Uma das características comumente associadas ao Jornalismo é a exclusividade da informação. No entanto, esse conceito pode estar sendo repensado. Atualmente, muitos comunicadores passam a ter acesso às notícias ao mesmo tempo, seja por meio de releases padronizados, vazamentos ou transmissões ao vivo.
Essas dinâmicas fazem com que o imediatismo deixe de ser o principal diferencial, abrindo espaço para a interpretação e a contextualização como atributos centrais do trabalho jornalístico. Além disso, um novo fator surge como possível obstáculo, ou oportunidade: a inteligência artificial (IA), cujo uso pode contribuir para a padronização de narrativas.
A presença de releases
Para o professor de Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Juremir Machado da Silva, o uso de releases no Jornalismo não é novidade, pelo contrário, data do início do século 20. Segundo ele, a prática pode ocorrer por necessidade ou como uma estratégia adotada pelas redações para reduzir custos operacionais.
O docente relembrou sua experiência como editor internacional, quando, ao trabalhar com agências de notícias, percebia a similaridade das informações publicadas por diferentes veículos, já que todos partiam das mesmas fontes e acompanhavam o material produzido pelas empresas.
O uso de conteúdo combinado, avalia o professor, pode ser resultado da busca por economia nos meios de Comunicação ou, no caso de veículos menores, uma forma de manter as atividades por meio dos releases. “Mas é claro que padroniza, que não cumpre a missão principal do Jornalismo: ir buscar a notícia nova”, comenta o entrevistado. Em vez disso, o que se observa é a repetição do mesmo fato, com pouca diferenciação editorial.
Juremir também destacou um comportamento descrito pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu: os jornalistas leem, antes de tudo, uns aos outros. Esse movimento, conforme o estudioso, ajuda a explicar como a busca pela diferença acaba sendo enfraquecida pela necessidade de não ficar atrás da concorrência. “Porque uniformiza, padroniza e faz com que todo mundo se pareça. Ainda que todo mundo, em princípio, esteja buscando ser diferente”, explica o jornalista.
IA em ação
Diante de problemas que se agravam no Jornalismo, o professor aponta a inteligência artificial como um fator preocupante. De acordo com ele, além de fornecer material pronto, a IA permite que conteúdos sejam constantemente reescritos por outras ferramentas automatizadas.
“Mesmo que esteja reescrito, poderá ser escrito novamente por uma inteligência artificial”, afirma. Para o docente, esse cenário traz consequências, podendo impulsionar o barateamento de custos, especialmente em pequenos veículos do interior, que operam com equipes reduzidas.
“Isso tende para um antijornalismo”, reflete. Outro impacto ressaltado é a reformulação da própria atividade jornalística. Práticas tradicionais como ir às ruas, buscar ângulos originais, produzir informações próprias e cultivar fontes perdem espaço nesse novo modelo. “No geral, se dá um empobrecimento do Jornalismo”, avalia Juremir.
Ao tratar da inteligência artificial, o presidente do Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais e Revistas no Estado do Rio Grande do Sul (Sindijore-RS), André Luís Jungblut, destaca que não há substituição para o trabalho do jornalista.
Conforme ele, as empresas precisam dominar os recursos tecnológicos, que podem contribuir para ganhos de escala, redução de custos, personalização e combate à desinformação, sem abrir mão da ética e voz humana. “Na rapidez da evolução do mercado, é necessário se adaptar às novas tecnologias para atender às demandas de um público cada vez mais conectado e exigente”, alerta.
Tecnologia como ferramenta
Na visão da CEO da Padrinho e vice-presidente da Associação Nacional do Mercado e Indústria no Rio Grande do Sul (AnaMid-RS), Alexandra Zanela, a IA pode contribuir para a aceleração do fluxo de notícias, mas é importante compreender que essa tecnologia é um meio, e não um fim.
“A tecnologia e a IA, nesse caso, precisam ser usadas pelos jornalistas como ferramentas”, argumenta. De acordo com ela, o recurso pode auxiliar em tarefas automáticas e operacionais, trazendo mais praticidade às demandas do dia a dia e contribuindo com novas ideias e pontos de vista.
No entanto, para alcançar bons resultados, é essencial saber utilizá-la corretamente. Alexandra destacou que os jornalistas podem sair na frente nesse processo, já que são profissionais treinados para formular perguntas. “Acho que a gente tem uma skill muito legal para fazer bons prompts”, comentou. Ainda assim, reforçou a necessidade de cautela, enxergando a IA como um apoio para tarefas volumosas.
A homogeneização das narrativas, decorrente do uso da inteligência artificial, é outro ponto de atenção e pode ser observada em ambientes virtuais. Como exemplo, a jornalista cita o LinkedIn, onde muitos textos apresentam estruturas e discursos semelhantes, frequentemente associados ao uso da IA. “Esse risco existe, sim. O que vai diferenciar os bons jornalistas, aqueles que emplacam grandes notícias e geram repercussão, é a capacidade de usar a tecnologia a nosso favor”, declara.
Fazer comunicação nos dias de hoje
O Jornalismo também enfrenta um processo de concentração de veículos, com menos jornais por cidade, especialmente nos grandes centros, o que reduz a diversidade de coberturas. Esse movimento ocorre junto à diminuição das redações e à consolidação do jornalista multitarefas, que passa a acumular funções antes exercidas por diferentes profissionais, como estratégia de redução de custos.
Paralelamente, há mudanças na forma de produzir conteúdo jornalístico, com a aproximação cada vez maior do Entretenimento. “Se você pega determinadas revistas eletrônicas, elas dão notícias, mas essa informação precisa ser embalada de maneira divertida, engraçada”, observa o professor.
Neste contexto, os veículos buscam se diferenciar menos pela informação exclusiva e mais pela opinião, utilizando o posicionamento editorial e os colunistas como principal estratégia de engajamento com o público.
“Houve uma época em que a estrela principal do jornal era o repórter. Atualmente, esse papel é ocupado pelo colunista, comentarista e profissional de opinião, responsável por cativar o público ao reforçar visões que esses leitores já possuem”, conclui. O professor se posiciona afirmando que isso não é uma crítica ao modelo de comunicar, mas que os veículos estão se organizando em termos de opinião.
Transformações e novos desafios
Além disso, as mudanças no ecossistema informativo não são recentes, mas sim resultado de transformações estruturais ao longo dos anos. Para o presidente do Sindijore, André Jungblut, eventos impactaram o segmento da Comunicação, como: a internet, que redefiniu o conceito de Comunicação; as plataformas digitais e mídias sociais e, mais recentemente, a IA, com novos formatos de produção e compartilhamento de conteúdo.
A partir do contato com empresas jornalísticas, André avaliou que as companhias precisam manter sua vocação e propósito de produzir conteúdo, independentemente da plataforma de distribuição. Princípios como imparcialidade, seriedade, serviço ao interesse público e combate à desinformação devem seguir como norte da atuação jornalística. “Hoje, vários players estão atuando, porém a vocação jornalística exercida com responsabilidade é o diferencial no mercado”, confirma.
Novidade do fato x capacidade de interpretação
Embora o cenário da Comunicação esteja em constante transformação, existem princípios que permanecem inalterados: a busca por informações inéditas e a capacidade de contextualizar os acontecimentos seguem sendo fundamentais.
Na Comunicação contemporânea, a opinião ganhou centralidade, podendo se manifestar tanto por meio de interpretações fundamentadas quanto de posicionamentos mais viscerais. Apesar das diferenças, opinião e análise são igualmente relevantes, mas ambas dependem da matéria-prima essencial do Jornalismo, o fato novo.
Juremir recordou o período em que trabalhou em jornais e o profissional de opinião aguardava o trabalho do repórter para, a partir da informação inédita, construir análises e interpretações. Conforme o professor, o grande diferencial do Jornalismo é e continuará sendo a inteligência e o olhar humano. É o trabalho jornalístico que vai atrás da pauta, acompanha o que está acontecendo e vivencia as experiências dos fatos.
O diferencial humano e o valor do “furo”
André comenta que o diferencial do Jornalismo se encontra no “estar presente”, com atuação próxima das pessoas, das comunidades e dos contextos em que os fatos acontecem. Nesse sentido, o “furo” jornalístico deixa de ser apenas a antecipação da notícia e passa a representar um trabalho feito por profissionais competentes, éticos e comprometidos com a realidade social.
Para a vice-presidente da Anamid, a aceleração constante nas redações, o diferencial de trazer o “furo” e chegar primeiro têm perdido força. Isso ocorre porque, em um mundo cada vez mais rápido, tornou-se difícil “segurar” uma pauta, especialmente em um ambiente em que qualquer cidadão pode produzir e compartilhar informações nas redes sociais.
“Particularmente, antes de chegar primeiro, defendo chegar melhor, com mais aprofundamento e diferentes pontos de vista”, analisa a jornalista. Ainda assim, o fato de ser o primeiro não deixa de ser um diferencial competitivo, em especial no Jornalismo Investigativo, área em que o “furo” permanece relevante. Nesse segmento, o trabalho envolve múltiplas etapas e o cruzamento de informações para garantir que uma denúncia seja verdadeira e consistente.
Ser o primeiro
“Acho que diminuiu muito o ‘chegar primeiro’, mas ele ainda se mantém como diferencial, porque, para isso, é preciso contar com jornalistas experientes e com boas fontes”, conta. Ao mesmo tempo, ela salientou a importância da integração entre gerações, enquanto profissionais mais experientes trazem repertório e contatos, jornalistas mais jovens, da geração Z, contribuem com novos olhares.
“Hoje, a informação em si se torna quase uma commodity, já que praticamente todo mundo produz conteúdo. O que diferencia a exclusiva são as técnicas que o jornalista utiliza para pesquisar, apurar e se relacionar com as fontes”, destaca Alexandra. Para ela, o diferencial está também no olhar apurado do profissional, capaz de identificar outros caminhos, novas camadas do fato e transformá-las em uma exclusiva.
Aceleração crescente
Ao retomar a característica do imediatismo, a agilidade do fluxo informativo também impõe riscos e se torna um ponto de atenção para o Jornalismo, avalia Alexandra. Segundo ela, a velocidade amplia o alcance da informação, mas pode comprometer sua qualidade, especialmente quanto à checagem dos fatos, uma função básica do jornalista.
Em um cenário em que qualquer pessoa pode produzir e disseminar conteúdo, aumenta o risco de desinformação, evidenciado pela crescente de fake news e pelo debate em torno da chamada “pós-verdade”. Diante desse contexto, Alexandra ressalta o desafio de conciliar rapidez e profundidade.
Com a facilidade de acesso às notícias, agora disponíveis no celular, as formas de produção e disposição de conteúdo também se transformam. “A distribuição muda porque passa a ser mais ampla, posso compartilhar links, entrar em transmissões ao vivo. Ano após ano surgem novas possibilidades e, com isso, uma mudança no consumo”, explica. O público passa a adotar novas formas de se informar para saber o que está acontecendo
A agilidade para publicar uma pauta pode ocasionar em informações rasas, como um resultado da falta de tempo para ter uma apuração e checagem maior. “Por outro lado, a gente ganha com essa d istribuição maior, com mais pessoas tendo o acesso, sem precisar assinar o jornal”, diz Alexandra.
A velocidade e a apuração
A aposta para o futuro é a de um jornalista que tenha mais tempo para escrever e apurar, podendo se dedicar sobre temas decisivos no mundo. As notícias do agora, mais factuais, poderiam ser automatizadas, porém a prática de ir além do óbvio e buscar o que não está imediatamente visível segue nas mãos dos comunicadores. “Os veículos precisam apostar cada vez mais em bons jornalistas, que gostem de pesquisar, apurar e ir em busca daquele furo que está cada vez mais raro”, complementa Alexandra.
Em um cenário de abundância de informações superficiais e acessíveis em todos os lugares, os veículos jornalísticos tornam-se ainda mais relevantes ao oferecer conteúdo de qualidade, checado e confiável. De acordo com a entrevistada, este é um momento especial para o Jornalismo, desde que a profissão compreenda seu papel e invista em boas histórias, utilizando a tecnologia como ferramenta de apoio, sem abrir mão da curiosidade.


