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Jonatas Abbott: Essência de vendedor

Ele deixou o romantismo para encarar a realidade e acredita que, quando menos se espera, tudo pode mudar 
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Jonatas Abbott | Divulgação

Por Gabriela Boesel

Foi dançando ao som de uma banda francesa, às margens do rio Sena, na praça atrás da catedral de Notre Dame, que se fez o cenário do que ele relembraria para sempre como “o melhor dia que passei em Paris”. O pôr do sol no verão parisiense completou a imagem que Jonatas Abbott carrega até hoje na memória, como se fosse ontem a viagem que fez em julho com a família. O executivo de origem inglesa é um apaixonado por viagem, e enquanto conversa não deixa de fazer conexão com os passeios que fez pelo mundo. Admirador do romantismo de Paris, vê em Londres uma cidade cosmopolita e deslumbrante, enquanto Nova Iorque “é fascinante”.

A metrópole norte-americana foi clicada por ele em diversos ângulos e este seu olhar foi eternizado em um livro com mais de 100 imagens, com prefácio escrito pela especialista em Marketing Digital Martha Gabriel. “Saber ver, imaginar, enquadrar e captar instantes é uma arte, e se existe uma pessoa que sabe fazer isso com maestria é Jonatas Abbott! (…) Jonatas domina como poucos o poder do olhar e recortar o mundo, com uma sensibilidade ímpar”, aponta Martha.

Hoje hobby, a arte de fotografar já foi sua paixão. Na juventude, chegou a ter o próprio estúdio, onde clicou modelos e o início da carreira da cantora Adriana Calcanhoto. Por não saber comercializar este talento, como reconhece, desfez-se do espaço e encarou a realidade. Ironicamente, virou vendedor de profissão.

Viradas e reviravoltas

O conforto financeiro usufruído na infância e na pré-adolescência deu lugar a uma juventude difícil. O pai, Antônio Carlos Silveira Abbott, que era aposentado do Banco do Brasil, foi diagnosticado com câncer de pulmão em 1986. Nos cinco anos seguintes, o tratamento levou a família ao fundo do poço, como ele mesmo lembra e, ao recém atingir a maioridade, Jonatas entrou para um furacão que acabou seis anos depois. “É uma experiência ruim, porque é preciso sentir essa dor para mudar radicalmente de vida. E os planos são outros”, reflete, emocionado com a lembrança do pai.

Quando percebeu que não haveria possibilidade de dar certo na Comunicação, vestiu a camisa de vendedor. “Era um romantismo que não dava grana. E com a situação do pai, abandonei o sonho para me sustentar.” O que não tinha opção transformou-se em sucesso. Desacreditado pela família, amigos e por ele mesmo, deu uma reviravolta e se encontrou no ramo. Começou na comercialização de batata na Serra Gaúcha, com 19 anos, passou a vender computador e migrou para o mercado de provedor.

Quando ainda não tinha se estabelecido financeiramente, conheceu a esposa Karen, com quem está casado há 20 anos. “Estava completamente quebrado. Tinha um par de sapatos e um terno para todas as ocasiões”, lembra, rindo da situação. Mesmo sem acreditar em destino, acha a história do casal um tanto quanto curiosa, pois ambos eram noivos quando se conheceram. “Estávamos, cada um, com seu enxoval pronto e aliança no dedo, mas foi arrebatador”, relata, ao recordar que a primeira vez que se viram foi em uma competição de paddle. “Trinta dias depois, estávamos morando juntos”, completa.

Com a vida amorosa estabelecida, a carreira começou a deslanchar. Na multinacional Matrix – empresa de Gestão e Operação para Provedores – foi gerente-geral na filial de Porto Alegre e eleito o melhor das 55 filiais no País. Da façanha surgiu um convite para ser diretor. E, a cada escolha, concretizou-se uma renúncia. Abandonou a faculdade de Publicidade e Propaganda, que cursava na Ufrgs, pouco antes de conquistar o diploma. Entretanto, com uma mudança inesperada para Florianópolis, deixou a empresa e voltou desempregado para a capital gaúcha, onde a dentista Karen o esperava com o filho Gustavo recém-nascido, e que, hoje, tem 17 anos.

A trajetória penosa é motivo de orgulho e ousa dizer que tem o melhor trabalho do mundo e se sente 100% realizado. Sócio-diretor da Dinamize – empresa de solução de e-mail marketing – desde 2005, acredita que a organização é um resultado de tudo o que aprendeu nas outras experiências. “A Dinamize é minha vida e está muito ligada à minha vida pessoal, pois meus amigos estão aqui. É uma grande família.” No currículo carrega, ainda, a diretoria regional da Associação Brasileira das Agências Digitais (Abradi-RS) e a presidência da entidade em nível nacional, de 2012 a 2014.

Nada é por acaso

Como parte importante das trajetórias pessoal e profissional, destaca o caratê, arte marcial que entrou em sua vida ainda na infância, quando o pai o colocou em uma academia por brigar muito na escola. Dos 11 aos 16 anos, aprendeu todos os ensinamentos da prática e, três décadas depois, retomou o esporte. Hoje faixa preta, emociona-se ao falar sobre a experiência de poder lutar ao lado do filho, um faixa marrom.

O caratê também foi peça importante para deixar o hábito do cigarro, há cinco anos. Foi durante uma luta na academia quando, ao sentir falta de ar, decidiu parar. Lembrou do pai, cujo câncer foi provocado pelo mesmo hábito, e pensou no filho que deixaria caso seguisse destino igual. Sem conter a emoção, lamentou, mais uma vez, a falta do seu Antônio: “Acho que quando mais precisei dele foi com 40 e poucos anos, quando tive que tomar decisões na empresa. A presença dele seria muito importante”.

A perda do pai e de um amigo, também vítima de câncer, fez com que Jonatas reforçasse sua descrença em qualquer religião. Ainda que batizado na igreja católica, define-se agnóstico e ressalta que não acredita em nada. Outro episódio corrobora para a escolha: há 10 anos, o primogênito prendeu o braço no ralo de uma piscina em um hotel na Bahia. A 1,80 metro de profundidade, foi salvo “aos 45 do segundo tempo” e desmaiou quando estava na superfície. Abalado, revela que tem dificuldade de falar sobre o assunto sem se emocionar.

A grande família

Quase uma década depois de ter Gustavo, Camila, hoje com nove anos, chegou para completar a família. Companheira de viagens e aprendiz do caratê, a pequena fez uma participação especial na entrevista quando ligou para o pai, que a atendeu de forma carinhosa. Após ajudar a filha no que ela precisava, desligou o telefone e disse, sorrindo e compreensivo: “E nós que pensávamos que ter filhos com uma diferença dessas de idade não iria dar briga entre eles”.

A infância foi dividida com cinco irmãos. Por parte do pai, tem Antônio Carlos Abbott, que mora no Maranhão, e Iolanda Abbott Kalil, mãe da jornalista Mariana Kalil, o que faz dela sua sobrinha. Da união com a mãe, Maria Helena Galvão Abbott, nasceram Christina, Eneida, Jonatas e Er. Na mesma viagem em que foi à França, passou por Londres, onde viu ao vivo o rio Tamisa. Ficou extasiado ao conhecer o local de onde saiu o primeiro Abbott rumo ao Brasil, em 1812. O nome dele? Jonatas.

Nascido em Porto Alegre, o executivo lembra com carinho dos tempos que passava na granja do pai em Barra do Ribeiro, onde aprendeu a pescar e a caçar. No auge do Inverno, aqueciam-se com uma fogueira de casca de soja. “Lembro o pai com um casaco de couro. Ele era um gigante. Lembro a cor, o cheiro e o barulho do fogo”, recorda, sem esconder a admiração por seu mentor.

Gostos e talentos

Quando o assunto é música, a primeira resposta de Jonatas é antecedida por uma risada saudosa, seguida da revelação de que aos 17 anos participou de uma banda de rock. Guitarrista, diverte-se ao recordar daquela época. Sem talento, pois “era o pior da banda, disparado”, abandonou a função e, em seu lugar, entrou ninguém menos que Eduardo Tavares Leindecker, o Duca Leindecker, da banda Cidadão Quem. Desiludido com a carreira de músico, vendeu a guitarra e, com o dinheiro, rumou para o Rock in Rio, em 1985.

Na cabeceira, tem o livro do ex-colega da faculdade Adriano Silva, ‘O executivo sincero’. Entre as preferências literárias estão mistério e não ficção. Um livro que o marcou foi ‘Endurance – A lendária expedição de Shackleton à Antártida’, dica que pegou ao ler uma das obras do navegador Amir Klink, por quem tem forte admiração. Também se diz fã do jornalista Caco Barcellos e fascinado pela obra ‘O Abusado’. “Ele é incrível.”

Comida oriental não entra no cardápio e declara abertamente que se alimenta muito mal. “Sou grosso uma barbaridade. Não como nada da Turquia para lá, só massa, carne, arroz e feijão”, confessa. Considera-se especialista em milk-shake e garante que faz uma picanha no disco excepcional. Ao pedido para se autodefinir, um silêncio ensurdecedor tomou conta da sala. Segundos depois, veio um sonoro “p*** que pariu. Sou um apaixonado”. Para ele, as situações complicadas pelas quais passou o moldaram. “Nem eu apostava em mim. Aos 26 anos não tinha ido para lugar nenhum e tinha uma formação muito fraca. Fiz uma virada. A paixão traz a força junto.”