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O Natal não é mais tão legal

Por Letícia Baptista de Castro, para Coletiva.net

Não acho isso de verdade, porque ainda é uma época de reunir a família, rir e ver o brilho nos olhos das crianças que renovam nossa energia ano após ano. Mas não consigo deixar de lado a dicotomia que essa data causa em quem, por ofício, precisa pensar nela comercialmente, e no dia 24 espera ansiosa pela abertura dos presentes. 

Antigamente, e nem digo no século passado, mas coisa de uma década atrás, o hábito mais típico dos gaúchos e gaúchas era a expectativa pelo filme de uma grande rede de supermercados, produzido por uma das melhores produtoras do país, roteirizado por um dos melhores redatores do mercado gaúcho. Hoje, me arrisco a sentenciar, estamos condenados a acompanhar uma competição de manifestos de marcas dos mais diversos setores, os quais a indústria criativa nos obriga a engolir em sequência, enquanto aguardamos o fim da novela das sete. Acontece que, nessa corrida pela atenção de quem já está no clima de Natal, estamos nós, publicitários, tentando lançar uma cenourinha mais chamativa do que a outra, tornando todo o encantamento uma batalha sem fim de mensagens sem propósito, disfarçadas de manifesto.

“Ai, Letícia, como tu estás negativa”. Na verdade, não. Acontece que, nas últimas semanas, planejando a melhor forma de conduzir as campanhas de prestação de contas de clientes públicos, nos damos conta que, ao competir com o peru mais saboroso e a história mais emocionante, perdemos espaço para o que é de interesse social: o dinheiro público. Campanhas que demonstram onde os recursos de municípios, autarquias, conselhos e cooperativas foram investidos não têm importância alguma diante das ofertas do bom velhinho.

E foi nesse planejamento que me dei conta do quanto nos perdemos no espírito natalino, já que ignoramos, no público e no privado, o fato de que esta é a comemoração de um aniversário, de uma inspiração para o bem comum, de um reforço nos laços de amor e no desejo de igualdade para a humanidade. Seria produtivo ver o que, afinal, como sociedade, estamos construindo coletivamente na programação de rádio, de TV, na Internet ou na mídia externa, mas, mais uma vez, ficamos submersos nos descontos prometidos e nem sempre cumpridos pelas grandes redes ou em narrativas emocionantes que mascaram um espírito natalino pra lá de comoditizado. 

Continuo considerando que o Natal era mais legal quando o varejo reproduzia histórias, cuja finalidade era despertar a magia, a união das pessoas e o amor ao próximo. O Natal tinha mais sentido para empresas que construíram suas bases em cima de verdades, como não garantir o melhor preço, mas conservar a qualidade (e até isso está meio estranho ultimamente). O Natal era mais legal com o urso polar, que mesmo sem fazer o menor sentido aos sul-americanos, trazia um olhar de empatia e oferecia um refrigerante para criar laços. 

Na intenção de justificar produções cheias de efeitos de som e luz, esta pode ser mesmo uma época oportuna. Os meios estão diversificados, mas o encantamento audiovisual continua o mais eficiente na disputa de engajamento. Se não temos um produto à venda em conta de governo, então como entrar no meio dessa conversa no final de ano? Lá se vão os times de Mídia e Planejamento para rodadas de ideias em busca de uma solução para as expectativas dos clientes com um plano que leva em consideração a informação, os meios, a criação e a qualidade do que está sendo entregue aos públicos correspondentes.

Claro que uma planilha de mídia eficiente busca não apenas a distribuição de verba, mas a melhor forma de chegar ao alvo, não importa se para cliente público ou privado. Feitas as escolhas, entramos confiantes na disputa de trilhas sonoras, narrativas e filtros de luz. Com licença. Estamos passando em sua programação para trazer verdades sobre o seu dinheiro, sobre sua cidade e sobre o seu futuro. Feliz Natal. Que seja uma época muito legal de novo.  

Letícia Baptista de Castro é Planejamento e Pesquisa na Engenho de Ideias.

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