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Nós, jornalistas mulheres

Por Geórgia Santos, para Coletiva.net

Todas as jornalistas conhecem o antigo estereótipo construído em uma sociedade machista que insiste em diminuir o trabalho de uma mulher: que nós trocamos sexo por informação. Algumas até tiveram a felicidade de atravessar a carreira sem ouvir alguma insinuação pejorativa a respeito de suas competências. Mas se alguma nunca tinha ouvido uma história concreta em torno desse tipo de acusação, isso acabou na última semana. Em depoimento prestado na última terça-feira, 11, à CPMI das Fake News no Congresso Nacional, Hans River insultou a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. Ele é ex-funcionário da Yacows, uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp que atuou nas eleições de 2018. 

Naquele ano, Patrícia fez uma reportagem que mostrou que uma rede de empresas recorreu a uma fraude para registrar celulares e conseguir os disparos de lotes de mensagens para beneficiar certos políticos. A matéria foi produzida com base em documentos da Justiça do Trabalho e em relatos de Hans. Agora, ele recuou e disse que não colaborou com a repórter. Mais do que isso, ele insinuou que a jornalista ofereceu sexo em troca das informações. 

Todas as jornalistas conhecem o antigo estereótipo de que trocamos sexo por informação, mas o senhor Hans River institucionalizou o insulto. Mais do que isso, o fez com o aval de boa parte da classe política brasileira. Inclusive pelo filho do presidente da República, que não mediu esforços ao difundir as ofensas contra a repórter. “Eu não duvido que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente”, afirmou Eduardo Bolsonaro no Twitter. Ela ainda foi paciente e mostrou as evidências e as conversas que sustentaram a reportagem. Não foi suficiente. Estava armado o circo torpe e cruel. 

O ataque a Patrícia é um ataque às mulheres, ao jornalismo profissional, à civilidade, à democracia. E não pode ser tolerado. Não será tolerado. Por isso, milhares de jornalistas assinaram um manifesto que é em defesa da repórter da Folha, sim, mas que é uma defesa também ao exercício da profissão que também vem sendo constantemente agredida. 

“Nós, jornalistas abaixo assinadas, repudiamos os ataques sórdidos e mentirosos proferidos em depoimento à CPMI das Fake News por Hans River, ex-funcionário da empresa Yacows, especializada em disparos em massa de mensagens de Whatsapp, à jornalista da Folha de S.Paulo Patrícia Campos Mello.

Sem apresentar qualquer prova ou mesmo evidência, o depoente acusou a repórter, uma das mais sérias e premiadas do Brasil, de se valer de tentativas de seduzi-lo para obter informações e forjar publicações.

É inaceitável que essas mentiras ganhem espaço em uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tem justamente como escopo investigar o uso das redes sociais e dos serviços de mensagens como Whatsapp para disseminar fake news. 

Nós, jornalistas e mulheres de diferentes veículos, repudiamos com veemência este ataque que não é só a Patrícia Campos Mello, mas a todas as mulheres e ao nosso direito de trabalhar e informar. Não vamos admitir que se tente calar vozes femininas disseminando mentiras e propagando antigos e odiosos estigmas de cunho machista.

Em defesa do jornalismo profissional e da democracia.”

(https://docs.google.com/document/d/e/2PACX-1vQtHSGfZv_TBT4OzMktNTOHJHHw9BaHSZcGyn3A8wtJ-mNngJ6nBFgdKm0N7zPAkjA4nLwMxSFPMzVg/pub)

Nós, jornalistas mulheres, estamos juntas. Nós, jornalistas mulheres, não ficaremos caladas. 

Geórgia Santos é fundadora e editora-chefe do portal Vós.

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