
A promessa de automação deixou de ser exclusividade das áreas técnicas e passou a redesenhar o próprio papel do Marketing e da Comunicação dentro das empresas. Com plataformas low-code e no-code, profissionais dessas áreas não apenas operam ferramentas, mas constroem fluxos, integrações, dashboards e experiências digitais em ritmo acelerado. O impacto vai além da eficiência operacional: muda a relação com a tecnologia, com o TI e com a tomada de decisão baseada em dados.
De forma objetiva, plataformas no-code permitem a criação de aplicações, automações e experiências digitais sem a necessidade de escrever código-fonte. Tudo acontece de maneira visual, por meio de blocos, templates e configurações em interfaces de “arrasta e solta”. Já as plataformas low-code seguem a mesma lógica, mas exigem algum conhecimento técnico para ir além do básico, como criar scripts, integrar Interfaces de Programação de Aplicações (APIs) ou realizar customizações mais profundas.
Essa diferença, embora conceitual, define o grau de autonomia e sofisticação das soluções criadas. Enquanto o no-code viabiliza rapidez e simplicidade, o low-code amplia o leque de possibilidades para projetos que demandam mais flexibilidade técnica, sem exigir uma equipe de desenvolvimento dedicada desde o início.
Da dependência do TI à autonomia operacional
Rodrigo Neves, presidente da Associação Nacional do Mercado e Indústria Digital (AnaMid), CEO e fundador da VitaminaWeb, destacou que, historicamente, qualquer iniciativa tecnológica no Marketing – da criação de uma landing page à integração de dados – passava obrigatoriamente pelo TI ou por fornecedores externos. Isso criava gargalos em áreas que precisam de velocidade, testes constantes e ajustes em tempo real. Com o avanço do low-code e do no-code, essa lógica começa a mudar.
Hoje, equipes de Marketing conseguem criar campanhas em tempo real, testar hipóteses rapidamente, estruturar dashboards de acompanhamento e automatizar jornadas sem depender integralmente do TI. “Todo mundo tem uma pressão cada vez maior pelo Retorno Sobre Investimento (ROI), então quanto mais agilidade, mais economia. Podemos colocar no ar algo bom, feito por uma plataforma low-code ou no-code, e depois avançar para algo mais robusto que vá precisar de uma equipe mais capacitada.”, pontuou.
Marketing como builder
Essa mudança também reposiciona o papel do Marketing dentro das organizações: a área deixa de ser apenas usuária de tecnologia e passa a atuar como construtora de soluções leves, voltadas à experimentação e à validação de ideias. Nesse contexto, defendeu Rodrigo, o TI assume uma função mais estratégica, focada em arquitetura, segurança, integração e governança. Em vez de executar todas as demandas, o TI passa a definir padrões, homologar ferramentas e garantir que as soluções criadas estejam alinhadas a requisitos de compliance, de segurança e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Até porque a autonomia trazida pelo low-code e no-code não elimina a necessidade de governança. Pelo contrário: quanto mais pessoas constroem soluções, maior a importância de uma cultura sólida de proteção de dados. A LGPD não é uma responsabilidade exclusiva do TI, mas de toda a organização. “Mesmo que o TI proteja a parte tecnológica, se o usuário anota seu login e senha em um post-it e deixa colado no computador, já criou uma brecha de segurança”, afirmou.
Ainda assim, acima de tudo, Rodrigo considera importante ter uma boa delimitação de quando o Marketing agirá e de quando o TI precisará entrar em cena. “Se é uma solução que não vai impactar as partes financeira e contábil, não vai virar risco jurídico ou mexer com nenhum sistema crítico que poderá expor as informações da empresa, eu acho que o Marketing pode ter mais flexibilidade. Agora, quando falamos de algo que pode ter mais impacto da porta pra dentro, as duas áreas precisam trabalhar juntas”, frisou.
Até a página dois
Embora resolvam problemas cotidianos com eficiência, plataformas low-code e no-code têm limitações claras. Uma delas, argumentou Rodrigo, está no custo. Muitas soluções são acessíveis no início, mas escalam rapidamente à medida que recursos avançados passam a ser necessários. O salto de investimento raramente é linear e pode multiplicar o custo inicial em poucos meses.
Ainda assim, esse modelo funciona bem para testar hipóteses e entender a viabilidade de um projeto antes de investir em soluções mais robustas. O risco está em confundir protótipo com solução definitiva sem avaliar impactos de longo prazo.
Outro limite está na diferenciação. “Embora dê para customizar muitas coisas, se você vai fazer um site na plataforma A, que é a mesma que o seu concorrente e todo mundo está usando, o que vai te diferenciar perante ao usuário final?”, provocou. Nesse cenário, o que resta, muitas vezes, é competir por preço, design ou estratégia comercial.
A vantagem surge quando essas plataformas são combinadas a integrações, customizações ou lógicas próprias de negócio. Nesse ponto, o low-code se mostra mais estratégico do que o no-code puro, pois permite acoplar inteligência proprietária às soluções, criando experiências e funcionalidades que não estão disponíveis “de prateleira”.
As novas habilidades exigidas da Comunicação
Para tirar proveito real dessas plataformas, profissionais de Marketing e Comunicação precisam desenvolver novas competências. De acordo com Rodrigo, a principal delas é a capacidade de operar dados: entender o que entra, como é processado e o que sai de cada automação ou fluxo. Também ganha importância a lógica de programação. Não se trata de aprender a programar profundamente, mas de compreender como os sistemas pensam, como as decisões condicionais funcionam e como os fluxos se conectam.
Além da técnica, Rodrigo afirmou que há uma mudança de mentalidade. Compreender ciclos de desenvolvimento, a lógica de MVP e a importância de testar antes de escalar passa a ser parte do repertório do comunicador. “Por último, não tem como você não pensar no uso da Inteligência Artificial. Então tudo o que você for fazer hoje, você precisa inserir a IA no contexto, seja para estar no processo, seja para produzir aquilo que eu quero, ou seja para analisar”, recomendou.
O avanço do low-code e do no-code sinaliza uma transformação mais profunda. Ao assumir um papel mais ativo na construção de soluções, o Marketing ganha agilidade, protagonismo e capacidade estratégica. Mais do que substituir o TI, essas plataformas reposicionam a colaboração entre áreas e reforçam a ideia de que em um mercado orientado por dados, velocidade e experimentação, entender tecnologia é parte essencial da prática comunicacional.
Alavancar essas tecnologias é fundamental para otimizar operações e potencializar o crescimento de negócios a longo prazo. Por isso, o cenário de tecnologia para Marketing conta com um espaço dedicado neste portal. Acompanhe na editoria ColetivaTech.


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