Perfil

Sérgio Jaeger: Um impermanente apaixonado

Amante da Comunicação, ele viu a vida tomar um rumo quando o pai não lhe deu o dinheiro para sair com a primeira namorada

Era a Lola. Era o primeiro convite para ir a uma boate, depois daquele encontro em que o adolescente, com então 13 anos de idade, viu a mesada desaparecer no caixa da sorveteria. Mas era a Lola, a mais bonita do clube da cidade de Santa Cruz do Sul. E porque era ela, o menino achou que o pai entenderia a necessidade de um adiantamento da mesada. Mas houve uma recusa. E isso mudou toda a trajetória de Sérgio Jaeger Júnior, um homem apaixonado pela Comunicação, pelas mulheres e pela impermanência da vida. 

A Lola e o que poderia ser desta história findaram-se no mesmo final de semana que faria a estreia em uma balada. Mas, na segunda-feira, a labuta começou. Ele recorreu a um advogado, primo de sua mãe, o Juarez, que lhe ofereceu o primeiro emprego, o primeiro salário e a certeza de que nunca mais deixaria de trabalhar. Meta que persiste, 48 anos depois. 

Nada é muito permanente na vida de Sérgio, a começar pelas dezenas de cidades que morou no interior do Rio Grande do Sul, em razão da ocupação do pai, Sérgio Melo Jaeger, funcionário público estadual. A mãe, Geruza Jaeger, era professora até se aposentar depois do nascimento da quarta filha. Nas lembranças do irmão, ainda paira o quarto pecado capital: a inveja por conta do problema de Deise, que nasceu com alergia ao leite. É que, em 1967, a família precisava importar dos Estados Unidos o leite de soja trazido em voos da Varig.

“Era uma família muito unida, mudávamos muito de cidade, a cada dois anos. Meus amigos eram os meus irmãos”, recorda. O quinteto era formado por ele, o primogênito, seguido por Denise, André, Deise e Eduardo. Só um ponto era fixo para a família: a casa de veraneio em Xangri-lá. Essa situação mudou quando Sérgio entrou para o ensino médio e fixou residência em Porto Alegre. Na vida escolar, a andança não foi diferente, já que, assim que entrou para o colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, foi expulso ao envolver-se com política estudantil, algo ainda atípico naquele tempo – e teve que terminar o ano letivo em outra instituição de ensino.

Um cara de sorte

Dona Geruza costumava dizer que o filho mais velho era uma pessoa de sorte, por ter nascido em 23 de julho de 1961, em um domingo. Segundo a astrologia, pessoas que nascem nesse dia são consideradas sortudas. Ideia refutada pelo filho: “Não acredito nem em Deus, vou acreditar em explicações dos planetas?”, questiona o bem-humorado ateu. Com sorte ou não, aos 17 anos passou em sétimo lugar em Direito na PUCRS, muito por influência do pai. Gostava muito das aulas, até a área tributária cruzar seu caminho. Mas não foram só os desgostos que o fizeram companhia. As consequências do episódio Lola – de ter o seu próprio dinheiro – o acompanhavam e, aos 18 anos, saiu de casa.

Àquela altura, Sérgio já trabalhava com carteira assinada havia quatro anos. Tinha muitos amigos no meio artístico e foi dessa forma que se deu o primeiro contato com o meio publicitário, conhecendo figuras como Edgar Ferreti, Enio Lindenbaum, Laerte Martins, Luis Eduardo Crescente e Michele Caetano. Para entrar no curso de Publicidade e Propaganda da PUC, foi um passo: “Dei carona a uma namorada que ia cursar PP, quis saber mais sobre o curso e me apaixonei. Pelas aulas e pela professora”, recorda, ao citar o posterior relacionamento de quatro anos que teve com Maria José Lanziotti Barreras, apelidada de Zezé.

Assim como o romance, o curso também acabou, mas antes do fim. Em 1990, recebeu convite para morar e trabalhar em Portugal e embarcou para um momento especial na carreira. Era diretor de Produção de um estúdio responsável pela prevenção rodoviária portuguesa. As gravações eram nas estradas e, por isso, conheceu todo o país. Ficou fora do Brasil por um ano e, ao voltar, reencontrou o amigo Enio Lindenbaum, com quem passou a trabalhar. Foi nesta época que se encantou com a Política. Por conta de antigas relações e contatos com André Foster e Glênio Peres, ele foi procurado por Onyx Lorenzoni, de quem coordenou campanhas e ficou amigo. 

O dono de casa 

As horas vagas não costumam ter espaço na agenda desse trabalhador inveterado. Mas é entre o fogo e as panelas que ele encontra um respiro. E o espaço preferido para exercitar o hobby é a casa de praia em Rainha do Mar, onde colhe os ingredientes frescos na horta: “Gosto de cuidar da casa, plantar temperos, cuidar do jardim. Eu curto ser dono de casa”, esclarece. Suas especialidades são moqueca, filé Wellington, molhos, risotos, massas, pães e bolos. Mas, atualmente, tem se dedicado ao frango, proteína favorita da atual namorada. 

Depois de algumas desventuras da vida, Sérgio opta por um estilo mais simples e prático. Muito dessa filosofia foi absorvido em um curso que participou, no início dos anos 2000, com o líder budista Chagdud Tulku Rinpoche. “Ele me falou sobre a impermanência. Tudo muda o tempo todo. E disse para eu viver da melhor maneira possível, praticar o bem e ajudar aos outros. É isso que a gente precisa”, afirma.  

Sérgio fez um curso na Alemanha sobre gestão de campanhas políticas. Voltou com mais conhecimento – aplicado nos anos seguintes, quando se mudou para Brasília ao assumir a coordenação da bancada do Democratas no Congresso Nacional – e com uma namorada russa. Desta relação, nasceu o filho André Sergeiovich Jaeger, que hoje tem 19 anos (o nome do meio, inclusive, significa ‘filho de Sérgio). No entanto, a política, que já foi uma paixão, hoje cada vez menos o encanta. “Atualmente, há poucos políticos com quem aceitaria trabalhar, outros não toparia de jeito nenhum e há aqueles com quem adoraria trabalhar”, resume. 

Ele fala com a maturidade de quem está no mercado da Comunicação há mais de 40 anos. Sérgio ainda lembra das longas jornadas de trabalho, quando passava 36 horas filmando, pois levou algum tempo para conquistar o respeito das pessoas. “Acho que soube agarrar as chances e cavar minhas trincheiras quando precisei. Foi por necessidade que escrevi roteiro, produzi e dirigi. Não tinha quem fizesse por mim”, orgulha-se, ao recordar que toda essa gana de vencer teve origem no episódio da Lola. A primeira ‘namoradinha’, aliás, é sua amiga até hoje.  

Saudade que aperta, mas ensina

Ao longo da entrevista, realizada na empresa Medialine, onde Sérgio trabalha como diretor de Planejamento Criativo, ele cita diversas vezes o publicitário Enio, que faleceu no início do ano passado, em decorrência do diabetes e de infarto. Mas é ao falar sobre os ensinamentos do amigo que Sérgio não contém as lágrimas: “Ia visitá-lo no hospital e, ao invés de eu levantar o seu astral, era ele quem me animava. Enio me ensinou muitas coisas, inclusive, sobre a empatia”, revela. Partiu do fiel escudeiro uma crítica que o deixou sem respirar, quando Enio o chamou de soberbo, o segundo pecado capital. “Hoje, eu convivo melhor com minha soberba e devo muito isso a ele”, garante. Em contrapartida, Sérgio acredita que sua maior qualidade é ser generoso.  

Quando o assunto é arte, conta que é apreciador de livros. No momento, está lendo a biografia de Mujica. Relatos de vida, inclusive, estão no rol dos títulos preferidos, ao lado de temas como História e Culinária. Já no quesito Sétima Arte, é bastante eclético, e a pergunta sobre cinema o faz lembrar um elogio inesquecível que fazia referência ao filme protagonizado por Jack Nicholson em ‘Melhor Impossível’, quando este diz à personagem de Diane Keaton: “Você me faz querer ser uma pessoa melhor”. 

Para Sérgio, quem trabalha com Comunicação tem a missão de “influenciar as pessoas para o bem”. Por isso, o que mais lhe deu prazer foi trabalhar com assuntos que interferiam no coletivo: na divulgação da campanha do Zé Gotinha – ele foi o responsável por divulgar no Rio Grande do Sul o início da vacinação do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1986 –aa,  a segurança no trânsito e mensagens de conscientização sobre o risco de contrair HIV. “Quando esclareço um consumidor sobre a vantagem de uma determinada coisa em detrimento de outra, que ele pode consumir, economizar e melhorar a vida de alguma forma, é complexo. Não é só emitir, é a escolha do meio”, comenta, citando Mcluhan, por quem se diz apaixonado.

É movido pela paixão que Sérgio faz planos para o futuro. Não se imagina aposentado, deseja seguir trabalhando, mas de maneira mais saudável, de preferência na casa da praia, onde fará pausas para andar de bicicleta ou caminhar, cozinhar, e voltar ao trabalho. Quer poder criar, conceituar e “deixar a gurizada desenvolver seus projetos e criações”.

Autor

Márcia Dihl

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