Perfil

Suani Campagnollo: Ela não pediu espaço, ocupou

Diretora da Batuca, Suani Campagnollo construiu a trajetória entre a indústria, maternidade e liderança de uma agência

Crédito: Coletiva.net

Suani Campagnollo tem o tipo de presença que chega antes das palavras. Não é sobre aparência, embora ela goste de se cuidar, de se apresentar bem, como faz questão de dizer. É mais sobre postura. Sobre alguém que aprendeu cedo que ocupar espaço exige convicção.

Diretora da agência Batuca, fala com a tranquilidade de quem conhece os bastidores das decisões. Escuta com atenção, responde com clareza e, quando conta uma história, deixa escapar um riso discreto, como quem sabe que a vida raramente segue o roteiro planejado. Mas algo parece constante na trajetória dela: movimento. Ela nunca foi de ficar parada.

Raízes e movimento

Nascida em 8 de dezembro de 1983, em Caxias do Sul, Suani Detofano Campagnollo cresceu entre dois mundos: a cidade e o interior. Filha de Alvi Campagnollo, empresário do setor metal-mecânico e sua grande inspiração, e de Lorena Detofano Campagnollo, dona de casa, ela lembra com carinho das visitas às casas dos avós, das raízes da colônia nos finais de semana em família.

Com a irmã, Karoline, aprendeu que as relações e os valores construídos dentro de casa moldam muito do que a gente leva para o mundo. Talvez por isso goste tanto de gente. Mesa cheia, conversa longa, histórias trocadas entre amigos. Para ela, os melhores momentos quase sempre acontecem quando há pessoas por perto. A solidão, confessa, não combina com o seu jeito de viver.

Aos 14 anos, enquanto muitos adolescentes ainda descobriam o que queriam fazer, Suani já trabalhava. Fazia serviços bancários, levava malotes, resolvia pequenas tarefas administrativas. Gostava da sensação de estar em ação. “Eu sempre fui uma pessoa em movimento”, reconhece. E continuou sendo.

Passou 15 anos atuando no setor metal-mecânico, no qual trabalhou entre as áreas comercial e de Marketing. Foi ali que começou a se interessar profundamente por posicionamento de marca, Comunicação e estratégia. A curiosidade sempre foi um motor importante.

Adolescente, era daquelas que perguntavam “por quê?” o tempo todo, às vezes até demais. “Tu é muito metida”, dizia o pai. A frase ficou. Mas foi justamente essa inquietação que a levou a entender melhor o funcionamento das empresas, das marcas e das relações entre comunicação e negócio. No fim das contas, Suani apenas se meteu onde precisava. 

Formou-se em Jornalismo pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) e fez especialização em Planejamento Estratégico pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Nunca atuou formalmente como jornalista, mas acredita que a formação ajudou a moldar algo que considera essencial: as capacidades de observar, ouvir e contar histórias.

Entre maternidade e identidade

A vida pessoal também seguiu em movimento. Suani é casada há 18 anos com Cassiano, também jornalista e músico. Os dois se conheceram em um bar de rock em Caxias do Sul. O relacionamento começou de forma pouco convencional: sem fases muito definidas. “Na prática, nunca teve namoro. Já virou família”, conta sorrindo. Ela já era mãe de Murilo, hoje com 22 anos. Depois vieram Francisco, de 17, e Valentim, de nove, o caçula, que ela descreve com carinho como uma surpresa da vida.

Conciliar maternidade e carreira nunca foi simples. Durante muitos anos, trabalhou intensamente. Depois de mais de uma década em ritmo acelerado, decidiu fazer uma pausa. Entre os 31 e os 34 anos, tirou um período sabático. “Foi quando mais trabalhei na vida”, brinca.

Foram três anos dedicados integralmente à maternidade. No segundo deles, descobriu que estava grávida do mais novo. Mas, depois de um tempo, percebeu que precisava retomar algo que também fazia parte da sua identidade. Voltar ao trabalho não era apenas uma decisão financeira. Era uma reconexão consigo mesma. Foi nesse momento que a Batuca entrou na história.

Uma trajetória construída por dentro

Suani chegou à agência em 2018 para atuar na área de Mídia. Não havia pressão externa para que voltasse ao mercado, a família estava bem financeiramente, mas ela queria retomar a vida profissional. Entrou sem expectativas grandiosas. Logo percebeu que havia espaço para construir novidades.

Na época, a Batuca ainda não tinha uma estrutura robusta de Mídia, especialmente no off-line. Ela chegou trazendo um olhar que vinha da indústria e uma certa nostalgia assumida pelos meios tradicionais. Enquanto muitos miravam o digital, ainda acreditava na força de um bom anúncio impresso. 

A virada veio quando a agência conquistou uma grande campanha da Latam, com veiculação em revistas distribuídas em toda a América Latina. Foi a primeira vez que sentiu que o mercado, e também a própria equipe, passava a enxergar o trabalho dela de outra forma. O respeito veio junto com a dimensão do projeto.

Há outro símbolo silencioso dessa fase logo na entrada da agência. Na Batuca, cada pessoa que chega escolhe uma imagem para compor uma grande parede coletiva de referências. A de Suani mostra Marilyn Monroe lendo um jornal.

Entre todos os retratos possíveis de uma das atrizes mais fotografadas da história, ela preferiu justamente esse: o de uma mulher famosa pela imagem, mas ali concentrada na leitura. Talvez porque, no fim das contas, Suani sempre tenha acreditado que comunicação é menos sobre aparecer e mais sobre entender o que está sendo dito.

Líder em formação

Passou pela coordenação de Mídia e Produção, depois pela coordenação de Atendimento, liderando equipes e entendendo cada vez mais profundamente os processos da agência. Conheceu os bastidores da criação, da estratégia, da gestão e do relacionamento com clientes. A curiosidade, aquela mesma que a acompanhava desde a adolescência, continuava guiando o caminho.

Até que, em determinado momento, ela decidiu verbalizar algo que até então era apenas um desejo. Comentou com André Lima, sócio da agência, que queria chegar lá. Queria ocupar aquele lugar.

A resposta veio na forma de um voto de confiança. Ele percebeu cedo algo difícil de ensinar: a paixão quase visceral de Suani pela Batuca. A curiosidade, o envolvimento e dedicação em cada processo, a vontade de fazer acontecer. Em vez de apenas abrir a porta, decidiu prepará-la para atravessá-la. Vieram mentoria, formação e acompanhamento direto, em uma construção conjunta desse novo papel. Hoje, ela lidera um time de cerca de 80 pessoas. E diz sentir algo que demorou para admitir em voz alta: orgulho de si.

Quando a presença já é resposta

Grande parte da trajetória Suani aconteceu em ambientes tradicionalmente masculinos. Primeiro na indústria metal-mecânica, depois em espaços de decisão dentro da Publicidade. Ser jovem e uma profissional nesses espaços nunca foi simples. “Se a mulher ligar, às vezes não atendem. Se o homem ligar, atendem”, revela, ao revisitar a trajetória.  

Com o tempo, o cenário mudou,  ainda que não completamente. Hoje, ela percebe que o impacto dessas situações é menor. Talvez porque a experiência tenha trazido segurança. Talvez porque a própria presença dela nesses espaços já diga muito. Ela também aprendeu a lidar com outro tipo de rótulo: o da aparência.

Durante a candidatura do Salão da Associação Riograndense de Propaganda (ARP), lembra que ouviu comentários de que era “a candidata mais bonita”. Ela não se incomoda. Mas também faz questão de lembrar que há muito mais ali. “Lidero um time grande, ajudamos a construir marcas importantes e temos mulheres incríveis trabalhando juntas aqui dentro.” Para ela, liderança também é isso: abrir espaço para que outras cresçam.

Intensidade e gratidão

Suani é intensa e não tenta esconder isso. Gosta do “mais”. Mais gente, mais ideias, mais movimento. Acorda cedo, organiza a rotina da casa, chega cedo à agência e tenta, sempre que possível, estar presente também na vida dos filhos. Às vezes busca Valentim na escola e, se não consegue, está sempre em casa para dar um beijo antes de ele dormir. Para ela, vida pessoal e profissional nunca foram mundos separados. Eles se misturam. E fazem sentido justamente assim.

Entre os momentos mais marcantes da vida recente está a perda do pai, que sempre foi a principal referência pessoal e profissional. Quando começou a crescer dentro da Batuca, ele já não estava mais ali para ver. Algo inusitado aconteceu durante o Salão ARP 2025, em que foi reconhecida pelo mercado como Dirigente de Comunicação do Ano, no início da premiação: uma joaninha pousou em seu braço. Suani sorriu. Pensou no pai.

Orgulho e futuro

Hoje, olhando para trás, diz que se alguém tivesse contado, 15 anos atrás, que aos 42 estaria exatamente onde está, liderando a agência que admira e trabalhando com o que ama, talvez tivesse achado exagero.

Mas aconteceu. Assumir a direção da Batuca, em 2024, foi, segundo ela mesma, o maior momento de satisfação da carreira. “Tenho muito orgulho de mim.” Não como vaidade, explica. Como reconhecimento do caminho percorrido.

Para os próximos anos, os planos continuam ligados ao movimento. Seguir trabalhando, consolidar ainda mais a Batuca como referência no mercado e, quem sabe, no futuro, dedicar tempo a projetos sociais ou organizações que apoiem outras pessoas.

Também deseja viajar mais. Dar aos filhos algo que considera precioso: repertório de mundo. Porque, no fim das contas, Suani parece acreditar em algo simples. A vida se constrói nas escolhas que fazemos e nas portas que decidimos abrir e da coragem de atravessá-las. Talvez por isso exista uma frase que sempre volta à sua cabeça: “seja a mulher que mudou a própria vida”. 

Autor

Márcia Dihl

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