Julio Ribeiro: O filho de Paris

Visão empreendedora e fome de conhecimento são alguns dos ingredientes da receita de sucesso do jornalista pelotense

Por Cleidi Pereira
Determinação, visão empreendedora e fome de conhecimento são alguns dos ingredientes da receita de sucesso daquele que um dia fora um menino pobre, conhecido por ser o filho do carregador de malas da rodoviária de Pelotas. As origens humildes e a falta de referências culturais e intelectuais na família não impediram o crescimento profissional e humano de Julio César Ribeiro, diretor-geral da Editora Press e Advertising, que é responsável pelo Jornal da Capital, revista Press Advertising e site Adonline. O jornalismo está presente na vida de Julio desde a sua infância: com apenas sete anos, resolveu se arriscar no mundo das palavras e foi assim, nas páginas do jornal Diário Popular de Pelotas, que aprendeu a ler.
Filho da dona de casa Maria Nunes Ribeiro e do carregador de malas Alcebíades Domingues Ribeiro, nasceu em Pelotas no dia 20 de março de 1963. O jornalista considera-se um vencedor e orgulha-se de trabalhar desde cedo. Sua carteira de trabalho foi assinada quando tinha apenas 13 anos, como office-boy. Com o primeiro salário que recebeu, comprou uma máquina de lavar para a mãe, motivado por uma de suas memórias mais remotas da infância: a da dona Maria lavando as roupas dos oito filhos em um tanque de pedra.
Aos poucos, o jovem foi descobrindo e desvendando sozinho o mundo da literatura, do cinema e das artes. Julio afirma que, com 15 anos, já havia lido todos os clássicos da literatura mundial e que, aos 17, assistiu à filmografia dos principais cineastas. Autodidata, acredita que foi a literatura que o salvou: "A literatura te puxa para um patamar para fora das tuas circunstâncias, te projeta em uma coisa maior", avalia.
Apesar de ser norteado pela sensibilidade, diz transitar bem entre os campos da razão e da emoção. E foi essa postura que fez com que, aos 15 anos, já contasse com um "plano" para a vida toda. Na época, o então adolescente estabeleceu que se formaria em um curso técnico de eletrônica, trabalharia em uma emissora da TV e, depois, enfim, migraria para o jornalismo, seu grande sonho. 
Em busca de um sonho
Prova da determinação que lhe é característica é que, com 14 anos, foi trabalhar em uma gráfica, também como office-boy, mas deixou claro para o patrão que sua grande ambição na época era ocupar o cargo de tipógrafo. Três meses depois já estava exercendo a função almejada e, logo depois, foi convidado a trabalhar em outra gráfica pelo dobro do salário.
Em dezembro de 1980, mudou-se para a Capital apenas com o diploma de técnico em eletrônica em mãos e a meta era cursar Jornalismo na Ufrgs - o que acabou conseguindo. Desempregado há alguns meses na cidade, a falta de dinheiro até mesmo para a compra de passagens de ônibus começou a gerar certo desespero.
Foi em busca de uma vaga na Assistência Técnica da Philco sem nunca ter visto a parte interna de um televisor, porém, deixou claro que, se lhe dessem esta oportunidade, seria o melhor técnico da empresa em apenas três meses. Então, por uma ironia da vida, ele, que queria atuar na televisão, foi trabalhar com televisores. No fim do mesmo ano, abriu uma eletrônica com seu irmão. "Com 21 anos, tinha 21 empregados e três lojas", lembra. Movido por desafios, o lema de sua vida sempre foi: "Me dê uma chance e não irá se arrepender".
Formou-se em 1988 e, um ano mais tarde, tinha um dilema: estava com o diploma em mãos, mas nunca havia atuado na área. Fechou a empresa e resolveu arriscar. Com a cara e a coragem, foi em busca de oportunidades e a primeira atividade no meio foi atuar na campanha a vereador do radialista Dilamar Machado. Depois, com a eleição dele, tornou-se assessor de imprensa da Câmara, onde atuou de 1989 até 1991.
Também trabalhou na campanha do ex-governador Alceu Collares, e, logo em seguida, no governo estadual. "Mas nunca servi para trabalhar em governo, pois no setor público a gente não consegue fazer as coisas acontecerem. E eu sou um fazedor, eu faço as coisas acontecerem. Por isto, uma das coisas que mais me causam angústia é quando quero fazer as coisas e elas não andam", explica.
O instinto empreendedor foi despertado em 1995, quando foi trabalhar com projetos especiais em uma produtora, a Master. Passados dois anos, resolveu abrir o próprio negócio, movido, principalmente, pelo gosto pela produção de revistas. Nascia, assim, a Editora Press e Advertising, que começou como uma revista de propaganda, com o apoio institucional da Associação Riograndense de Propaganda (ARP). A empresa chegou a responder por dois jornais semanais, duas revistas mensais e quatro portais. Hoje, centraliza suas atenções na revista Press advertising, no site Adonline, ambos com 12 anos, e no Jornal da Capital, lançado em 2007. Há 10 anos, a editora também promove o Prêmio Press de Jornalismo.
?Morder a alma até os ossos?
O jornalista diz gostar de todas as atividades onde pode expressar sua criatividade: já compôs músicas, fez esculturas, pintou telas. Poeta e escritor nas horas vagas, ele possui dois CDs de poesias gravados e dois livros publicados: ?Marketing para micro e pequenas empresas - Guia básico de sobrevivência? e ?Trends Brasil - Tendências de Negócios para Micro e Pequenas Empresas?. Agora, trabalha na terceira publicação, que deve se chamar ?Sem armadilhas para as pequenas empresas?.
Amante de fotografia e leitor voraz, afirma ler mais de 50 livros por ano. Entre os autores preferidos, estão Gabriel García Marquez, Ernesto Sabato e Isabel Allende. Na poesia, adora a simplicidade de Mario Quintana, além das obras de Fernando Pessoa e José Saramago. "Tem uma frase do Saramago que fala de morder a alma até os ossos dela. Trago isso pra minha vida, pois os ossos da minha alma estão cheios das marcas dos meus dentes. Ou seja, eu vivi a vida com tudo o que ela pode me oferecer de intensidade e relevância."
Colorado, não perde um jogo do Internacional. Julio foi casado durante 17 anos e deste relacionamento tem duas filhas, a chefe de cozinha Caroline, de 23 anos, e Aletsiram, 17, que quer ser jornalista. Julio está solteiro e diz ser difícil começar um relacionamento nos tempos atuais, "do individualismo". "Mas sou um homem à moda antiga, que acredita no amor", afirma.
Ele, que se prepara para cobrir o Festival de Cannes, disse que vai aproveitar a viagem para "tomar a melhor cerveja do mundo em Praga" e assistir a um concerto de Mozart em Viena. "São os pequenos luxos de um carregador de malas." Nesse momento da entrevista, Julio lembra do pai, já falecido, e conta que antes de ser carregador de mala ele havia trabalhado como garçom em um hotel pelotense chamado Paris, o que lhe rendeu o apelido de ?Paris?. "Descobri Paris pelos livros de Sartre. Idade da Razão, especialmente, fez com que eu me apaixonasse pela cidade. A primeira vez que fui a Paris, caminhando pelo bairro Boulevard du Montparnasse, vivi um momento transcendental quando me dei conta de que o filho do seu Paris estava em Paris", conta emocionado.
Quando as crises apertam, Julio costuma lembrar de onde saiu: "O filho do seu Paris foi longe, onde o seu Paris jamais imaginou chegar. E eu faço isso em tributo ao meu pai. Ele sempre levou uma vida difícil, era analfabeto, mas tinha dois valores fortes, que procurou passar aos filhos: estudo e trabalho."
O jornalista diz não acreditar integralmente quando se fala que pobreza gera violência e que o menino que não tem alternativa vai parar no tráfico. "Depende muito da família e do exemplo que ele teve dentro de casa. Minha família sempre foi pobre, mas sempre valorizou honestidade, trabalho e estudo. Desde pequeno, eu sabia que eu queria sair daquela situação, queria ser alguém e sabia que o caminho era o estudo."
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