Bibiana Bolson: Mulher e futebol dão samba

Repórter da ESPN Brasil, a gaúcha de Giruá é uma apaixonada por esportes, samba e viagens

Bibiana Bolson, repórter da ESPN Brasil

Nascida em junho de 1989, aos 31 anos Bibiana Bolson se diz privilegiada. Isso porque, por meio da Literatura e do Cinema, foi estimulada desde cedo a conhecer o mundo. Uma das lembranças da juventude é, justamente, de quando assistia a alguns filmes franceses, por exemplo, e da mãe, a professora universitária de Direito Simone, lhe afirmar: "Um dia você vai para a França". E foi. A repórter da ESPN trabalhou durante quase um mês no país, durante uma competição de seleções europeias, a Eurocopa.

Legítima "pé de rodinha", como ela mesma brinca, já morou em 11 cidades. Nasceu em Giruá, interior do Rio Grande do Sul, e veio trabalhar em Porto Alegre. Quando deixou a Capital, mudou-se ainda para Cruz Alta, Ijuí e Pelotas. A aventura não parou em solo gaúcho, bem pelo contrário. Saiu do Brasil para fazer intercâmbio em Londres. Também viveu por um tempo em Roma, na Itália, em Fort Myers Beach, na Flórida, bem como em Nova Iorque, ambos nos Estados Unidos. Atualmente em São Paulo, ainda residiu no Rio de Janeiro. 

Contudo, nem sempre tudo foram flores. A jornalista precisou passar por processos de transição, para entender quais são os elementos culturais das cidades por onde passou e poder se adaptar a cada uma. Por ter morado em muitos locais, ela decreta: não tem a sua casa e o seu lugar, mas as suas pessoas, o seu porto seguro e suas raízes. Bibiana revela que moraria em qualquer lugar e iria para qualquer local que a ESPN a mandasse. "Sou uma inquieta, de raízes não fixadas", declara. 

Mudar para se encontrar

Todas as mudanças e andanças tiveram um motivo. Quando não foram oportunidades de trabalho, serviram como buscas para se encontrar enquanto pessoa e profissional. Ao entrar com 16 anos na faculdade de Jornalismo, ficou em dúvida em relação à carreira, visto que no início do curso o conteúdo era muito burocrático e teórico. Foi então que decidiu fazer um intercâmbio em Londres. Lá, na terra da Rainha, percebeu que deveria seguir mesmo na profissão, pois se deparou com uma Bibiana que escrevia muito para os amigos e relatava, com detalhes, sobre sua rotina. "Voltei muito afiada e querendo redigir mais e terminar logo a graduação", conta. 

Outro momento de mudança chegou de 2016 a 2017, quando passou por um intervalo na carreira. O período difícil veio após a sofrida cobertura do acidente da Chapecoense, em que perdeu amigos e colegas, além de ter saído do Esporte Interativo. "Pensei até mesmo em abandonar o Jornalismo e o Esporte, porque passei por muitos momentos ruins, além de perceber que estava fazendo muitas renúncias, como perder aniversários e casamentos de pessoas próximas", relata. 

Então, decidiu realizar um curso profissionalizante na universidade norte-americana NYU, para se reinventar, e, para isso, mudou-se para Nova Iorque. Foi lá, entre os arranha-céus de Manhattan e as luzes da Time Square, que aprendeu mais sobre o jornalismo independente e, o mais importante: de que não há necessidade de se trabalhar para uma grande emissora. Com uma ligação muito especial com a cidade, passou a ser o seu lugar favorito. "Representa o meu recomeço, porque começou do zero lá", diz, ao destacar que, após a sua volta ao Brasil, viveu 'dentro de uma mala', durante um ano, entre visitas a parentes e freelas.

Comunicativa desde sempre 

Bibiana, que tem 12 anos de trajetória no Jornalismo, sempre foi uma apaixonada por histórias, conversar, saber mais da vida das pessoas e investigar. "Tenho isso desde muito novinha. Gostava de fazer livrinhos contando a história da família e da vizinhança. Então, acho que a Comunicação sempre esteve muito viva em mim", comenta. 

Formada pela Famecos, a jornalista iniciou a carreira em uma empresa de assessoria de imprensa e passou por estágios em TV na PUC, onde, conforme ela, descobriu a rotina de produção, edição e reportagem, além de ter sido 'mordida pelo bichinho'. Mais tarde, quando estava atuando em uma revista em Porto Alegre, fez uma seleção para a RBS TV, mas passou bem longe das câmeras da Capital. 

Isso porque uma palestra com o jornalista gaúcho Flávio Fachel, da Rede Globo, a marcou muito, por salientar que as grandes oportunidades estão no Interior. Desta forma, ela, que é do interior do Estado, fez um caminho inverso: sair de Porto Alegre e voltar para uma cidade pequena. O destino, onde começou a carreira, de fato, na televisão, foi Cruz Alta. 

Paixão pelo esporte

A carreira de repórter esportiva também teve início nesta cidade. Bibiana precisou cobrir o clube São Luís por umas duas semanas, que estava na lanterna do Campeonato Gaúcho, mas depois emendou uma sequência de oito vitórias e chegou na final do estadual. Foi neste período que despertou para o Esporte. Com o destaque que teve por tantas aparições, recebeu uma proposta para atuar em uma afiliada da Rede Globo em Cabo Frio. Em contrapartida, o Grupo RBS a ofereceu migrar de vez para o Esporte e ir atuar em Pelotas, onde havia um setor de esportes, em detrimento da relevância dos times da cidade. 

Depois de um período, como em uma espécie de intercâmbio entre as afiliadas da Rede Globo, ela, da RBS TV, acabou sendo recrutada para trabalhar durante a Copa do Mundo, no Rio de Janeiro. Na época, conheceu muitos editores e uma grande virada na carreira aconteceu. "Um divisor de águas", como ela mesma cita. Quando decidiu solicitar licença para fazer mestrado no Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense (UFF), surgiu a oportunidade para fazer um freela no SporTV. Voltar para o Rio Grande não era mais uma opção. Ainda teve passagem pelo Esporte Interativo, onde fez todo trabalho de preparação para a Olimpíada, e esteve à frente de um programa de automobilismo, na Rede TV. Desde então, a ESPN tem sido a sua casa. 

E toda essa trajetória foi reflexo de uma infância e adolescência cercada por isso. Criança bem 'rueira', Bibiana gostava de estar na rua, jogando futebol e vôlei, ou andando de skate e bicicleta. O esporte sempre esteve muito ligado à sua vida, e hoje percebe como tudo isso colaborou para o repertório e as escolhas, visto que a mãe sempre a estimulou a praticá-los. Além disso, eventos esportivos tinham um valor muito grande em casa. "Havia churrasco para acompanhar os jogos de futebol, na Copa do Mundo, e todos se reuniam, assim como para acompanhar partidas de vôlei no domingo", rememora. Depois, começou a frequentar estádios com o pai, o tabelião Eleandro, um apaixonado por futebol, e acredita que herdou isso dele. A paixão era tamanha que acompanhavam jogos por todo o Estado, até da várzea. 

Desafio: ser mulher

Infelizmente, um dos principais desafios enfrentados não é novidade para ninguém: ser mulher e ter respeito no Jornalismo Esportivo, assim como credibilidade no mesmo nível do que os colegas homens. De acordo com Bibiana, foi preciso perceber o quanto era importante entender o seu lugar enquanto mulher e questionar certas decisões. Inclusive, após uma passagem de seis meses, retornou para a ESPN porque é o lugar que sempre se sentiu respeitada. "Por ter passado por situações de assédio em outras emissoras e ter essa referência e respeito, foi algo que me motivou muito a vestir a camisa", revela.

Apesar de todas as adversidades, a repórter encarou tudo com muita força e determinação. Foi assim que encabeçou o 'Deixa ela trabalhar', movimento de jornalistas esportivas que lutava contra o assédio e a discriminação de mulheres dentro e fora das redações. "Teve uma contribuição muito importante para a gente, dentro do ambiente do esporte. Abriu portas significativas e em um patamar de chefia que não havia acontecido antes", aborda. 

A segunda barreira que enxerga na carreira é em relação a ser jornalista e trabalhar com TV. Segundo Bibiana, apesar do falso glamour de viajar bastante e fazer as melhores matérias, é uma profissão de muita renúncia. "É muito exaustivo, muitas horas de trabalho", expõe ela, que participou da cobertura do incêndio no Ninho do Urubu (centro de treinamento do Flamengo), em fevereiro de 2019, com duração de três dias, sendo 17 horas apenas no primeiro. 

No final, tudo acaba em samba

Quando não está na frente das câmeras reportando, acompanhando as partidas de futebol pela telinha e apurando alguma novidade, valoriza muito o tempo com os amigos e estar na praia com a família, que mora na Bahia. Comunicativa, conversa muito no WhatsApp e interage no Twitter. Também aprecia documentários e programas que tragam um pouco da história e de curiosidades, e acaba escolhendo o conteúdo muito por tema, como feminismo e criatividade.

Devoradora de livros, acaba lendo vários ao mesmo tempo, o que, normalmente, são quatro ou cinco simultâneos. No momento, quem tem a sua atenção é 'A guerra não tem rosto de mulher', de Svetlana Aleksiévitch. Gosta muito de se informar sobre o feminismo, bem como conhecer histórias e vozes que vão sendo deixadas de lado. Contudo, dentre tantas leituras, as favoritas são 'O velho e o mar', de Ernest Hemingway, e 'Cem anos de solidão', de Gabriel García Márquez. 

Como hobbies, jogar tênis está entre as preferências, enquanto cozinhar é um prazer, quando todo o estresse vai embora. Especialista em comidas com molho, conta que está sempre inventando algo na cozinha. "Não sei fazer o básico, como saber o ponto de um ovo frito, mas sei pratos mais elaborados", brinca. 

Bibiana também é movida por samba. Adora ouvir o gênero, assim como pagode. Mas adverte: aprecia os mais antigos, como as canções de Serginho Meriti. A jornalista, porém, salienta que o gosto não tem nada a ver com o da família, pois não é algo muito cultural do Rio Grande do Sul. "Quando escutei os primeiros sambas, da velha guarda, chorei. Antes da pandemia, adorava ir no bairro Bexiga, no Samba da 13, assim como nas escolas de Samba, como a Vai Vai", relata, saudosista. 

Determinação e resiliência 

Irmã mais velha do surfista Solano e do aficionado por futebol Ulisses, fã número um de Bibiana, define-se como a inquietação em pessoa. "Sou um furacão", diverte-se, ao contar que ama a liberdade de ir e vir, o que tem sido o maior desafio em tempos de pandemia. Determinada e resiliente, expõe que, mesmo com todas as dificuldades e situações de recomeços e nãos, sempre acreditou que conseguiria realizar seus sonhos. Como defeito, diz que é impulsiva, principalmente quando externa sua insatisfação. "Às vezes, sou meio afrontosa", brinca ela, que tem como lema de vida "desfrutar da jornada".

Para o futuro, deseja se desenvolver mais enquanto professora e pretende formar mais de 100 alunos ainda em 2021. É que há um ano se dedica a uma mentoria para formar novos jornalistas esportivos, a qual está se transformando em algo corporativo também. Além disso, tem um projeto rascunhado voltado a mulheres em situação de vulnerabilidade social, como auxiliá-las a aplicar a comunicação. O intuito é proporcionar momentos de lazer para quem passou por situações de violência. "Tenho pensado muito de que forma posso unir comunicação e minha trajetória", conta. Bibiana ainda anseia nos últimos tempos ser mãe e, como repórter esportiva que é, pretende que isso aconteça depois da Copa do Mundo de 2022, no Qatar.

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