Por estas bandas, pouco se fala e muito menos se pratica o que se conhece por media literacy, ou alfabetização midiática. A prática consiste em educar as pessoas para a produção e consumo de conteúdo em qualquer meio. O objetivo é preparar o público para a influência da mídia e desenvolver nos cidadãos uma postura crítica e ativa, que faz com que as pessoas consigam, além de criar, acessar e avaliar o conteúdo que consomem.
A alfabetização midiática nada mais é, portanto, que desenvolver a habilidade de identificar diferentes tipos de mídia – ou meios – e de compreender a mensagem que eles estão passando. Parece simples, né? Mas não é. E a forma como a desinformação tem corroído grupos de WhatsApp por aí é prova disso. Mentiras são compartilhadas todos os dias, o tempo todo. E esse compartilhamento é feito por milhares de pessoas. Adolescentes, adultos, jovens senhoras e nem tão jovens senhores que em grande parte foram expostos à educação formal. Até jornalistas caem no conto de uma Fake News que corrobore suas ideias. Esse compartilhamento é feito por pessoas que foram alfabetizadas e sabem ler e escrever, mas não foram treinadas para consumir o que a mídia dispõe.
A questão é que até os mais ávidos consumidores de textos, vídeos, podcasts, programas de rádio, de televisão, memes, publicidade e tudo o mais, ignoram algo muito simples: independente do meio, alguém criou aquele conteúdo – e o fez por uma razão. Compreender essa razão é a base da alfabetização midiática, que ensina as pessoas a pensarem de forma crítica; a se tornarem consumidores mais espertos de produto e informação; reconhecer a perspectiva, ou ponto de vista, sob a qual aquele conteúdo foi criado; a gerar responsabilidade no sentido de compreender que o que dissemos e escrevemos tem impacto; e a identificar o papel da mídia na nossa cultura.
A alfabetização midiática já é ensinada às crianças nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Isso não impede a proliferação da desinformação, mas diminui o problema a partir do momento em que o consumo passa a ser consciente e a dinâmica deixa de ser unilateral. Enquanto isso, o brasileiro não é alfabetizado para a mídia. O que não significa que sejamos causa perdida. Enquanto essa prática não é formalizada por estas bandas, sugiro incluir o tema na nossa rotina com perguntas simples que podem ser aplicadas a qualquer conteúdo: quem criou esse conteúdo? Por que criaram esse conteúdo? Para quem é essa mensagem? O que foi deixado de fora? Como eu me sinto diante disso?
Parece bobo e pueril, especialmente para jornalistas treinados, mas são perguntas que podem ajudar às pessoas menos habituadas à rotina de checagem. Inclusive crianças e adolescentes. Sem contar que desenvolver o hábito de consumir conteúdo de forma racional pode causar um impacto importante na hora de não se deixar levar por uma mentira apenas porque ela parece mais interessante que a verdade.

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