Santiago: Um talento macanudo

Batizado como Neltair Rebés Abreu, ainda na época da faculdade ele ganhou o apelido por ser natural

Santiago - Reprodução

Batizado como Neltair Rebés Abreu, ainda na época da faculdade ele ganhou o apelido por ser natural de Santiago, e acabou adotando-o como "nome de guerra". Este ano, o chargista e cartunista completa 30 anos de carreira, consagrando-se como uma das figuras mais importantes do humor gráfico nacional. Suas charges e caricaturas já foram veiculadas em várias publicações brasileiras, e já renderam 11 livros. Assim, com uma trajetória feita com muita humildade e uma linguagem típica de gaúcho, Santiago foi deixando sua marca na história do cartum gaúcho e brasileiro. Desde pequeno já fazia seus riscos e rabiscos. O talento para o desenho era evidente, o que o motivou a sair da cidade natal para vir a Porto Alegre em busca de uma formação condizente.

Cursou três faculdades ligadas ao desenho, Arquitetura, Jornalismo e Artes Plásticas, mas nenhuma delas chegou a ser concluída. "Sou pós-graduado em não terminar cursos", brinca Santiago. O marco de sua trajetória está cravado no ano de 1974, quando foi convidado para trabalhar como ilustrador na extinta Folha da Tarde. Atuou lá durante nove anos, até seu fechamento, em 1983. Desde então, Santiago trabalha como free-lancer para várias publicações.

Na década de 80 ainda, colaborou como chargista para o Estado de São Paulo e para o Coojornal, da Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre. Durante alguns anos, publicou desenhos na primeira fase no Pasquim e na revista Bundas. Mas o seu famoso personagem "Macanudo Taurino", figura de um gaúcho que é inspiração para a maioria de seus desenhos humorísticos, foi criado na atuação junto ao jornal O Interior, uma publicação da Fecotrigo. Atualmente, seu humor gráfico é veiculado, duas vezes por semana, no Jornal do Comércio, e em publicações especializadas, como Pasquim 21 e revista Planeta Arroz.

O esforço sempre premiado

O talento e dedicação para os desenhos renderam muitos prêmios e distinções. Ele já ganhou diversas edições de Fóruns de Humor Gráfico, e o principal, a premiação do jornal Yomiuri, espécie de Oscar anual dos cartuns que se realiza no Japão. O primeiro dos 11 livros editados data de 1976, "Humor Macanudo". Depois do último, "Dupla Sertanojo", lançado em 2003, Santiago já prepara mais uma obra, a ser lançada na próxima edição da Feira do Livro de Porto Alegre.

Para comemorar esses 30 anos de carreira de humor gráfico, idealizou "Caminhos de Santiago", exposição que traz os seu principais desenhos, entre charges, cartuns e caricaturas. A mostra ficará até dia 24 de agosto, no Museu do Trabalho. "O reconhecimento do meu trabalho, os prêmios e os livros não me deixaram rico, mas fizeram com que eu conseguisse alcançar a realização profissional", destaca Santiago. A inspiração para criar os desenhos vem de sua análise das principais notícias, após a leitura diária de jornais. O trabalho é feito em um estúdio equipado com uma mesa de desenho, com muitos papéis ao seu redor. Para Santiago, não existe inspiração, já que sua ativudade é considerada como um lazer e, ao mesmo tempo, um hobby. "Eu acredito que haja mais transpiração do que inspiração. Tem que insistir para que as idéias surjam. E daqui a pouco eu começo a desenhar e tá pronto", conta.

Por trás da aquarela

Santiago é casado há 26 anos com Olga, com quem tem dois filhos: Cátia, de 26 anos, e Bernardo, de 23. Conciliar trabalho e família é fácil para o cartunista, que trabalha em casa. Mas nem por isso deixa de cumprir "um horário comercial", reservando a noite para o lazer com a família. Nos fins de semana, Santiago gosta de ficar em casa, como ele bem define, "fazendo as coisas mais idiotas possíveis": ficar atirado sem fazer nada ou só olhando TV. Nas horas de folga, aproveita para ler e assistir filmes. As preferências por leitura são variadas, desde jornais e revistas até obras clássicas da literatura.

Na cabeceira está agora "O Tempo e Vento". "Eu sou extremamente sonolento quando leio, então procuro ler durante o dia e fins de semana", conta. Como atividade física, pratica caminhadas nos parques da Redenção e Marinha do Brasil. Santiago gosta de desenhar com um som ambiental ao fundo. Quando não está escutando notícias através do rádio, gosta de ouvir músicas, especialmente MPB.

Outra paixão do cartunista é viajar. "Se pudesse, eu estaria sempre viajando. Pena que hoje em dia não dá para fazer isso". Dos locais já visitados, destaca a Espanha. Ele já foi três vezes para lá e salienta que gostaria muito de fixar moradia no país. Entre tantas viagens que ainda gostaria de realizar, vislumbra conhecer primeiro Praga e a região dos Alpes. Para o cartunista, ser passional com causas políticas e sociais é um dos seus defeitos. "Eu me apaixono pelas coisas que tenho convicção. Por muitas vezes, isso me atrapalha, tanto no lado pessoal quanto profissional. Me tira a tranqüilidade", confessa. Como qualidade, Santiago destaca que se relacionar bem com os amigos e pessoas que o rodeiam é a sua principal virtude. O grande projeto do momento é divulgar ainda mais o trabalho de humor gráfico, principalmente com o lançamento de livros de quadrinhos e cartuns. "Eu sempre tenho projetos guardados na gaveta. Quero transformá-los em mais e mais obras", diz.

Para o futuro, ele almeja ter mais disponibilidade de tempo para fazer os desenhos. "Eu sou muito detalhista. Gostaria de ter três dias para fazer o desenho que faço hoje em um dia. Daí poderia alcançar a perfeição e desenhar com mais intensidade". A simplicidade sempre vem em primeiro lugar na vida de Santiago, que revela que sua filosofia de vida é "simplesmente ser simples". "Nada é fácil na vida, mas procuro não complicar as coisas que já são complicadas. Talvez possa até ser simplório demais, mas isso vem garantindo minha felicidade", enfatiza. O segredo do sucesso? Para o simpático Santiago só há uma palavra pela qual possa se alcançar os êxitos da vida: trabalho.

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