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Saiu no Coletiva

Por Ananda Müller, para Coletiva.net

Na última sexta-feira, 31, encerrei um ciclo virtuoso de cinco anos, sete meses e 29 dias junto aos microfones da Rádio Guaíba. Os leitores deste site já devem saber, é bem verdade, visto que a despedida foi anunciada por aqui. Na ocasião do contato, através da nossa querida Gabriela, elenquei um projeto pessoal para a saída – sem mais explicações até então, visto que não sabia exatamente como contar a mudança em uma frase. 

Acho que ainda não sei, mas vamos tentar!

Quando tudo isso era um sonho, me divertia pensar na forma como iria repercutir no nosso meio. Admito, sou dessa nossa raça medonha – os jornalistas! – que, apesar de negar com veemência, não disfarçam a satisfação de ter seu nome badalado por aí. Ainda que me deixasse envaidecer por tais devaneios, tinha os dois pés no chão e sabia de minha meninice na profissão, certa de que um eventual zun-zun-zun se daria mais pelo pitoresco da troca do que pelo CPF envolvido no caso. Toda sorte, brincava com os amigos mais próximos: “Já vejo a manchete no Coletiva: ‘enlouqueceu e foi pros ares'”.

Vou confessar aqui pra vocês: quando tomei a decisão final, não sem antes divagar por meses a fio sob efeito de vários litros de etílicos & café, pensei que a resposta imediata dos convivas seria um retumbante “chama o SAMU que a mulher surtou.” Me divertia o pensamento na mesma medida em que deixava apreensiva, certa de que um meio tão orgulhoso de si como o nosso não entenderia tal guinada sem chiste e maledicência. “Alá a demente”, “não se esforçou o suficiente”, “não soube esperar”, etc, etc, etc. Pois por certo que houve tal tipo de falta de pauta no plantão da tarde, mas via de regra e por meio de quem realmente me basta a opinião, eu estava absolutamente enganada: o apoio foi incondicional.

A essa altura nosso leitor já entendeu o recado: vou trocar o jornalismo pela aviação. Deixo a reportagem e apresentação na emissora que me acompanhou desde a infância em Paraíso do Sul para desbravar os ares das Américas nos Boeings da Gol. Sim, serei a partir do próximo dia 10 uma comissária de voo.

É preciso que se diga, antes de seguirmos, que esse era um sonho de infância. Desde minha primeira oportunidade a bordo de uma aeronave, na finada Varig, soube que voar estava no meu DNA. Virou uma paixão maluca, e estar a 35 mil pés era uma satisfação única, saboreada milimetricamente a cada nova oportunidade. Chegava a ir passear no Salgado Filho só pra ver os pousos e decolagens – uma sandice que só entende quem sente.

O tempo passa e a criança deixa o sonho a fim de acordar para a vida adulta. Costuma ser assim, não é mesmo? Crescer é um grande aparador de sonhos, mas faz parte do processo evolutivo humano – nem todos nascemos sob a árvore da fartura, e urge seguir atrás do sustento. Naquele tempo e naquela realidade, estudar era a arma que tinha em mãos.

Vocação pra ganhar dinheiro, é bem verdade, nunca tive: cursei História e Jornalismo. Essas graduações (uma ainda incompleta), contudo, me deram a maior fortuna que se pode acumular: conhecimento. E esse, meus amigos, ah!, é a chave para se manter em pé nos tempos amargos.

Fui levada ao magistério e à comunicação desejo inocente de mudar o mundo (spoiler: é osso!). No início, via-o de um modo; anos depois, de outro. Hoje, de forma totalmente diversa. Moldei quem sou e fui dentro do universo dos livros, do saber, do ouvir e aprender. Nenhuma pepita de ouro no mundo vale essa fortuna, e não a trocaria por nada.

Fato é que não se foge do próprio destino.

Também é preciso que se relembre que o jornalismo sabe ser ingrato com quem lhe ama. Tive o prazer de passar os últimos anos ao lado de pessoas muito bacanas e de um gestor fantástico (oi, Nando Gross), mas nem sempre se tem essa sorte. Enquanto esses elementos nos seguram no meio, quase que única e exclusivamente “por amor à causa”, a realidade é de salários absurdamente baixos, redações enxugadas ao extremo, rotinas desgastantes, patrulhamento ideológico e esse rosário todo que eu sei que vocês bem conhecem. A gente tenta correr por fora, mas cansa. Oh, se cansa!

No meio de tudo isso, o momento político pelo qual passamos também não ajuda em nada, muito antes fomenta e endossa esse sucateamento da profissão. Haja saúde, haja vontade e haja malabarismo financeiro. Tem uma hora que se chega no limite e é preciso fazer escolhas, por mais difíceis que sejam. 

Eu cheguei nesse ponto, e não me envergonho. Não estou pulando do barco com os ratos, estou apenas tentando viver – e esse me parece um desejo justo. E cá estou eu redigindo essas linhas com o coração em paz.

Vou tranquila, com o carinho das centenas de mensagens que recebi de ouvintes e seguidores nas redes sociais. Um carinho violento, que endossa a certeza de uma jornada bem trilhada. Vou com o abraço dos amigos da Caldas Jr. Vou com o brilho nos olhos dos meus avós, para quem voar ainda é arte misteriosa. Vou com o amor do meu parceiro, que entende ser necessário esse distanciamento momentâneo. E sigo, principalmente, com a consciência tranquila de quem fez o seu melhor até aqui.

Esse não é um adeus. Esse é um até breve. Quem sabe um dia não sai no Coletiva de novo?

Ananda Müller é jornalista, radialista e comissária de voo.

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