiovisual na era algorítmica.
Saturação estética versus criatividade expandida
A velocidade com que a IA gera conteúdo traz um paradoxo: a mesma ferramenta que amplifica a criatividade também acelera a saturação. Toson nota que “já podemos perceber isso em vídeos de redes sociais”, citando a repetição de fórmulas virais. O estudo Authentically Fake? How Consumers Respond to the Influence of Virtual Influencers sobre Marketing de Influência corrobora essa visão, indicando que a originalidade se tornará um diferencial crítico em um mar de conteúdo gerado por IA.
No entanto, o outro lado dessa moeda é vertiginoso. Uandrey prevê que “a IA tem a capacidade de entregar algo novo, algo nunca pensado antes”, comparando-a a um “investimento infinito para criar qualquer cena”. Essa é a promessa da IA generativa: tornar tangível o que antes era economicamente ou logisticamente proibitivo. Alek complementa essa visão, antevendo que “vamos ver cada vez coisas mais criativas, peças audiovisuais completamente fora do padrão”. O desafio para o criador, portanto, será navegar entre a facilidade que leva à homogeneização e a coragem de explorar os caminhos inéditos que a ferramenta abre.
A reconfiguração do mercado

O impacto no emprego e nas funções é inevitável, mas a análise das fontes aponta para uma reconfiguração, não uma aniquilação. Francisco provisiona um ‘efeito rebote’: “IA vai substituir posições, que serão revertidas em oportunidades para profissionais que a domine”. Funções altamente repetitivas ou baseadas em processos manuais padronizados são as mais vulneráveis.
Uandrey prevê que “muitas profissões mudam, fundem-se, somem e se criam”. O profissional do futuro, conforme descrito por Alek, será aquele que “entregará um resultado muito acima da média”, pois o básico estará ao alcance do próprio cliente. Essa elevação do padrão de qualidade exige um novo tipo de artesão: não mais aquele que domina apenas a ferramenta física, mas o que domina o conceito, a narrativa e a curadoria algorítmica. A revista Exame, recentemente, explorou justamente essa questão, questionando o valor da arte quando a produção técnica se democratiza. A resposta, ecoada por todos os entrevistados, está na intenção, na história e na conexão humanas que, como Bergmann defende, “sempre serão mais fortes”.
O humano no centro do furacão algorítmico
O panorama que se desenha é de um ecossistema audiovisual bifurcado, porém interdependente. De um lado, o domínio da Inteligência Artificial, onde a velocidade e o custo-benefício reinam, impulsionando campanhas publicitárias ágeis e uma enxurrada de conteúdo para redes sociais. Do outro, a valorização da autenticidade, em que o trabalho intensivo, a assinatura autoral e a conexão humana genuína se tornarão artigos de luxo, assim como o cinema experimental ou o artesanato sobreviveram à era industrial. Toson defende que “a criatividade é exclusiva do ser humano e sempre há novas formas surgindo”, tornando o horizonte criativo, na verdade, mais vasto.
A adaptação, portanto, é o único caminho. Como Alek adverte, a resistência é fútil, assim como foi com o formato vertical do vídeo. A Inteligência Artificial, como a eletricidade ou a internet, se tornará utilitária. O profissional que prosperará não será aquele que teme ser substituído pela máquina, mas aquele que a entende como a mais poderosa das lentes para amplificar sua visão. O desafio final, como Francisco conclui, é garantir que essa ferramenta seja usada com ética e responsabilidade, para que a mesma tecnologia que pode criar avatares envolventes não seja a que mina a confiança social com deepfakes eleitorais. No fim, a IA não substitui o diretor; ela exige um novo tipo de diretor: um arquiteto de realidades, um condutor de sinfonias algorítmicas, cuja matéria-prima não é mais apenas a luz e o som, mas a própria probabilidade.


