Nathália Fruet: Ela é assertiva

Repórter da RBS TV em Brasília sabia desde cedo que gostaria de ser jornalista

Nathália Fruet - Arquivo pessoal

Até aquele momento tinham sido confirmadas as mortes de 90 jovens. Sem sequer solicitarem, deixou a praia e rumou a Porto Alegre para cobrir aquela situação que se transformou em uma tragédia. Após realizar alguns links direto da Capital, a então jornalista da Band News foi convocada para reportar in loco a situação dos jovens em Santa Maria. Ao longo do caminho, não paravam de passar ambulâncias no sentido contrário. Sinais extremos de que muitas vidas estavam em risco, enquanto tantas outras já haviam partido. Foi então que a jovem pensou: estou indo para a cobertura mais difícil da minha vida. 

O incêndio na Boate Kiss, ocorrido em janeiro de 2013, em Santa Maria, transformou a vida do Rio Grande do Sul. Desta repórter também. Ela é Nathália Fruet, gringa forte e guerreira de Caxias do Sul, que manteve o máximo de distanciamento da notícia possível. Só que, antes de jornalista, ela é humana, cidadã, filha e irmã. Após muito conseguir lutar e se desafiar para se manter 'profissionalmente intacta', por muitos dias foi dura ao noticiar a espera dos pais, os celulares dos jovens tocando ao lado dos corpos dos filhos e o salão do ginásio municipal repleto de caixões. Porém, em um único dia não se conteve e desandou a chorar sem parar. É que ela presenciou uma mãe sepultar dois filhos ao mesmo tempo. "Não tem como não se sensibilizar com a situação", desabafa, um pouco emocionada. 

É impossível começar a contar a história da Nathália sem relatar o momento que mais foi emocionante e marcou sua carreira. Se para os telespectadores foi com angústia acompanhar os noticiários, não dá nem para se imaginar na pele de um repórter que esteve lá. E toda a compostura e atenção começou ainda na infância: quando tinha a determinação de se tornar uma jornalista.

Microfone nas mãos e muitas histórias para contar

Uma das imagens da qual se recorda é do pai, Edson, voltando do trabalho e ao se sentar para ver o Jornal Nacional. Nessa hora era sagrado: a família inteira assistia - com muito silêncio para ouvir o noticiário. Toda essa situação chamava muita atenção da pequena Nathália, ao presumir que deveria ser muito legal ser jornalista. Na pré-escola, quando precisou escolher uma profissão para homenagear o Dia das Mães, não deu outra. Decidiu ir vestida de repórter, ao usar uma blusa com ombreira e carregar um microfone que tinham em casa. O momento, ao cinco anos, carrega até hoje por meio de uma fotografia que retrata o desejo de sempre. Ainda ganhou o apelido de 'Jornal Pioneiro do Prédio', porque sabia tudo o que acontecia no local. 

Na hora de fazer vestibular até cogitou fazer Direito, pois a dinda, Ana Raquel, é advogada e sempre a admirou muito. Entretanto, na hora da inscrição, a primeira opção foi o Jornalismo. Formou-se na UCS, em 2007, mas desde o início da faculdade tinha curiosidade para conhecer os veículos. No terceiro semestre, o Grupo RBS fez uma parceria com a sua universidade, na qual os estudantes concorreram a um estágio. Nathália passou, após se candidatar para a RBS TV, onde atuou por um ano. Também foi estagiária e repórter na Rádio Caixas. Todavia, o mundo é grande demais, e as possibilidades que a profissão proporciona são infinitas. Nunca teve a ambição de ficar na cidade natal e sempre desejou ir embora para alçar outros voos.

Menos de um ano após a formatura, recebeu um convite para fazer um freela na Band News durante um mês, em Porto Alegre. Apesar do então chefe autorizar ela a tirar férias e ir, a jovem sabia que, por algum motivo, não iria retornar. "Ao entrar no ônibus pensei: não vou mais voltar", recorda sobre a premonição. Passados 15 dias como temporária, foi convidada a trabalhar de fato na Band. Foram cinco anos no grupo, atuando em diversas áreas. Foi apresentadora, repórter, produtora, além de ter trabalhado na TV. 

Repórter pé no barro

Ao mudar mais uma vez, agora contratada da extinta da já TVCom, enfrentou a primeira grande cobertura no veículo, somente 15 dias após a estreia. Era 2013 e uma onda de protestos assolava o Brasil. Um trabalho muito intenso, visto que precisavam lidar com os manifestantes oscilando entre deixar ou não a imprensa trabalhar. Vale lembrar que o Grupo RBS, principalmente, foi o alvo de muitos embates. Para conseguir realizar o trabalho, Nathália calçava um tênis All Star e roupas que não remetesse a uma jornalista. "Sabia que estavam hostilizando muito. Lembro que, em certo momento, nossa equipe precisou sair escoltada pela guarda municipal, pois foi embretada na Câmara. Aquilo me marcou muito", rememora. 

Nesta época, ainda passou pela situação mais inusitada de sua carreira. Durante a Copa do Mundo realizada no Brasil, em 2014, estava na moda beijar as repórteres que estavam trabalhando ao vivo. Infelizmente, também aconteceu com ela, quando um torcedor argentino tentou beijar o seu ombro. Sem consentimento, simplesmente para atrapalhá-la. Nathália ficou sem reação. "De lá para cá, começou toda uma discussão sobre o papel da mulher e empoderamento. Me identifico também com isso, de poder ser uma jornalista. Costumo dizer que nos lugares que trabalhei, sempre fui tachada de brava, mas os colegas homens que também eram, não eram creditados assim", aponta, ao revelar que costuma dizer que é uma mulher, repórter, filha e amiga assertiva - algo que leva para a vida e para o trabalho também.

Ao trocar o sinal UHF pela televisão aberta, reportou para diversos telejornais da RBS TV. A cobertura de chuvas intensas que não cessavam foi uma das milhares de matérias em que trabalhou. A deixava muito angustiada toda essa situação, pois precisava fazer muito jornalismo para se obter algum resultado positivo das autoridades. "Todos os anos íamos no mesmo bairro, na mesma rua e é sempre o mesmo morador que está sofrendo uma consequência da falta de uma condição digna para morar", diz, revoltada. Além disso, era horrível ter que se deparar com pessoas que perdem tudo o tempo todo. Uma vez encontrou um senhor cuja casa havia sido invadida por uma enchente três vezes, somente naquele ano, e ele não queria deixá-la. 

Da lama para o Planalto

Assim como não quis parar em Caxias do Sul, muito menos desejou ficar por muito tempo em Porto Alegre. Assim que abriu uma vaga em Brasília, candidatou-se. O pedido foi uma surpresa para os colegas e gestores, porque sempre foi uma 'repórter pé no barro' e na Capital Federal 'é muito oficialesco'. Mas Nathália acreditava na importância de ter uma experiência como essa na carreira. Além disso, quando trabalhava na Band, realizou uma cobertura na capital federal e acabou gostando muito da cidade. Hoje, sua rotina consiste em se apresentar e manter contato com políticos e assessores, que são as fontes dela, por meio de cafés e visitas aos gabinetes. 

Em 2020, pode-se dizer que se sente, sim, uma pessoa realizada. Mas para tal, abriu mão de muito em sua vida, como um noivado de 12 anos, em detrimento de planos divergentes em relação ao lado profissional, e precisou fazer escolhas não muito simples. No currículo, dentre tantos momentos, a caxiense ainda carrega a cobertura de duas posses presidenciais, uma entrevista com o então presidente Lula e o acompanhamento do ex-governador Tarso Genro em uma comitiva ao Uruguai. Contudo, ela não para. Acredita que tem muito a fazer ainda, principalmente, com a explosão de fake news dos últimos tempos. 

Para Nathália, ser jornalista é ter resiliência e firmeza de não ter medo de perguntar e apurar. Ela relembra que, quando chegou em Porto Alegre, vinda do Interior, começaram a falar que ela fazia perguntas incomodativas. Todavia, não se esquece do que o colega Ozíris Marins disse na época: "Continua assim, porque o jornalismo é incomodar e perguntar o que as pessoas não querem falar". 

Mulher, amiga, leitora

Em Brasília, a vida social é muito ativa e há muitos sambas. Então, nas terças e sextas-feiras, além dos sábados, normalmente, os frequenta. Inclusive, volta e meia acaba esbarrando em algum senador, deputado ou assessor. Ela e as amigas Luisa, Débora e Carol sempre têm a agenda preestabelecida. Infelizmente, como a entrevista foi realizada em época de pandemia e isolamento social, as saídas são algo da qual sente muita falta no dia a dia. 

Gosta muito de ir ao CCBB, Centro Cultural do Banco do Brasil, que sempre tem peça de Teatro ou algo bacana para se fazer, além de sair em alguns domingos ao cinema, no Cine Brasília. Adora ver um romance, como os clássicos, enquanto chora, e não a interessa se já viu mais de uma vez. "Ao mesmo tempo que a Nathália é assertiva, ela é uma romântica também", diverte-se. Também aprendeu a apreciar os filmes brasileiros, e é bem eclética. Apenas não gosta de longas de terror e suspense. 

Há também muitos cafés em Brasília e adorava frequentá-los. Contudo, não importa onde vá morar: para ela a melhor comida é sempre massa, polenta e vinho. Ela brinca que isso se deve porque é uma gringa da Serra, assim como destaca a lasanha e polenta da mãe, Maria de Lourdes, a Malu. 

Gosta de MPB, como Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Alice Caymmi, além de Joss Stone, que ama de paixão. Nathália viu um espetáculo da inglesa quando esteve em Porto Alegre. Os britânicos de sua playlist não param na cantora de soul e R&B, pois o rock de Coldplay e The Kooks também estão na lista. Os últimos, inclusive, foram apresentados a ela graças ao Jornalismo, pois precisou cobrir um show da banda e acabou gostando das músicas. Ainda carrega o legado do ex-noivo, que a apresentou ao Pink Floyd e aos Rolling Stones. 

Tem uma estante com muitos livros em casa e tem na leitura um hobby, com a característica de que lê, relê e, ainda, sublinha os trechos que chamam atenção. Gosta muito de Valter Hugo Mãe e José Saramago, além das obras que são ligadas às temáticas de História e Economia. Atualmente, os livros de Yuval Noah Harari completam sua biblioteca. 

Se considera uma atleta frustrada, porque sempre gostou, mas nunca teve excelência nos esportes. Tentou jogar basquete e vôlei e, ultimamente, futebol de forma amadora. Entretanto, hoje em dia faz academia, pois revela que é muito comilona. Adora basquete, característica que compõe a biografia de seu Instagram e, no momento, comemora o retorno da NBA. Colorada, também acompanha futebol pela televisão e nos estádios - inclusive foi flagrada com amigos na transmissão de TV de uma partida do Internacional, realizada no Serra Dourada, estádio do Goiás, em Goiânia. 

É a base que mais importa

Hoje, a relação com a família segue a distância, mas sempre com muita importância. Para matar a saudade, fazem chamada de vídeo quase que diariamente. Segundo Nathália, sente falta dos almoços, das jantas em família, todos gringos, com muita gente falando e gritando. Ela procura nas férias ir passar uma parte do tempo com os pais. A casa deles é aquela que sempre pode voltar, e não importa o quanto tempo passe e fique longe, o amor e afeto são os mesmos. 

Com uma infância muito divertida, graças aos irmãos, Gabriela, hoje com 30 anos, e o Nataniel, 32, visto que a diferença de idade entre eles não é muito representativa, então, sempre foram companhia um para o outro. Quando eram crianças, moravam em um apartamento só com dois quartos, e os três dormiam no mesmo cômodo. Era folia garantida. Edson gravou tudo em fitas que possuem até hoje. Uma das maiores lembranças é de quando o irmão, em um belo dia, enquanto a mãe dormia, resolveu pintar as paredes do corredor do apartamento e o local virou quadro de pintura por alguns anos. "Que bom que meus pais resolveram ter três filhos, ser único deve ser monótono", aponta. 

Nas férias, os três ferviam, com outras crianças do prédio, além de receberem convite para ir à praia, ou na casa da tia Tereza, ou na casa dos avós paternos. Era uma briga, porque iam pra ficar uma semana e queriam depois continuar por um mês. Quando começaram a ficar mais velhos, os pais resolveram construir uma casa maior.  Era um evento cada fim de semana que iam ver a obra e acompanhar o lar saindo do papel. "Mas foi contraditório, porque cada um ganhou o seu quarto, que era o que a gente queria tanto. Só que eu achei meio sem graça ter o meu, era muito silencioso", rememora.

Na adolescência, uma vez que é a mais velha, acabou se distanciando deles, porque a diferença para a caçula é de cinco anos. Então, quando Nathália tinha 15, Gabriela estava com 10. A jornalista já não queria muito incluir ela nos seus programas, porque já não se considerava mais criança. Depois, já na fase adulta, quando já morava em Porto Alegre, ela e a irmã moraram juntas, enquanto o Nataniel ficou em Caxias - onde segue até hoje, enquanto a caçula se mudou para Tubarão, em Santa Catarina.

Não tem cão onde mora, mas, na casa dos pais, tem a Pietra, uma labradora preta, e a Mel, que morreu no início de 2020, visto que era mais velha. Então, sempre que volta a Caxias é uma festa com a cachorra. "É impressionante, parece que ela sabe que chegou a pessoa mais elétrica da família. O meu irmão diz que eu estimulo ela a desobedecer as regras que eles impõe, mas, na verdade, tô só ensinando ela a ser livre. Ela é muito amada e arteira. Adora triturar um jornal", conta.

Vida, ela ama na boa e na ruim

Nathália se define como uma pessoa divertida, alegre, passional, leal, franca e, como uma boa leonina, brinca que 'chega chegando'. Uma lutadora. Não importa o que aconteça, se é bom ou ruim, gosta muito da vida, e acredita que sempre se aprende algo. "Não existe uma vida perfeitinha, e não é linear: é mais erro do que acerto. Isso a torna mais legal. Acha que seria uma chatice viver em uma espécie de propaganda de margarina", opina.

Apesar de precisar fazer escolhas sobre o lado pessoal e profissional o tempo todo, não se arrepende de nenhuma delas. Pelo contrário. Lamenta o que não fez. Ao invés de muitos colegas, para o futuro, não está nos planos ir para a apresentação de telejornais, mas, sim, continuar sendo repórter - pois a possibilita estar sempre descobrindo novidades. Além de realizar coberturas que, até então, não chegou a trabalhar.

Com o lema de vida 'fazer valer a pena', acredita que viver é algo tão mágico que não pode desperdiçar essa chance que está tendo. Não deixar para os outros as suas escolhas, tampouco que outras pessoas determinem como vai ser a vida dela.

Quando a pandemia começou, Nathália e duas amigas, em uma chamada de vídeo, conversaram sobre isso. "Valeu a pena até aqui? Está valendo muito a pena porque tudo que eu quis viver até aqui eu vivi. As mudanças profissionais e um grande amor, enquanto estou nessa vida nômade de uma cidade pra outra e que siga assim, porque está tudo só começando", aborda. 

Ao finalizar, cita Valter Hugo Mãe, na obra 'O Paraíso são os Outros': "Há tanta gente maravilhosa. Tenho tudo para ouvir e ver. Ainda não sei nada. Leio livros para aprender. Estou sempre apressada. Sou muito mexida. Um dia quero uma coisa, no outro quero tudo. Sofro de um problema de sossego. Não sei o que é estar sossegada. Mais tarde corrijo".

 

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