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A era inacabada

Cauê Vieira O mundo moderno é digital. A conexão entre tudo e todos também se dá pelo meio digital. O ensino se multiplica à …

Cauê Vieira

O mundo moderno é digital. A conexão entre tudo e todos também se dá pelo meio digital. O ensino se multiplica à distância, pelos meios digitais. Os processos administrativos e judiciais, de forma crescente, são digitais. O entretenimento não é mais analógico, ele é digital. As compras e contratações de serviços são massivamente feitas por meios digitais. Para reclamar em órgãos públicos, o melhor caminho é digital. A internet, neste contexto, não é mais uma facilidade, é um veículo de conexão global cada vez mais essencial. Causa, então, profundo espanto a recente declaração feita em entrevista coletiva pela Direção da Agência Nacional de Telecomunicações – Anatel – de que a “era da internet ilimitada acabou”. Este tipo de declaração, vinda justamente da agência reguladora federal que deveria garantir a infra estrutura necessária para a universalização do serviços de internet aos brasileiros, não pode ser admitida pelos consumidores.

A popularização das modernas ferramentas de conexão e de entretenimento, tidas como justificativa para a alegada sobrecarga de rede e razão da mudança de metodologia de cobrança da banda larga fixa anunciada pelas empresas do setor, não pode de maneira alguma ser entendida como causa.  Cair no gosto popular é consequência! Os serviços de streaming, tão populares hoje, somente se consolidaram pelo engessamento dos planos de serviços de entretenimento por assinatura tradicionalmente comercializados, a preços exorbitantes diga-se, no Brasil. É inadmissível ao cidadão que se declare o fim da era da sustentabilidade, que substitui toneladas de papel Brasil afora por processos eletrônicos; inviável declarar o fim das reuniões por vídeo conferência, que economiza tempo, dinheiro e recursos naturais de milhares e milhares de cidadãos; impensável declarar o fim dos cursos EAD, oportunidade única de formação profissional e acadêmica de milhares de brasileiros; inaceitável declarar o fim do direito de escolha por meios modernos de entretenimento, ainda mais quando tal declaração se dá em nome da manutenção do interesse econômico de poucos. A modernidade exige dos gestores públicos a necessária criatividade para a apresentação de novas soluções.

Regular verdadeiramente o setor significa direcionar as empresas para o empreendedorismo real, que tenha por objetivo garantir ao consumidor a qualificada prestação do serviço em larga escala. Limitar o acesso às redes pela incapacidade de as ampliar significa homenagear a incompetência de gestão das empresa do setor, aceitando a falta de investimento, desconsiderando as significativas cifras dos lucros auferidos pelos caríssimos serviços hoje prestados à coletividade. A compreensão do que motiva os movimentos econômicos e administrativos é característica do consumidor moderno, talvez justamente pela facilidade de conexão e de informação oriunda da internet. Não considerar o poder de mobilização dos consumidores e deles retirar o poder de escolha não só é errado, é também estupidez.

A era que precisa acabar é a do desrespeito ao consumidor. A era que acabou é a do amadorismo.

Cauê Vieira é diretor executivo do Procon Porto Alegre.

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