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A personalização sempre fez parte do vocabulário do Marketing, mas o que se vê agora é algo diferente em escala, detalhamento e velocidade. Impulsionadas por inteligência artificial (IA), automação e plataformas avançadas de dados, as marcas entraram na era da hiperpersonalização: experiências que se moldam ao comportamento do consumidor em tempo real, antecipam necessidades e reduzem a jornada de compra de forma drástica. A compreensão de preferências individuais, desde o horário de navegação até o estilo de música favorito, tornam-se combustíveis para a conversão de anúncios em vendas reais e fidelização dos clientes.

O relatório CX Trends 2025, da Octadesk em parceria com o Opinion Box, mostra que seis em cada 10 consumidores brasileiros afirmam que Inteligência Artificial e personalização influenciam diretamente suas decisões de compra. Outro levantamento, da consultoria Gartner, revela que empresas que investem de forma robusta em hiperpersonalização já registram aumento de 10% a 15% na receita.

Mas se a tecnologia avança, as expectativas também crescem. A jornada de compra está mais curta e mais impaciente. Entre 2023 e 2025, conforme estudo da WGSN em parceria com a plataforma de comércio eletrônico VTEX, o tempo médio entre a visualização de um produto e a finalização da compra caiu 12,9%, indicando um consumidor pragmático, intolerante a ruídos e disposto a abandonar qualquer processo que não o atenda com fluidez.

Otimização criativa dinâmica

O futuro, conforme o professor dos cursos de Publicidade e Propaganda, Design e Cinema do Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter), Pedro Dalosto, está no investimento em IAs capazes de observar comportamentos micro como, por exemplo, se o usuário visitou uma página de tênis de corrida em um dia e voltou no outro. “Assim, em questão de milissegundos, o site decide qual versão do anúncio mostrar: imagem, frase, oferta”, explica. 

Este processo é chamado de Otimização Criativa Dinâmica (OCD) e é como se fosse um brinquedo com peças de montar. O programa vai testando combinações, aprende rápido quais funcionam melhor e passa a exibi-las mais vezes a depender do resultado. 

Para Gabriel Casara, CGO e sócio da BlueMetrics, o mercado passa por um momento de transição. O Marketing sai do foco de segmentação demográfica para a personalização comportamental preditiva. “Atualmente sistemas de IA conseguem analisar centenas de variáveis simultaneamente, desde padrões de navegação e tempo de permanência em páginas específicas até o contexto emocional inferido das interações. Isso permite criar não apenas versões de anúncios, mas experiências completamente dinâmicas que se adaptam milissegundo a milissegundo”, enfatiza. 

Por outro lado, o publicitário e sócio-diretor de Criação da 3.ag Comunicação, William Mallet, lembra que as tecnologias, mesmo em constante evolução, são apenas parte do processo. “Não dá para ignorar o lado humano da coisa toda. O que vale é a criatividade, a habilidade para mudança de direção e de escolha daquilo que será consumido. Nenhum bot supera uma grande ideia”, pontua. 

Engrenagem

Do ponto de vista técnico, a hiperpersonalização exige uma engrenagem robusta para atender às expectativas de clientes cada vez mais exigentes. Dalosto aponta três frentes importantes: integração dos CDPs (Customer Data Platforms) e CRMs; plataformas de OCD com algoritmos de decisão em tempo real; e CMPs e data clean rooms, fundamentais para garantir privacidade e governança.

Casara reforça que inovar não significa apenas agilizar etapas, como facilitar a jornada de compra com apenas um clique partindo do anúncio que o consumidor recebeu, mas antecipar objeções. “A inovação está em identificar microsinais de hesitação e responder antes mesmo que o consumidor formule a dúvida”, pondera. Ele defende, ainda, pontos de conversão distribuídos, ou seja, permitir que o cliente finalize a compra em qualquer ambiente, sem depender de um checkout tradicional. 

Estratégias de fidelização passam, também, por entender práticas como compras recorrentes e repetições automáticas. Às vezes, a pessoa nem escolhe a opção por ter o menor valor, mas porque o lembrete de que ela usa x produto ou serviço a cada y período é essencial. “A ferramenta prevê o retorno porque já conhece a rotina daquele usuário”, diz Mallet. 

Monitorar não é opcional

Os três especialistas concordam que acompanhar resultados é parte estrutural da hiperpersonalização, ainda mais visando atendimento em tempo real. “O monitoramento é a própria essência da estratégia”, explana Casara. De acordo com ele, as marcas precisam apostar em indicadores que meçam relevância percebida, redução da fadiga e impacto no lifetime value, que estima o valor financeiro total que um cliente gera para uma empresa durante todo o período em que ele é consumidor. 

E não é apenas no modelo B2C que o marketing hiperpersonalizado funciona. O relatório “o status do marketing B2B na América Latina”, divulgado este ano pela agência Intelligenzia, mostra que 64% das empresas brasileiras já usam IA generativa para trabalhar a comunicação com seu público. 

Dalosto corrobora sobre o quão crucial é planejar, executar, testar, monitorar e ajustar. “Cada anúncio é uma aposta feita em tempo real. Sem comparar o que funciona e o que não funciona, não há estratégia.”

A hiperpersonalização também exige sensibilidade ética. “Consumidores querem entender por que estão vendo determinado anúncio e como seus dados estão sendo usados”, afirma Casara. Ele sinaliza a transparência como diferencial competitivo para 2026, acompanhada da necessidade de personalizar sem violar os regramentos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O controle e protagonismo, segundo Mallet, continuam nas mãos do cliente. Para tal, surge também o marketing ético, que estuda as linhas tênues entre os rastros deixados pelos usuários na internet e como e por quem eles podem ser usados. Com essa parte em ordem, Dalosto destaca outra tendência que as empresas devem observar: “o avanço de compras por redes sociais, live commerce e vídeos compráveis reforça a necessidade de catálogos integrados, estoque atualizado e atendimento ágil”.

Comunicação x comercial

Não são apenas as tecnologias que precisam se integrar. Quando se trata de marketing hiperpersonalizado, comunicação e comercial precisam andar juntos. “Quando trabalham isolados, criam experiências desencontradas”, acentua Casara. Esse ‘casamento’ passa por três camadas: dados unificados, processos colaborativos e métricas compartilhadas. Empresas que atingem esse nível podem ver ganhos de 30% a 40% em eficiência de conversão, segundo ele. 

Este encontro, na visão de Mallet, é uma evolução do Customer Relationship Management (CRM). Cada um com suas devidas responsabilidades e expertises, comunicação e comercial têm o poder de alavancar vendas e tornar compradores em verdadeiros clientes se tiverem como alvo conhecer os clientes a fundo, para gerar conexões. 

A combinação de IA, dados e criatividade humana coloca o marketing em um novo patamar, mas também impõe novos pontos de atenção. O consumidor quer rapidez, personalização, transparência e propósito. E quer tudo isso ao mesmo tempo. Dalosto resume bem o cenário: “Privacidade, relevância e responsabilidade. É isso que define o caminho para onde estamos indo”.

Casara ressalta que a questão central da inovação desse tema não é a tecnologia, mas a mentalidade dos empresários para se posicionarem no mercado. “Muitas empresas ainda tratam a personalização como projeto de TI, quando, na verdade, é uma transformação de modelo de negócio.”

 

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Autor

Shállon Teobaldo

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