Roberto Pintaúde: Nascido para vender

“Publicitário desde a infância” e louco pelo bang-bang dos quadrinhos, Pintaúde revela uma vida simples e sem glamour. Mas assegura: "O segredo da propaganda é não ter vergonha do ridículo"

Antônio Roberto Pintaúde nasceu há 57 anos em Tupanciretã, interior do Rio Grande do Sul, e viveu toda infância e adolescência na tradicional Vila IAPI, em Porto Alegre. Desde aquela época, o talento criativo e a notável aptidão para vendas já eram bem presentes na vida do publicitário. A família, de classe social baixa, ficava admirada com as estratégias que o menino desenvolvia para se diferenciar dos concorrentes nos biscates que praticava.


Roberto conta que era comum, no feriado de Finados, a molecada do bairro fazer ponto no cemitério São João para "vender água" aos parentes dos defuntos que limpavam as sepulturas ou regavam flores. "Mas a competição era muito feroz, e eu não conseguia ser tão agressivo na abordagem como os outros garotos", lembra. Foi aí que o menino de dez anos resolveu procurar uma nova forma de ganhar seus trocados, aproveitando o "público-alvo" do cemitério. Percebendo que as pessoas de baixo poder aquisitivo tinham maior dificuldade para encontrar os túmulos - afinal, apenas uma plaqueta de metal indicava o número, sempre apagado pela sujeira -, Roberto pediu um mapa das quadras à administração do local e, com um balde de tinta pendurado no braço, passou a ajudar os visitantes a encontrar as sepulturas. "Além de o mapa sugerir meu credenciamento para auxiliar as pessoas, quando eu localizava o túmulo, o ?cliente? estava grato e pronto para aceitar todos os outros serviços. Então, eu pintava novamente o número do túmulo e acabava, inclusive, lhe vendendo água", conta, orgulhoso por ter faturado muito mais que a "concorrência". Por esses e outros fatos, Roberto acredita que já nasceu publicitário.


Aos 24 anos, quando ingressou no curso de Comunicação, trabalhava como representante comercial de produtos siderúrgicos. Sem fazer idéia de que existia Publicidade e Propaganda na faculdade, ele queria ser jornalista: "Mas eu tinha outra idéia sobre a profissão. Não gostei nada daquilo". A opção e a paixão pela propaganda surgiram logo no princípio do curso, quando percebeu que as aulas de publicidade tinham relação com o seu emprego de vendedor. "Era o que eu queria: seduzir as pessoas e estudar os procedimentos para isto", lembra. Roberto se formou em 1974 e, um ano mais tarde, fundou a Nova Forma, única agência em que trabalhou em toda trajetória profissional.


Campanhas marcantes, de fácil lembrança aos gaúchos, foram desenvolvidas pela agência para clientes como a loja Homem, Gang, West Coast e Motel da Barra. Para este último, que atendeu de 1987 a 1993, a Nova Forma criou um slogan polêmico, relacionado à Campanha da Fraternidade: É dando que se recebe. "Tivemos problemas até com a Igreja, nesse caso", lembra Roberto. A Homem, loja que não tinha filiais e ganhou repercussão em meados dos anos 70 com ações da Nova Forma, veiculou mais tarde uma campanha barata elaborada pela agência: vinte plaquinhas de rua, nos arredores de zonas e estabelecimentos comerciais, anunciavam que a sede da loja não se localizava ali. As inscrições das placas diziam "No Iguatemi não tem Homem", "Na Nilo Peçanha não tem Homem", e a Nova Forma sofreu novamente ameaças de processos. O slogan da Gang A loja que te entende foi uma das mais bem-sucedidas apostas da publicidade gaúcha.  


Carreteiro, Beatles e bang-bang


"O segredo da propaganda é não ter vergonha do ridículo. Esse glamour que às vezes circunda a publicidade é exatamente o meu oposto". A visão de Roberto Pintaúde sobre a propaganda não parece muito diferente de sua visão sobre a vida. Casado pela terceira vez, e pai de três filhos do primeiro casamento, Roberto Pintaúde afirma que vive uma rotina simples, com atividades simples e comportamentos ainda mais simples. O publicitário é apreciador de carreteiro de charque e dos filmes do Rambo. "E não compactuo com esse folclore de trabalhar até muito tarde, ou de virar a noite trabalhando", completa.



"Meu fim de semana é o mais prosaico possível. A única coisa que me tira de casa é um futebolzinho, um show de rock, ou uma sessão de cinema, no máximo", revela, salientando que detesta teatro e adora Beatles e Rolling Stones. Roberto até tentou aprender a tocar guitarra, aos 18 anos, mas o resultado parece ter sido meio traumático: "O professor gritava comigo, me chamava de burro e eu desisti". Nas férias - muito raras, segundo ele -, Roberto gosta de viajar. Portugal é o país que mais lhe encantou até hoje: "Tem uma energia acolhedora, pessoas gentis, comida boa e arquitetura bonita", analisa em tom nostálgico. Mas ao falar sobre esportes, faz até cara feia. Não gosta nem de caminhadas, nem de cooper, nem de nada. Só joga uma "pelada", de vez em quando.


Apaixonado por histórias em quadrinhos, principalmente as de faroeste, o publicitário é colecionador de gibis do cowboy justiceiro Tex Willer. Confessa que uma de suas maiores alegrias é encontrar novas edições da revista do herói nas bancas: "Faroeste é uma paixão que tenho desde criança, quando trocava figurinhas e assistia a filmes de bang-bang em matinés". É leitor assíduo de Luis Fernando Verissimo - garante que adora tudo que o autor lança -, e reprova livros técnicos sobre propaganda e vendas. "Tenho repulso por tendências e pela idealização que gira em torno delas. Acho uma bobajada de marca maior, sem qualquer consistência", condena.


Roberto afirma que sua única pretensão para o futuro é conseguir fazer cada vez melhor aquilo que já sabe fazer. "Quero ser o João Gilberto da propaganda", compara, referindo-se à persistência do compositor no exercício de suas práticas no violão. O publicitário ainda faz outra alusão à música quando revela que pretende se aposentar aos 64 anos, mencionando a canção When I?m 64, dos Beatles. "Meu objetivo é sempre viver uma vida simples. Posso até voltar a Tupanciretã", fantasia. Imagem

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