João Firme de Oliveira: Viajante inverterado

Viajante inverterado, nos últimos 40 anos ele vem percorrendo o mundo para trocar informações, experiências e consolidar entidades na área da propaganda. Não por …

Viajante inverterado, nos últimos 40 anos ele vem percorrendo o mundo para trocar informações, experiências e consolidar entidades na área da propaganda. Não por acaso, muita gente o conhece aqui e mesmo no Exterior como "João Gramado", principalmente pelo fato de ter sido o grande mentor do Festival Mundial de Publicidade de Gramado. Assim, com as características peculiares de um homem de comunicação que iniciou no rádio, o agora diretor da Farol Propaganda, João Firme de Oliveira, está intimamente sintonizado com a propaganda mundial. Nascido em Santa Rosa, o publicitário e advogado iniciou sua caminhada na área da comunicação aos 16 anos, trabalhando na rádio da cidade como locutor e apresentador e dando seus primeiros passos no segmento comercial. "Eu acabei nesse setor depois de ver frustradas duas das minhas sonhadas vocações: engajar no Exército, o que não foi possível porque como bom colono tinha pé-chato, e cursar veterinária, logo eu que sou um amante dos animais", comenta. As dificuldades, porém, não amedrontaram aquele jovem entusiasmado que, logo depois de desembarcar em Porto Alegre, começava uma nova fase na carreira, entrando na Rádio Itaí. "Comecei a me especializar na área comercial e vi que a publicidade poderia ser um campo ótimo para explorar profissionalmente", relembra Joãozinho.
INVESTIMENTO E OUSADIA
Para poder concretizar seu novo sonho no ambiente da comunicação gaúcha, João Firme começou o curso de Publicidade na Famecos/PUC, em 1962, "como forma de buscar especialização nessa área, uma vez que trabalhar naquelas que na época eram as grandes agências, como Sotel e a MPM, era algo difícil". Foi assim que resolveu investir, com ousadia e, em 1963, abriu a sua primeira agência, a Minuano Publicidade, que em 1966 passou a se chamar Arauto Publicidade. "Cheguei a ter 37 funcionários e grandes contas do Interior do Estado, como SLC, Grazziotin e Semeato", lembra. Ao mesmo tempo, decidiu buscar outra faculdade "na área das relações humanas", e entrou para o curso de Direito, em Passo Fundo. "Eu trabalhava, fazia PP na Famecos e ainda viajava, de madrugada, para Passo Fundo, onde realizava as provas pela manhã do outro dia e retornava a Porto Alegre. E muitas vezes tive de caminhar uns 10 quilômetros até a cidade de Passo Fundo", relata, ao relembrar as dificuldades para manter esse ritmo. O conhecimento adquirido transformou João Firme em uma referência no mercado. Sua necessidade em conhecer a ação das agências no Exterior levou-o a diferentes países, principalmente na América Latina. Desses encontros nasceram frutos como a própria Associação Latino-americana de Propaganda (Alap), em 1985. João recorda que, a princípio, Montevidéu fora indicada para sediar a entidade, mas os participantes do congresso que a criou preferiram trazê-la para Porto Alegre.
TERREMOTOS E SERRA
A proximidade e o carinho com a região da Serra gaúcha e, claro, com Gramado, contribuíram significativamente para que a cidade se tornasse o berço daquele que, atualmente, é um dos mais tradicionais eventos internacionais da propaganda mundial. E, para "vender a idéia" do Festival, João Firme enfrentou terremotos - literalmente. Foram quatro, que abalaram México, Costa Rica, Chile e Peru. "Agora, já podemos falar no festival como um evento, não como um negócio que precisava ser batalhado para cobrir os custos de sua produção. Conseguimos institucionalizar a idéia mundialmente e vamos, neste ano de 2002, fazer uma apresentação dele durante o Festival de Cannes", revela ele. Aos 67 anos, João Firme continua com a mesma disposição de correr o mundo para discutir a propaganda pelos seus diferentes prismas. "Além de gostar de viajar, ainda tenho, muitas vezes, a companhia do meu filho, que é piloto de 737, na Varig", exulta. Nessas viagens, o publicitário muitas vezes foi homenageado pela sua contribuição à publicidade. Mas, foi na mesma querida e conhecida Gramado que ele teve, recentemente, um de seus momentos de maior entusiasmo ao receber o título de "Cidadão Gramadense". Para Firme, a cidade sempre reconheceu o valor que os eventos do setor de comunicação tiveram para sua promoção. Outro momento foi em 1989, quando recebeu uma homenagem da embaixada brasileira na Costa Rica, pelo seu trabalho. As muitas atividades do publicitário se misturam com a própria história do país. Quando da morte de Getúlio Vargas, ele estava na rádio Santiago e conseguiu, com o Exército, uma linha especial para transmitir os funerais, em São Borja, através de uma linha de onda tropical, chamada RD-400. "Naquela época, as linhas telefônicas eram precárias e a nossa equipe foi talvez a única a conseguir fazer a transmissão, captada e retransmitida até pelas rádios da Capital", ressalta ao lembrar dos discursos emocionados de Osvaldo Aranha e Leonel Brizola.
ANIMAIS E VOLUNTARIADO
Juntamente com a luta contra a censura prévia na propaganda, que teve sua participação direta, aliada ao trabalho desenvolvido pelo jurista e ex-ministro Saulo Ramos, o publicitário gaúcho esteve presente em diferentes momentos da vida nacional. "Lembro-me bem quando o ministro Arnaldo Prieto autorizou, em meio à ditadura militar que ainda reinava, a assinatura da primeira carta sindical para o Sindicato das Agências de Propaganda do RS, uma luta mantida por um grupo de profissionais", comemora. Hoje, as lutas de João Firme se dão em outros campos. Um deles, o do voluntariado pela causa dos animais. Franciscano devoto, foi um dos mentores e é o maior entusiasta do Fórum para o Bem-Estar dos Animais do Mercosul, realizado com a Associação Riograndense de Proteção aos Animais (ARPA). "Acredito que é praticamente um dever dos publicitários contribuírem para trabalhos de responsabilidade social", argumenta ao mencionar ações feitas por ele para o Instituto Santa Luzia, a Casa do Menino Jesus de Praga, a APAE/RS e a própria ARPA. Essa luta é uma das mais gratificantes: para o publicitário, é uma perspectiva para o futuro. "Gosto de ler, escrever algumas coisas para diferentes publicações e, principalmente, passear com minha esposa e os meus cachorros pelas ruas de Porto Alegre. E, sempre que posso, gosto de dar uma chegadinha no meu sítio em Gravataí", diz ao ressaltar que, se fosse mais jovem, estaria integrado às lutas da organização Greenpeace. Esse trajeto que se mistura à história da propaganda tem no profissionalismo e na ética o seu bastião. "Acho que é importante que a pessoa seja ela própria, com perserverança, como a que consegui ter para buscar o meu grande objetivo de me tornar um publicitário, apesar das dificuldades que tive de enfrentar", sustenta. Como não poderia deixar de ser, entre os projetos futuros de João Firme, um está intimamente ligado com a Serra gaúcha. "Quero comprar um apartamento em Gramado e ficar mais próximo das belezas daquele lugar mágico".

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