Daniela Ungaretti: Noite e dia, cheia de vida

Mãe de três, casada com seu grande amor, e âncora de telejornal, é assim que ela mede sua realização

Jornalista da RBS TV Daniela Ungaretti - Crédito: Divulgação

Ela é doce, nos traços angelicais do rosto, no toque sedoso da voz, nos gestos delicados, no sorriso meigo. Mas não se enganem, pois doçura não é sinônimo de fraqueza - nem de longe. Daniela Knorr Ungaretti, virginiana, nascida em Porto Alegre, é uma mulher forte. A trajetória de 44 anos recheados de muitas experiências mostra que coragem nunca lhe faltou. A jornalista sempre cultivou dois grandes sonhos: ser uma profissional reconhecida e boa mãe. Bingo! Determinada como é, conseguiu - ao ser mãe de três filhos e âncora do 'Bom Dia Rio Grande', da RBS, ao mesmo tempo. Haja disposição!

A filha do médico Renato Ungaretti e da decoradora Silvia Ungaretti, já falecidos, não pôde compartilhar todas as vitórias profissionais com os pais, que partiram no início de sua carreira. Mas sabe que de onde estão podem acompanhar e se orgulharem de suas conquistas. Em vida, porém, a aprovação inicial da família foi uma das primeiras barreiras que precisou ultrapassar. "Eles achavam que era uma profissão desvalorizada, marginalizada, e que eu não tinha perfil para ser jornalista, porque era quieta e introvertida - meu pai queria que eu fosse juíza", relembra. Os avós, entretanto, sempre foram seus grandes incentivadores no Jornalismo. "Quando olho para trás, me orgulho de ter resistido a essa pressão", celebra, certa de que, hoje, seus progenitores sabem que ela fez a melhor escolha.

Daniela era, de fato, essa menina tímida. Ainda assim, amava ballet, jazz e teatro - tendo considerado até mesmo ser atriz. Ela crê que a escolha profissional foi uma forma de se desafiar, uma vez que gosta de encarar seus medos e vencê-los, provando-se capaz. Tanto a ponto de entrar na RBS, ambição de tantos estudantes, logo depois da faculdade, em 1997. No começo de sua jornada, trabalhou por sete anos na TVCom. "Nessa época, meu pai era vivo e me acompanhou bastante, o que foi bom para minha evolução, porque ele era uma pessoa supercrítica", conta.

Uma família grandiosa

A jovem repórter não herdou o talento geneticamente, visto que é a primeira comunicadora da família. Na prole de três filhos, dois ainda são muito pequenos para decidir - Miguel, 9 anos, e Clarinha, 2 -, mas um deles optou por seguir os passos do pai, o engenheiro ambiental Daniel Sosa. João Pedro, o primogênito, de 21 anos, cursa Engenharia Hídrica na Ufrgs. "Dou total liberdade para os meus filhos serem o que quiserem", ressalta a âncora, que aprendeu sentindo na pele que profissão deve ser uma escolha individual, pois repercutirá a vida inteira.

Casada com o uruguaio Daniel há 21 anos, ela enxerga que o casal de dupla nacionalidade oferece uma grande vantagem em termos de vida profissional e pessoal aos herdeiros. As crianças, desde cedo, aprendem um segundo idioma além do português. Com parte da família morando em Montevidéu, todos precisam se comunicar em Espanhol também. Essa mistura começou porque a mãe e a avó de Daniela nasceram em Jaguarão. Diante disso, a adolescente gostava de visitar o tio e os primos na cidade fronteiriça com o país vizinho. Foi assim que ela conheceu Danielito, como é carinhosamente chamado por aquelas bandas. E detalhe: ela só tinha 15 anos. Um amor de infância que virou história para a vida toda e ainda combina foneticamente: Daniel e Daniela.

Outra curiosidade da vida da apresentadora é o fato de ter uma irmã gêmea, que em comum mesmo, segundo constata, tem só o fato de ter nascido no mesmo dia. Juliana, conhecida como Julia, no entanto, também é mãe de um time grande. Trouxe ao mundo quatro sobrinhos para Daniela e dedica a vida à casa e à família. Elas ainda têm o irmão Jarbas, 36 anos, o caçula. O homem do trio mora em Arroio dos Ratos e atua na área da Tecnologia. Acabou ficando na cidade onde o patriarca da família costumava criar cavalos crioulos na cabanha. E adivinhem só? É pai de três crianças, com o quarto a caminho. A nova geração veio com tudo!

Família é sinônimo de amor para a repórter. E, com certeza, o mais importante na caminhada foi ter tido a sorte de encontrar o amor da sua vida, construir uma família e conseguir ir atrás daquilo que sonhava e a fazia feliz - sem hesitar. "Meus filhos são minha base, minha força, meu orgulho, o que me faz levantar todos os dias, erguer a cabeça e ir atrás do que me faz feliz, porque é isso que quero da vida", afirma.

A origem do dom

Daniela lembra com carinho da infância: "Tive uma fase muito feliz, apesar de sempre ter sido uma criança muito contida". E quem disse que tranquilidade não combina com felicidade, não é mesmo? Admiradora dos livros, começou a estrada como leitora com as obras de Monteiro Lobato. Outro hobby era ficar falando em frente ao espelho, como se estivesse fazendo uma apresentação ou um discurso para um grande público, cuidando, inclusive, a entonação. Por sinal, a forma que ela mais entendia ao estudar era lendo em voz alta.

Por conta do gosto por literatura, idealizou ser jornalista para escrever na mídia impressa. Porém, o destino levou a guria introvertida para a frente das câmeras, para o Rio Grande do Sul inteiro assisti-la assim que acordasse. O lado da menina do espelho falou mais alto. "Acho que foi uma forma de me enfrentar, porque eu sabia que, para trabalhar como jornalista, tinha que mudar e me libertar do que me travava", acredita. Ainda se intitula uma pessoa envergonhada, mas isso não a atrapalha mais. Além disso, é persistente: "Vou fundo e atrás daquilo que realmente quero".

Logo que entrou na universidade, se apaixonou pelo rádio. Todavia, no último semestre de graduação na Fabico, descobriu um projeto chamado 'Caras Novas', do Grupo RBS, no qual estudantes de último semestre ou recém-formados passavam por um treinamento de seis meses na televisão. "No último dia de inscrição, fui na pilha dos colegas, fiz o teste e fui passando, até que fui umas das 12 selecionadas", narra. A decisão não planejada fez com que ela encontrasse um novo amor: a TV. Hoje, não consegue se ver trabalhando em algo que não seja televisão - seja produção, edição ou ancoragem.

O começo da história no grupo foi como produtora, o que a oportunizou ser colega de grandes nomes, como Tânia Carvalho e Lauro Quadros. Também fez reportagens na TVCom; programas especiais relacionados à viagem e ao turismo, que eram divertidos e prazerosos, além de ancorar os jornais da emissora 100% local. "Foi lá que aprendi na prática a base do Jornalismo televisivo", rememora, com carinho e gratidão. Exalta, ainda, colegas importantes e especiais que cruzaram seu caminho, como Paola Vernareccia, que, ao sair de licença-maternidade, em 2005, lhe deu espaço para substituí-la no 'Bom Dia Rio Grande', o que a tornou âncora do programa. Desde então, Daniela contabiliza 24 anos de dedicação à RBS.

Rotina puxada, mas prazerosa

"Eu amo demais o que faço! Tenho muito prazer de levantar todos os dias para ir trabalhar, mesmo que seja às 3h", define a apresentadora, que, para viver do sonho de ser esta jornalista, mudou de rotina. Daniela renunciou à vida social nas noites que antecedem seu expediente, assim como dos programas familiares que iriam noite adentro, como jantares e filmes, afinal, ela precisa dormir cedo. Seus filhos e marido já entenderam a necessidade, e adoram porque podem ficar com ela à tarde, visto que encerra o expediente ao meio-dia.

O turno que, para alguns é inviável, a permite poder acompanhar o crescimento e desenvolvimento de sua pequena. "Conciliar trabalho e maternidade é um grande desafio. Apesar de saber que seria muito difícil, jamais pensei em abrir mão do meu trabalho, e nem de ter os meus filhos. Estava convicta de que iria conseguir. Sou assim, não estou disposta a desistir de nenhum sonho, mesmo com altos e baixos", sentencia.

Luz, câmera, ação! Não é um filme, mas exige ainda mais, porque é diário, sem dia para terminar as gravações. "Mas quando entro no ar, e sou eu e o telespectador, tudo compensa", define. A jornalista, que se realizou na ancoragem, completa: "É no estúdio onde me sinto melhor, e onde sei que faço o meu melhor". Ademais, salienta que o telejornal a proporciona ser mais leve e natural. "Sinto como se estivesse entrando na casa do telespectador mesmo; e posso fazer isso do meu jeito, mostrando exatamente quem e como sou", comenta.

Mesmo acordando no meio da madrugada e entrando no ar às 6h, Daniela conta que funciona bem de manhã. Na verdade, mais do que em qualquer outro horário, conseguindo lidar bem com dias de sono e cansaço. Apesar disso, por conta de sonolência, teve episódios engraçados. Uma vez, olhou uma imagem e disse: "Nossa! Que lua linda!". O problema é que não se tratava da lua, mas de um poste. Aliás, também errou o dia da semana algumas vezes. Em outra ocasião, faltando 15 minutos para entrar no ar, enquanto secava o cabelo, bateu o secador no olho de leve, mas começou a sangrar por ser um lugar sensível. Conseguiram estancar o sangramento, mas, ao longo do programa, o olho começou a inchar. Foi pura adrenalina.

Dores e delícias do Jornalismo

Daniela fala do quanto o Jornalismo é um desafio diário, com o qual se aprende muito, principalmente durante coberturas de fatos importantes, como o incêndio da Boate Kiss, em 2013, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul - a mais difícil de sua vida. "Fui às pressas de avião, cheguei de manhã e até hoje isso impacta e mexe muito comigo. Era triste demais tudo que vi e vivi, e precisava ser noticiado. Como encontrar o ponto certo de respeitar o sofrimento das pessoas, que era enorme, e informar?", reflete.

De mais a mais, ancorar um jornal que fica 2h30 no ar é outro enorme desafio. É o jornal mais longo da RBS, hiperfocado no factual e no serviço, com várias entradas ao vivo, entrevistas e reportagens. "É preciso muito jogo de cintura. Trata-se de lidar com improviso e estar muito focada e atenta a tudo", explica a profissional, que é muito exigente e crítica consigo mesma.

Na busca constante por ser uma jornalista diferenciada, Daniela sempre observou as pessoas que faziam o que ela queria fazer e estavam onde ela queria estar. "E foi assim que percebi que o importante era ser eu mesma, construir a minha forma de falar com as pessoas e de me mostrar para elas", analisa. As referências profissionais eram Ana Paula Padrão e Cristina Ranzolin. "A primeira vez que eu apresentei foi ao lado dela", discorre deslumbrada, ao se dar conta que virou colega daquela a quem admirava. "Eu pensava: 'Como eu queria um dia fazer isso, ser âncora', e aí me dei conta de que não era impossível", orgulha-se.

Paz no sofá ou na rua

Para relaxar, aprecia assistir a filmes ou séries. "Às vezes, prefiro não dormir para ver algo que quero", confessa. Do tipo que vê de tudo um pouco, aposta até naquilo que nem leva fé de que vá ser muito legal. Foi assim com 'Vikings', que, no final das contas, adorou. Também menciona 'Peaky Blinders', e comenta que está vendo 'This is us', o qual assiste chorando na maior parte do tempo. Quanto a filmes, confidencia que não é muito de comédias e terror, assistindo apenas para acompanhar os filhos. Prefere drama, mistério, suspense.

Quando sai de casa, apetece muito estar em contato com a natureza. Gosto compartilhado pelo marido, como bom engenheiro ambiental que é. "Vamos a trilhas, lugares pertinho da natureza, onde a gente se sente mais livre, encontra a paz", justifica. Destaca a Trilha do Rio do Boi, a qual exige 7h de caminhada, em Praia Grande (SC), por ter sido a mais recente. Mas não pode deixar de fora os Cânions de Itaimbezinho e Fortaleza (RS).

Em relação à paixão literária, assume que queria ter muito mais tempo para isso: "Pego o livro e não consigo ir muito adiante, porque sou vencida pelo cansaço". Das obras e autores lidos no passado, recomenda Mario Vargas Llosa, com 'As Travessuras da Menina Má', visto que em algumas obras ele mistura política com ficção e romance, o que a encanta.

Colorada, gaba-se do time e pelo fato de seu pai ter sido médico do Internacional na década de 1970. Contudo, admite que o futebol não é algo que consuma muito de sua vida, apenas o essencial - até mesmo como jornalista bem-informada. A propósito, quando se trata de prática esportiva, evidencia o Yoga, que, conforme ela, é uma atividade física forte, que traz um ensinamento grande em termos de controle emocional. "Eu gosto muito. Me ensinou a ter domínio da mente em momentos de nervosismo. Gostaria de poder fazer mais", observa. E ainda sobre bem-estar, apesar de batizada na Igreja Católica, identifica-se mesmo é com a doutrina Espírita, sobre a qual a mãe passou muito conhecimento, e que lhe proporciona conforto e paz.

Daniela está sempre sorrindo, e não é à toa, afinal, se define uma pessoa feliz. É de bem com o trabalho, com a família e com o amor. Está de bem com a vida, mesmo que esta comece na madrugada. Ela é meiga e forte, brilhando como a noite em que acorda, tanto quanto as estrelas, e logo cedo da manhã, iluminando o dia de todos os gaúchos, como o sol.

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