Otto Guerra: O Walt Disney do Teresópolis

A jornada do cineasta, considerado pioneiro na animação brasileira, até conquistar uma posição entre os votantes no Oscar

Otto Guerra - Claudio Pedroso

"Com uma carreira diversificada, que abrange filmes publicitários e ácidas comédias autorais, ele se tornou o papa underground da animação brasileira...". É assim que Otto Guerra é apresentado no livro 'Animation Now', que reúne grandes nomes da animação no mundo inteiro. Uma única frase e muitos adjetivos para tentar descrever esse personagem. Ou melhor, esse criador de personagens. O filho mais novo do pecuarista Félix Guerra e da dona de casa Alba Guerra tem em si tudo que uma boa história costuma carregar: humor sagaz, percalços no caminho, sacadas incríveis e uma mensagem a passar. Afinal, como bom fã do cinema marginal, defende: "O que importa não é a história em si, mas o que é dito ali". Afinal de contas, não foi por tramas construídas de forma tradicional que o cineasta se tornou referência.

Responsável por trabalhos como 'Woody & Stock: sexo, orégano e rock and'roll' e 'Até que a Sbórnia nos separe', com 64 anos, o currículo de Otto tem mais de 500 produções, entre comerciais, curtas e longas. Sua irreverência, marca percebida em qualquer conversa de mais de cinco minutos com o cineasta, rendeu episódios geniais ao longo da vida. Em uma das ocasiões, ao ser chamado para palestrar em uma universidade de São Francisco (Califórnia), berço da cultura hippie, em função de seu trabalho com os quadrinhos de Angeli, ficou incomodado com a visão pré-histórica que os estudantes tinham do Brasil. Ao ser questionado sobre como é fazer animação em seu País, o profissional respondeu com o jeito Otto Guerra de ser: "Acho que é meio parecido com aqui, a diferença que tem, que eu acho que é notável, são os macacos. Eles pulam, espalham as folhas, bagunçam tudo, um inferno". O criador relata, aos risos, o choque dos norte-americanos que repetiam: "Monkeys?! Monkeys?!".

A trajetória e o esforço que levaram o cineasta a viajar o mundo produzindo e divulgando, conhecendo por volta de 40 países, em quatro dos cinco continentes, também chamaram a atenção da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Otto Guerra Netto, nome de registro que foi encurtado artisticamente pelo neto do seu Otto Guerra, tornou-se um dos votantes brasileiros do prêmio mais conhecido e aclamado do audiovisual: o Oscar. Mas não era preciso terem esperado mais de seis décadas para fazer o convite. Bastava escutar a dona Alba, que via o filho passar horas e horas, dias e dias, fechado no quarto desenhando quadrinhos e, depois de adulto, produzindo filmes, para saber o potencial daquele gaúcho, nascido em Porto Alegre e de infância no Alegrete. "O Disney da Oscar Tollens", era como a mãe do profissional o definia, referindo-se à rua onde moravam, na antiga Vila dos Comerciários, considerada, na época, região do bairro Teresópolis, na capital gaúcha.

A verdadeira Guerra

Da infância abastada na estância que o pai herdou na fronteira, Otto relembra o que chama de "culpa católica", já que pôde aproveitar com a tranquilidade de uma criança que ia para a escola de transporte e desenhava o dia todo no quarto sem preocupação alguma. Porém, na adolescência, seu Félix vendeu o espaço e acabou morrendo, deixando o cenário difícil para a família. Já na Capital, o cineasta teve que fazer do desenho a subsistência. Foi quando começou a batalha para 'viver da animação'. Com a dedicação como principal arma, ele conseguiu emprego na produtora do argentino Félix Follonier e conta que se dedicou a aprender todas as etapas do processo audiovisual. Ele recorda que trabalhava na construção da ideia, na edição e, inclusive, fazia a cópia final das produções. Estas eram reveladas em laboratório, com galões de substância química, em que os filmes eram mergulhados de forma semelhante ao procedimento fotográfico, porém com serpentinas de 10 metros.

Quando decidiu ter sua própria empresa, a peleia ficou mais séria. Foi então que nasceu, em 1978, com seu próprio nome, a Otto Desenhos Animados, e ele precisou, mais do que nunca, dos conhecimentos adquiridos até ali. Aplicar o que aprendeu não foi complicado, se comparado à dificuldade de investimentos. Mesmo conseguindo subsídios da extinta Empresa Brasileira de Filmes S.A. (Embrafilme), no início, eles eram "incipientes" e o jeito encontrado para subsidiar seus curtas e longas foi fazer publicidade. "Digo que vendi a alma para o diabo", brinca o cineasta, que teve de produzir materiais com viés comercial, para reunir orçamento que custeasse seus conteúdos próprios. Entre os conhecidos comerciais na bagagem, esteve a famosa campanha da RBS contra a violência infantil, dos "Monstrinhos". Otto destaca que apenas com 40 anos conseguiu deixar a propaganda de lado para fazer somente o que ama. Ele salienta o quanto, mesmo no século 21, o governo segue fazendo desmontes culturais que impedem o apoio financeiro a produtos como os cinematográficos.

E quem acha que essa luta foi a mais árdua, engana-se. Foi um câncer no cólon, descoberto com quase 60 anos, a verdadeira guerra. Esse tipo da doença, que o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) projeta como o terceiro de maior incidência no Brasil, atingiu a trajetória do profissional como uma daquelas reviravoltas dignas de cinema. Devido ao estágio em que a neoplasia estava, o quarto, considerado o mais grave, ela não atingia mais apenas o órgão de origem, mas também o cérebro, o pulmão e o fígado. "Pensei que ia morrer", relata Otto. Mas, como em toda trama que agrada o público, o protagonista precisava vencer um grande vilão. Foi com duas cirurgias, mais sessões de quimioterapia, que ele enfrentou o câncer e, após, ainda uma recidiva, e se manteve mais vivo do que nunca para seguir fazendo cinema e espalhando irreverência de Porto Alegre a Hollywood.

A experimentação acadêmica

Muita vivência e muita experimentação. O desenho sempre foi certeza, mas o restante no caminho do criador foi de muita tentativa e desistência, com uma boa dose de aprendizagem entre um ponto e outro. Foi assim na vida acadêmica do guri que, lá na estância alegretense, sonhava em ser engenheiro mecânico para desenhar aviões. Ele chegou a fazer o vestibular para o curso, mas não passou. Então, o instinto mandou fazer Arquitetura, e lá foi o jovem estudar construção e modelagem de ambientes. Porém, ainda não era 'aquilo'. Deixou os projetos arquitetônicos de lado e, seguindo a lógica do trabalho que já fazia na Otto Desenhos Animados, decidiu cursar Publicidade e Propaganda. As aulas caminhavam em paralelo com a rotina produtiva do cineasta, mas não com as ideias que fervilhavam na mente dele. Também não foi essa área que o prendeu à vida de acadêmico.

Passados os arroubos da juventude, Otto decidiu fazer Filosofia, pois se deu conta "que a existência era uma coisa complexa e valia a pena estudar". Formatura? Não. É verdade que o curso alimentou diversas conjecturas do já maduro profissional do audiovisual. Também o aproximou das ideias de grandes filósofos e colocou sua cabeça inquieta para trabalhar. Contudo, a dinâmica que impõe à sociedade a necessidade de uma graduação é, para ele, "uma bobagem". O produtor, que construiu quase toda a sua jornada a partir do conhecimento empírico, explica as inconsistências que vê por trás da aprendizagem universitária. Otto conta que, ao se render à ideia de pegar um diploma, cursando, aos 50 anos, Multimídia Digital, deparou-se com uma bibliografia inusitada na cadeira de animação: o livro trazia seu próprio nome como referência na área. "Estudei a mim mesmo", diverte-se. E complementa, aos risos: "E a citação estava errada".

A consagração

Otto entende o porquê foi nomeado como votante no Oscar, já que se classifica como "um dinossauro da animação". E o que poderia parecer presunção, se esclarece na humildade de uma explicação que aponta como "sorte" ter tido a coragem de preencher um grande currículo de produções antes da chegada do reconhecimento. Ele afirma que, até hoje, em sua empresa, segue um ritmo diferente do habitual, em que mantém sua própria forma de pensar e deixa os colaboradores livres para darem o melhor de si, ocupando cada espaço oportunizado, assim como fez em meio aos argentinos, há algumas décadas. Para o cineasta, apesar do mundo capitalista, seu trabalho vai muito além do dinheiro, uma vez que faz questão de destacar seu prazer em contar histórias.

Quem assiste da plateia pode ver a consagração de Otto em momentos como a entrada na Academia de Cinema ou alguma das diversas homenagens recebidas por ele ao longo dos anos. Mas, assim como no audiovisual, tudo depende do ponto de vista. Para dona Alba, o ápice do filho veio bem antes e não foi em um palco ou posto renomado, foi no jornal. Com o primogênito, Jorge Guerra, atuando como médico, a dona de casa acreditava ter chegado ao ápice do orgulho. Mas ela foi surpreendida ao abrir a Zero Hora e encontrar, nas páginas de um dos principais periódicos do Estado, o caçula cineasta - que, na época, já ganhava mais do que o irmão, inclusive.

Para Otto, a trajetória toda foi de muitas felicidades (e tristezas também), porém o momento mais marcante ocorreu ainda em 1984, quando, ao lado do sócio José Maia, sentou-se no Palácio dos Festivais, na Serra gaúcha, sem expectativa nenhuma ao concorrer, na categoria Mostra Gaúcha de Curtas do Festival de Cinema de Gramado, com a única animação e ver 'O Natal do burrinho' levando a premiação. "Eu e o Maia demos um pulo de 20 metros de altura", recorda, ressaltando que foi ali que se sentiu legitimado como cineasta.

Underground

Do guri colorado que não era aficionado por futebol, ao adulto agnóstico Espinosista, que parte do princípio de que Deus e a natureza são duas nomenclaturas para definir o mesmo, nada é considerado simples e comum na vida de Otto. Um exemplo é sua visão sobre as relações. O cineasta, que não é casado nem tem filhos e acredita que sua carreira não é estável suficiente para estruturar uma família, não entende o amor romântico como a sociedade à sua volta. Para ele, "virou doença" as pessoas tentarem se resolver por algo externo, buscando essa solução de forma desesperada, esquecendo o amor-próprio e a importância de se ter uma relação consigo mesmo.

E as complexidades da vida dele não terminam no âmbito pessoal. Um fato sobre o qual foi muito questionado e criticado foi: por que aceitar ser votante do Oscar, mesmo se enquadrando em um cenário cultural mais underground? A resposta está nos movimentos democráticos que ele tem percebido na indústria audiovisual, principalmente com a vitória de 'Parasita' (2019), sendo o primeiro filme de língua não inglesa a levar a estatueta mais almejada. Apesar disso, ainda tem certas restrições com as produções atuais norte-americanas, que considera estar fazendo mais do mesmo. Como referência de qualidade, relembra longas como 'Laranja Mecânica', 'Apocalipse Now' e o "filme da sua vida": 'Lawrence da Arábia'. "Eu adoro e odeio Hollywood", pontua, com seu habitual humor sarcástico.

Um olhar peculiar do mundo está em tudo que ele deixa transparecer, desde a preferência pelos quadrinhos do repórter Tintin, do belga Hergé, em vez de Superman e os demais super-heróis que conquistaram e ainda atraem a atenção de tantos jovens. O motivo está no interesse pelo ser humano e suas aventuras, sem poderes ou nada além de perspicácia e dedicação. Por motivos semelhantes, Otto também admira a animação 'Bob Sponja', de Stephen Hillenburg, a qual elogia por passar mensagens distintas a crianças, adultos, ou qualquer pessoa que assista, independentemente da faixa etária.

A construção desse criativo analítico de tudo à sua volta, que cita a obra de Michel Foucault, de Iberê Camargo e Pablo Picasso, foi diferenciada - como tudo em sua trajetória. Otto admite que foi apenas após já estar inserido na produção audiovisual que aprendeu a se abastecer de referências teóricas. Parte desse mérito atribui à Nydia Guimarães, esposa do escritor Josué Guimarães, que foi sua tutora literária por cerca de cinco anos, abrindo sua vasta biblioteca para ele e guiando-o nessa jornada de descoberta, marcada na memória do profissional pelos cinco volumes da obra francesa 'Os Thibault'. O resultado de tanto aprendizado está nas páginas de um livro que está escrevendo sobre a própria vida, o qual chama de "autopornográfico", em vez de autobiográfico. Otto Guerra pretende seguir construindo produções audiovisuais a partir de grandes desconstruções do que já sabe, sempre utilizando os altos e baixos que a vida lhe proporcionou, afinal de contas, como diz o título de seu livro: "Nem Doeu".

 

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