O dia em que conheci Jennifer Lopez (uma fantasia cinematográfica)

Outro dia, lendo o Capricho, descobri que a mãe da Jennifer Lopez se chamaria Rita Rios Y Rios. Foi aí que me lembrei do dia em que conheci a Jennifer.

Em 1986, estava no Festival de Cinema Publicitário de Cannes com tudo pago pela MPM. O Heitor Kraemer dava as passagens para uma dupla de criação, as inscrições no festival, hotel, dois mil dólares no bolso de cada um e não pedia nota de nada. Bons tempos aqueles. O Roberto Callage lembra bem.

Assim estava eu, posto um figurão, no Palácio dos Festivais, quando começo a me sentir incomodado com o olhar fixo de um sujeito. Só me faltava essa: cheio de mulheres lindas em volta e quem me olha é um careca baixinho com uma camisa havaiana e óculos escuros de piloto de kart. E não é que o cara vem em minha direção.

- Excuse-moi e blá-blá-blá

O cara disse que se chamava Armand Dubois, não era gay e sim um produtor de filmes, que estava acertando uma coprodução franco-americana sobre a intervenção napoleônica no México e quando me vira na plateia tivera a absoluta certeza que eu era a cara de um general do Napoleão e  me convidou para participar do filme.

Eram cinco mil dólares na mão e uma semana por conta na Califórnia, porque os mexicanos detestaram roteiro e não autorizaram as filmagens no país.

Uma semana depois, lá estava eu dando uma de ator. Aliás, ator de uma cena só porque houve uma grande briga envolvendo a atriz Katty Jurado, o diretor e o produtor. A filmagem foi suspensa e até hoje não vi os cinco mil dólares.

Mas essa é uma história que posso contar outra vez. O que interessa é a tal cena que eu filmei.

O roteiro, pelo que consegui entender, era um típico dramalhão mexicano. O general francês tinha tido um romance com uma mexicana do qual nascera uma filha. Seis anos depois, ele voltava ao México com sua esposa legítima e não queria reconhecer a filha bastarda. Confiante que ele se renderia aos encantos da menina, a mexicana levara a filha ao acampamento do general, mas ele dava uma de durão e nem sequer levantava os olhos do mapa de campanha que estava examinando.

O diretor imagina arrancar lágrimas das donas de casa do mundo inteiro com a cena. Em slow motion, a menina corria de braços abertos para o general, gritando "Mi Padre, Mi Padre". Ele, ou eu no papel dele, fechava o mapa, se levantava num gesto marcial e, insensível, virava as costas. A menina, ainda com os braços abertos, parava junto à mesa. A câmera avançava num zoon, fechando no seu rosto, enquanto uma lágrima furtiva, como todas as lágrimas no cinema, começava a correr pelo seu rosto.

Lindo, não? O Hélio Nascimento e o Milton Ribeiro iam adorar.

Agora, uma explicação para justificar o título dessa história. A menina era a Jennifer Lopez. Como eu sei? Simples, caro Watson. É que ela era sempre levada ao set de filmagem por uma porto-riquenha, mulata, gorda e muito simpática com um nome inesquecível: Rita Rios Y Rios. 

Eu contei essa história outro dia no Natalício, numa roda em que estavam a Ingrid, o Pintaúde, o Edgar e o garçom, conhecido como Pantaleão, e nenhum deles acreditou. A Ingrid, porque é uma cética, o Pintaúde, porque estava distraído olhando uma ninfeta, o Edgar, por pura inveja, e o garçom, porque estava preocupado em saber quem pagaria a conta.

Autor
Formado em História pela Ufrgs, foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação, nas universidades PUC e Unisinos. É autor dos livros "Raul", "Crime na Madrugada", "De Quatro", "Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda" e "Tudo Começou em 1964", que tem formato de ebook.

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