Existe uma guerra acontecendo nas redes sociais que, sinceramente, faz cada vez menos sentido. De um lado, produtores de conteúdo do YouTube comemorando números gigantescos de audiência e engajamento. Do outro, profissionais de rádio e televisão tentando provar que os veículos estabelecidos ainda têm muito mais alcance. O problema é que, no fim das contas, quase ninguém está comparando a mesma coisa.
Quando alguém mostra os números de uma transmissão esportiva no YouTube e compara com a audiência de uma emissora de rádio, normalmente está olhando apenas para quem consome aquele conteúdo online. Só que rádio não vive só da internet. Existe uma quantidade enorme de pessoas ouvindo no carro, no radinho da cozinha, no aparelho da oficina, no comércio, no celular via FM ou até em sistemas internos de som. Essa audiência simplesmente não entra na conta quando a comparação é feita apenas olhando para views, simultâneos ou métricas digitais.
Na televisão acontece exatamente a mesma distorção. Vejo jornalistas de TV aberta e fechada publicando gráficos para provar que a audiência da televisão ainda é muito superior à do YouTube. Mas esses números, muitas vezes, levam em consideração apenas televisores conectados ou sistemas específicos de medição. Eles, jornalistas, ignoram completamente o fato de que o YouTube é uma plataforma espalhada em múltiplas telas. Uma enorme parcela do consumo acontece no trânsito (transporte público ou particular), na academia ou em momentos de lazer, no celular, no notebook, no tablet e em dispositivos que sequer entram nessa comparação. Pois é, hoje, boa parte do conteúdo consumido no YouTube roda no mobile, longe da TV da sala.
Ou seja: não existe uma régua única. Não existe um painel universal capaz de medir, ao mesmo tempo, quem está no rádio pelo dial, na TV linear, no streaming, no celular, no computador e nas plataformas digitais. Por enquanto, cada mídia mede um pedaço diferente do comportamento do público. (Isso vai mudar, podem apostar e não vai demorar muito). E aí nasce uma disputa quase infantil, em que cada lado escolhe o dado que mais lhe favorece para tentar provar superioridade.
O resultado é uma comparação completamente torta. É como tentar decidir qual fruta é melhor colocando limões de um lado e laranjas do outro, sem perceber que cada uma tem características diferentes. O rádio continua forte. A televisão continua relevante e evoluindo. O YouTube cresce de forma impressionante. E todas essas plataformas convivem dentro de um mesmo ecossistema de atenção fragmentada.
Talvez a discussão mais inteligente não seja “quem vence”, mas entender como as pessoas consomem conteúdo hoje. Porque o público já não pertence a uma única tela, a um único formato ou a uma única plataforma. Ele transita entre todas elas ao mesmo tempo.
E talvez seja justamente aí que muita gente esteja errando. Enquanto uma parte do mercado perde tempo brigando por números, gráficos e métricas que não conversam entre si, o público continua escolhendo assistir aquilo que considera relevante, interessante ou útil. No fim do dia, audiência não nasce de discussão sobre plataforma. Audiência nasce de conteúdo.
E aí vai um conselho de quem estuda YouTube há bastante tempo: foque no seu conteúdo. Trabalhe no seu conteúdo. Pense no seu conteúdo. A audiência sempre será consequência dele. E mais: um conteúdo bem feito nem sempre depende de números gigantescos para ser financeiramente viável. Eu conheço canais extremamente nichados, com audiências pequenas se comparadas aos grandes players da internet, mas que produzem um material tão relevante para o seu público que acumulam patrocinadores, parceiros e anunciantes interessados exatamente naquela comunidade específica.
Porque relevância vale muito mais do que vaidade numérica. Um público pequeno, mas fiel e engajado, muitas vezes vale mais do que milhões de visualizações superficiais. No fim, o conteúdo continua sendo o centro de tudo. O resto é consequência.


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