André Pereira: Talento premiado

Por Poti Silveira Campos Ele é um dos mais premiados jornalistas gaúchos. Foram 19 homenagens ao longo da carreira de 40 anos: três prêmios …

Por Poti Silveira Campos
Ele é um dos mais premiados jornalistas gaúchos. Foram 19 homenagens ao longo da carreira de 40 anos: três prêmios Esso de Reportagem Regional Sul, dois ARI, quatro Badesul, dois Wladimir Herzog, um Movimento de Justiça e Direitos Humanos e três Sebrae, para citar os de maior repercussão. Um ranking divulgado pela publicação Jornalistas & Cia, em janeiro deste ano, apontou André Luiz Simas Pereira, 59 anos - completará 60 no próximo dia 13 de março - como o 49º profissional de imprensa mais premiado no país e o oitavo na Região Sul. A importante lista de distinções constitui um símbolo do reconhecimento obtido por André, mas, não são as placas e troféus que o tornaram também respeitado no mercado. Isto advém, antes de tudo, da dedicação, da seriedade e da competência - sem contar o comportamento tranquilo e afável - que aplicou ao longo da trajetória iniciada em 1972.
Nascido em Porto Alegre, André é um dos quatro filhos do médico Mário Lopes Pereira e de Cecília Simas Pereira. O pai morreu jovem, aos 43 anos, de infarto - André estava com 13. Perdeu a mãe em janeiro do ano passado. Aos 88 anos, Cecília morreu no mesmo dia em que a enteada do jornalista, Bárbara, formou-se em publicidade pela ESPM. "Imagina meu drama naquele dia tão paradoxal, dividido entre a despedida de minha mãe e a comemoração da conquista da menina rumo ao profissionalismo", relembra. O irmão, Paulo Denis, é também jornalista, com atuação na Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em Florianópolis (SC). A irmã, Maristela, é assistente social responsável pelo programa Minha Casa, Minha Vida na prefeitura de Alvorada.
André começou a suspeitar da inclinação para o jornalismo ainda garoto. "Em uma redação na escola, escrevi que queria ser arquiteto, mas a redação estava tão bem que a professora disse que eu seria jornalista ou escritor", relembra. Ainda assim, o jovem permaneceu mais algum tempo convicto de que deveria seguir a perspectiva da arquitetura, uma profissão "socialmente catalogável", como a medicina exercida pelo pai. Mais tarde, o adolescente recebeu nova sinalização do rumo profissional em teste vocacional nos efervescentes corredores do Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho dos anos 1960. De certa forma, o futuro estava escrito.
Sucesso na estreia
André prestou vestibular para Jornalismo na Faculdade de Comunicação (Famecos), da PUC, em 1972. Saiu-se muito bem na prova - "tirei quarto ou quinto lugar" - e concluiu rapidamente a formação, botando a mão no diploma três anos depois. Mais de três décadas depois, em 2006 e 2007, dedicou-se a uma pós-graduação em Jornalismo Literário, no Centro de Educação Superior de Blumenau (Cesblu/SC) em convênio com Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABLJ). A escolha do foco da pós está diretamente relacionada a uma das principais preocupações de André no exercício do jornalismo: o cuidado com o texto. Nada de literatices, no entanto: a qualidade do texto está diretamente relacionada ao conteúdo.
Um exemplo? Leia "O Caso Kliemann no 5.048º Dia", publicado em novembro de 1976 no Coojornal. Nada de frases de efeitos, mas a redação segura, de leitura fácil e, ao mesmo tempo, detalhada de quem entendeu perfeitamente que o assassinato de Margit Kliemann, embora provavelmente um crime comum, foi investigado e socialmente interpretado como crime político. Reportagem de fazer inveja a tantos outros que se aventuraram a escrever a respeito. E este foi um trabalho assinado por um jovem repórter, com apenas quatro anos de atividade profissional. O talento de André revelou-se cedo. O cedo, no caso, foi na própria estreia.
A primeira contratação foi no Diário de Notícias. Era 1972, e André, estagiário. Depois, foi estagiar em Zero Hora, contrato renovado por três vezes. No final do ano, passou a ser repórter. De acordo com o próprio André, a efetivação ocorreu em razão da necessidade de aumentar o efetivo da redação no período. Então, em fevereiro de 1974, recebeu uma incumbência especial: seguiu para o interior do Estado com a missão de cobrir os efeitos da seca avassaladora daquele ano. Só que André chegou lá e percebeu algo mais: "Havia uma nova situação social, advinda da colheita da soja. Havia uma euforia. Era a explosão da soja". A matéria, que era para ser sobre a seca, foi além. Se tornou a série "A Euforia da Soja" - que, por sua vez, se tornou o primeiro Prêmio Esso de Reportagem Regional Sul conquistado por André.
A trajetória profissional
Concluído o curso superior em 1975, André deixa a redação de Zero Hora e segue para a sucursal de Veja no Rio Grande do Sul. A seguir, é um dos 65 profissionais que fundam a Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre (Coojornal), onde atua como editor. Daí em diante trabalha em O Interior, de Carazinho, assume a chefia de reportagem da Folha da Tarde, retorna à redação da Zero Hora como repórter especial e integra a equipe de implantação do Diário do Sul, entre tantas outras colocações em jornais impressos. "Coojornal e Diário do Sul foram as experiências mais legais", diz. Foi também diretor eleito do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, entre 1996 e 1998.
Uma guinada na carreira ocorre em 1997, quando participa - e é aprovado - em um processo de seleção para a assessoria de imprensa da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Deste momento em diante, o repórter e editor passará a cuidar também de questões típicas do cotidiano de quem cuida da comunicação de instituições e personalidades. Na Câmara municipal, participa da equipe de implantação da primeira TV Legislativa no Estado. No mesmo período, vincula-se à produção de publicações impressas do PT. Em 1999, com a ascensão de Olívio Dutra ao Palácio Piratini, assume a assessoria de imprensa do gabinete do governador. "Foi complicado. Houve um embate com a imprensa. O governo despendia muita energia para esclarecer versões erradas, equivocadas ou mal intencionadas", avalia.
Encerrado o governo Olívio Dutra, André passa a responder pela assessoria de imprensa do gabinete do deputado Adão Villaverde. Do início de 2011 até janeiro de 2012, Villaverde comandou a Assembleia Legislativa, período em que André se tornou, então, superintendente de Comunicação Social e Relações Institucionais daquela Casa. No cargo, teve a oportunidade de estabelecer associação entre a função de assessor e a constante atenção com a qualidade do texto e da informação que caracterizaram a atividade de repórter e editor. Isto se materializou, por exemplo, na produção de reportagens por ocasião das comemorações dos 50 anos da Legalidade, em 2011.
Na linguagem dos anos 1960
Na Superintendência de Comunicação da Assembleia Legislativa, André se viu diante da tarefa de preparar textos alusivos aos cinquenta anos do episódio de resistência gaúcha pela posse de João Goulart, o Jango, depois da renúncia do presidente Jânio Quadros. Atento à missão de valorizar a participação da Casa, a primeira percepção que teve foi a da necessidade de mudar o foco. "Todo mundo escreve sobre a Legalidade na ótica do porão", diz, referindo-se à área subterrânea do Palácio Piratini onde o então governador Leonel Brizola havia instalado os microfones da Rádio Legalidade para proferir inflamados discursos. André, por sua vez, deslocou a narrativa para alguns metros à esquerda do Palácio, mais exatamente para a construção ao lado da sede do governo gaúcho - o chamado Casarão, prédio que abrigava a Assembleia nos idos de 1960.
Mais do que isso, André também entendeu que as reportagens deveriam seguir a ótica daquele momento, inclusive na linguagem. "Troveja o vozeirão em tom compassado do deputado Poty Medeiros, da União Democrática Nacional (UDN), que repete o advérbio lustroso, na retórica caprichada", escreveu o jornalista nas primeiras linhas da reportagem que deu início à série. "A Assembleia ficou 17 dias em sessão cívica permanente [em 1961]. Resgatamos a participação dos deputados. Este era meu papel como superintendente de Comunicação", afirma André sobre as matérias produzidas por ele e por profissionais experientes como Antonio de Oliveira e Paulo de Tarso Ricordi.
Evidentemente, tamanho carinho e dedicação à escrita - "eu gosto de escrever" - também resultou na publicação de livros ao longo da carreira. São 11 títulos, alguns institucionais - como "Senac - 50 anos formando competência" -, outros fruto de trabalho típico de repórter, como uma biografia de Fernando Ferrari, para a série Esses Gaúchos, da Editora Tchê (1985), ou "O Massacre do Fundão - Os Monges Barbudos", em parceria com Carlos Wagner, sobre um conflito social ocorrido na década de 1930 na região de Soledade. André também assina o texto de "Ponto de Vista", livro de fotografias publicado pela Editora Movimento (1979), com imagens da primeira mulher de André, Jacqueline Joner, e outros três profissionais.
Saudade do futebol
Em parceria com Jacqueline Joner, além do livro, André teve dois filhos: o personal trainer Pedro, 34 anos, e a designer e profissional da área de turismo Camila, 29. Hoje, em terceiro casamento, André vive com a psicóloga Jaqueline Ferreira. O casal mora em uma casa na Vila Ipiranga, na Zona Norte da Capital, na companhia da vira-latas Paloma. Os dois, André e Jaqueline, compartilham uma verdadeira paixão pelo Uruguai. O país vizinho é destino de viagens anuais da dupla, que aprecia circular pelas ruas da capital, Montevidéu, por Punta Del Diablo, Piriápolis e pela histórica e romântica Colônia do Sacramento.
No esporte, André pratica, no momento, a saudade do futebol. Uma lesão no joelho o afastou dos campos. Uma cirurgia poderia resolver o problema, porém, além da intervenção, seria necessário manter o corpo de 1,79 metro e mais de 80 quilos em repouso durante alguns meses. "Minha atividade física se resume a caminhadas de uma hora, todos os dias. Ainda sonho em ter condições de jogar futebol novamente", suspira. As caminhadas ocorrem pela manhã. Acorda às 6h, caminha, segue para o gabinete de Villaverde na Assembleia e só retorna para casa por volta das 20h.
No entretenimento, cinema e livros. Adorou A Invenção de Hugo Cabret [de Martin Scorsese], que considera "delicado, sensível." As leituras contemplam dois ou três livros simultaneamente. Prefere ler em espanhol - "mas não sei explicar por quê" - e, independentemente do idioma, recomenda aos estudantes de jornalismo: "Leiam. É a primeira coisa. É fundamental. Não importa se é por Internet ou em livro. Tem de ler muito. É com a leitura que a pessoa incorpora recursos de escrita". Palavra de jornalista premiado.
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