Luis Fernando Verissimo: De letras, traços e jazz

A música é a grande paixão do escritor, que só descobriu a vocação literária depois de tentar de tudo um pouco.

Luis Fernando Verissimo já fez de tudo nessa vida, tanta coisa que não consegue nem lembrar. O fato é que as profissões pelas quais ele é hoje conhecido do grande público só lhe foram apresentadas depois dos 30. "Sou um escritor atípico, comecei a escrever tarde. Não pensava em ser escritor, e muito menos jornalista", revela. Nascido em Porto Alegre, a 26 de setembro de 1936, filho de Erico e Mafalda Verissimo, o que ele descobriu logo é que gostava de viajar. Aos sete anos de idade, foi com os pais e a irmã, Clarissa, viver por quatro anos nos Estados Unidos, onde Erico, que além de escritor foi professor, lecionou e, mais tarde, retornou como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana. Essa segunda oportunidade revelou a Luis Fernando, então com 17 anos, uma de suas grandes paixões: o jazz.


Não foi a única paixão que lhe surgiu numa viagem. Em 1962, decidiu morar no Rio de Janeiro, na casa de uma tia, e lá conheceu Lúcia Helena. Casaram-se dois anos depois e, em seguida, tiveram Fernanda. "Só que eu estava sem nenhuma perspectiva no Rio, então, fiz o que se faz, sensatamente, nessa situação: voltei para a casa do pai", pondera. Em busca de um emprego, aceitou o convite do amigo da família Paulo Amorim, na época, diretor de redação de Zero Hora, para atuar no jornal. "Era um jornal pequeno, com uma existência precária. A gente não sabia se ia ser pago ou não, nem quando sairia o salário do mês", relata.


Sem jeito para redação


Para não precisar depender do jornal como ganha-pão, Luis Fernando, que já tinha mais uma filha, Mariana, decidiu buscar uma segunda fonte de renda. Como tinha se acertado com o texto, achou que poderia se apresentar como redator em agências de publicidade. "Fui fazer um teste na Mercur, mas não fui bem, não. Disseram que eu não tinha muito futuro como redator?". O responsável pelo veto ao candidato deve se arrepender até hoje. De lá, foi direto para a MPM, onde acreditaram em seu talento e atuou por 15 anos com redação publicitária. O curioso é que Verissimo já havia cogitado trabalhar na área, mas na parte de arte, já que era muito ligado ao desenho. Esse talento só foi mostrado ao público quando assumiu uma coluna no jornal. "Disseram que eu podia aproveitar o espaço como eu quisesse, então usei para escrever e também brincar de cartunista, fazer quadrinhos. Foi quando inventei a história das Cobras. Descobri minhas vocações um pouco tarde, mas descobri", brinca.


Entre 1970 e 1975, mostrou suas cobras - nos desenhos - e alguns lagartos - nos textos - na coluna que escrevia para a Folha da Manhã, um dos três diários da Caldas Júnior. Nesse período, nasceu o terceiro filho, Pedro, e lançou seu primeiro livro, "O Popular", que reunia crônicas já publicadas em jornal. "Todos os meus livros, por um certo tempo, foram de coisas já veiculadas na imprensa. O primeiro romance foi "O Jardim do Diabo", de 1988", faz questão de explicar. Luis Fernando conta que, pelo menos conscientemente, nunca teve receio em escrever por ser filho de Erico. "Ele dizia que gostava do que eu escrevia, mas opinião de pai é meio suspeita", avalia. Além dos mais de 30 livros de crônicas, em parcerias e de desenhos, o escritor tem mais quatro romances: "Borges e os Orangotangos Eternos", "Gula - O Clube dos Anjos", "O Opositor" e a "12ª Noite".


Frescuras, mentiras e astrologia


De volta a Zero Hora, foi editor do que chama de "frescuras", que era a parte social, cultural e de guia de bares e restaurantes. "Às vezes, inventava um bar e gente que freqüentava o lugar. Era tão exagerado, que achava que as pessoas fossem notar que aquilo não podia ser verdade, mas algumas levavam a sério", diz. "Também fiz horóscopo, mas durou pouco. Não tinha tempo para fazer, então alternava as previsões entre os signos, porque achava, inocentemente, que as pessoas só liam o próprio signo, mas quem lê horóscopo lê todos", conta, revelando que os protestos dos leitores levaram à sua "aposentadoria como astrólogo".


Verissimo costumava contribuir para os jornais da imprensa alternativa, como Coojornal e Pasquim. "Naquela época, de ditadura militar, estávamos sempre testando os limites do permitido. Peguei bem essa fase, porque comecei a escrever em 1969, mas sempre deixei clara minha posição política, mesmo quando tinha que disfarçar um pouco, escrevendo mais nas entrelinhas do que nas linhas", recorda. Também colaborou com a revista Playboy e com o Jornal do Brasil e atuou como roteirista da Rede Globo: "Fazia parte da equipe de criação dos programas humorísticos com o Jô Soares e o Agildo Ribeiro, entre outros. Depois, fiz As Comédias da Vida Privada, que teve três temporadas e era baseado em textos meus".


Programas perfeitos


O gosto de viajar, cultivado na infância, o acompanha até hoje. "A primeira escola que freqüentei foi no exterior. Também levei a minha família para passar temporadas em Nova Iorque, Roma, Paris", conta. Pelo menos duas vezes por ano, Luis Fernando e Lúcia fazem uma viagem longa. Quando podem, os filhos vão junto, mas este prazer já é cada vez mais raro: Fernanda, jornalista, faz doutorado em Sorbonne, na França; Mariana, formada em Arquitetura, atua como roteirista de TV e Cinema em São Paulo; e Pedro, publicitário, decidiu investir na carreira musical - ele é vocalista da banda Tom Bloch - e mudou-se para o Rio de Janeiro. "Viajamos mesmo que não esteja de férias, pois posso mandar meus textos por e-mail. Trabalhei muito tempo na redação até conquistar esse privilégio", detalha, como se precisasse se justificar.


Verissimo revela que está escrevendo um novo romance, mas sempre que sobra um tempo gosta de ir ao cinema: "Vamos bastante, é um dos meus grandes prazeres. O programa perfeito para mim é pegar uma sessão das 18h e depois ir jantar. Cinema e comida". Ele confessa que sempre foi muito guloso, mas ultimamente tem se controlado por causa do peso, do coração e do diabetes. "O gosto continua o mesmo, mas a saúde, não", explica. E o prazer está em comer, não em preparar: "Só entro na cozinha para saber por que a comida está demorando".


Fôlego de saxofonista


Entre tantas atividades, a que dá mais prazer a Verissimo é a música. Ele, que só descobriu a vocação de escritor depois dos 30, hoje, prestes a completar 71 anos, acha que não tem mais idade para se aprofundar no assunto: "Mas, se pudesse voltar atrás, teria me aprofundado mais no estudo da música e do sax". O gosto por melodias sempre o acompanhou, mas foi quando descobriu o jazz, nos Estados Unidos, que decidiu aprender a tocar um instrumento. De volta a Porto Alegre, passou pelo conjunto de bailes Renato e seu Sexteto: "Só que o grupo tinha 11 figuras, quer dizer, era o maior sexteto do mundo", conclui.


Depois de muito tempo parado, há 12 anos retomou a atividade de músico amador, ao aceitar o convite do contrabaixista Jorge Gerhart para integrar o Jazz 6 (esse, sim, um sexteto). "Ficamos um tempo sem tocar, mas também tem meses em que tocamos bastante, vamos ao interior e para fora do estado. Já fomos a São Paulo, Rio de Janeiro, até Fortaleza, para participar de um festival. Não estivemos em Nova Iorque ainda, mas chegaremos lá", diz, confiante.


Rotinas tímidas


Embora seu único esporte seja, como ele mesmo diz, soprar o saxofone - "pelo menos meu pulmão deve andar bem" -, Luis Fernando gosta de acompanhar o futebol. "Gosto muito de futebol, jogava quando era garoto, mas não jogava bem, não", admite. Já foi muito a estádio, mas, hoje, comodista, prefere assistir aos jogos do Inter pela televisão. Para as Copas do Mundo, abre uma exceção, vai a todas desde 1986, quando cobriu o torneio no México para a Playboy. Além do esporte, pára na frente da TV para assistir ao Jornal Nacional, nos intervalos do trabalho. "Normalmente, começo a trabalhar às 10h e fico o dia inteiro. Tem dias mais e dias menos complicados, mas eu não sou muito organizado para trabalhar, tirando as rotinas que são estabelecidas pelos prazos, não tenho uma disciplina e o processo depende de muitos fatores", revela.


Desde 2003, tem escrito apenas três vezes por semana para o jornal, para ter mais tempo e porque diz que está cada vez mais difícil ter assunto todos os dias. Sua rotina de trabalho inclui ainda uma série de palestras para as quais é convidado: "Vou principalmente quando é ligado a escolas, para garotada, porque, apesar de não ter muito jeito para falar em público e nem gosto, acho que é o mínimo que posso fazer para ajudar a criar o gosto pela leitura. Muitos adolescentes vêm me dizer que começaram a gostar de leitura depois de ler um livro meu. É gratificante".


Desta vez, não deixou nem de comentar sobre sua fama de tímido. Foi quase loquaz, e ele mesmo se surpreendeu: "Pois é, tenho uma certa dificuldade de expressão falando, mas acho que escrevendo compenso um pouco. Aliás, acho que nunca falei tanto como nesta entrevista!".

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