
Quem já possui uma carreira consolidada no Jornalismo sente, de forma mais evidente, o impacto do ritmo acelerado das informações em tempo real. Com 40 anos de atuação na área da Comunicação, o jornalista Humberto Trezzi relembra que iniciou a trajetória quando os textos ainda eram produzidos em máquinas de escrever.
Ao longo do tempo, acompanhou a chegada dos computadores, das máquinas fotográficas digitais e, mais recentemente, dos celulares, que possibilitaram a instantaneidade na produção e distribuição de conteúdo. Ao recordar a cobertura da Guerra Civil em Angola, em 1996, destacou que utilizava filmes fotográficos e que o material era enviado por telex, um equipamento pesado.
Foi a partir dos anos 2000, com a chegada de computadores portáteis, que passou a perceber, de maneira mais clara, a aceleração do fazer jornalístico. Naquele período, ainda não havia a presença constante das transmissões ao vivo, hoje cada vez mais frequentes. Segundo o repórter, esse é um dos aspectos que mais impactaram sua rotina profissional.

“Hoje em dia, eu tenho feito algumas transmissões de fatos ao vivo na rua, mas ainda não é natural pra mim”, comentou. Em contextos de notícias marcados pela alta velocidade, como crises e conflitos, Trezzi reflete sobre o desafio de equilibrar a necessidade de agilidade com a busca por uma cobertura mais analítica, um exercício constante no cotidiano das redações.
O jornalista também mencionou a dificuldade em conciliar contextualização, dinamismo e precisão. Ainda assim, acredita que o repertório e a formação contribuem para esse equilíbrio, visto que, desde jovem, lia bastante e sempre acompanhou os noticiários nacional e internacional.
“Tenho um certo embasamento e isso ajuda na hora em que precisa ter profundidade e rapidez ao mesmo tempo. Precisão sim vai ser difícil, porque ela não rima muito com velocidade”, completou.
A presença do “furo”

As coletivas de imprensa, de forma aberta e on-line, e os releases padronizados influenciam, mas não eliminam, a noção de “furo” jornalístico. Segundo Humberto Trezzi, o público pode acompanhar as transmissões ao vivo realizadas por governos, instituições ou empresas, porém o papel do jornalista segue sendo imprescindível, especialmente na ação de filtragem e contextualização das versões apresentadas por essas fontes. “E se você tiver um nome a zelar, como é o caso da RBS, a credibilidade continuará existindo, independentemente de empresas e governos realizarem coletivas ao vivo ou divulgarem releases padronizados”, afirmou.
Para o jornalista, o “furo” permanece como uma ação necessária do Jornalismo, pois representa a antecipação de informações, as quais podem estar sendo evitadas de serem divulgadas. Embora a inteligência artificial possa contribuir para a homogeneização das narrativas, ela não será capaz de produzir a notícia exclusiva.

“A IA pode até fornecer informações, mas dificilmente entrega uma interpretação como a de um humano, sobretudo um profissional com credibilidade, repertório e sensibilidade para compreender as nuances do ser humano e da notícia”, complementa Trezzi.
Mesmo sem gostar de futurologia, o jornalista avalia que, nos próximos 10 anos, o uso do recurso tecnológico tende a se intensificar, especialmente em atividades como recuperação de informações, transcrições e produção de imagens. Mesmo assim, reforça que a informação exclusiva seguirá sendo imprescindível.
“É a partir dela que as pessoas tomam decisões importantes, de forma mais rápida e qualificada, algo que a padronização gerada pela IA não consegue substituir”, conclui Humberto Trezzi.


