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Cidades e Andares

“Olho o mapa da cidade

Como quem examina

A anatomia de um corpo.

Um suave mistério amoroso,

A cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)”.

Mário Quintana.

 

***

Conta-se que o poeta uruguaio Eduardo Galeano ao final de seus dias continuava suas caminhadas diárias pelas ruas da velha Montevidéu. E assim descreveu suas andanças:

          “Quando caminho pela cidade onde nasci, palavras caminham dentro de mim e vão formando histórias”.

Poucos são os escritores que não se mostram nostálgicos declarados das cidades onde nasceram e onde foram crianças. Parece existir um invisível e misterioso cordão umbilical que nos une ao lugar que foi nosso berço. O irlandês James Joyce explorou intensamente este sentimento em uma das muitas frases lapidares:

“…Esta nossa jornada só vai terminar quando chegarmos onde tudo começou…”.

E poucos como ele souberam definir a alma de sua Dublin:

                            “É uma cidade que se ama mesmo sem nunca ter estado lá”.

***

A mítica Dublin joyceana em nada lembra minha cidade-berço. Mas por outra visão, Porto Alegre carrega muito em comum com a Montevidéu de Eduardo Galeano. Dizem mesmo que as duas  cidades são irmãs. Nosso cais do porto que margeia o Rio Guaiba parece replicar as ramblas que abraçam a capital oriental, só faltando a perfumada maresia oceânica. Minha Porto Alegre tem um guardião silencioso no horizonte, o Morro da Polícia que parece replicar o El Cerro, que guarda a entrada do porto de Montevidéu. Ainda, se as águas profundas do Rio de La Plata escondem um assombrado Admiral Graf Spee, a Lagoa dos Patos ostenta uma extensa história de naufrágios trágicos ou célebres como o veleiro Prince of Wales, que encalhou no Albardão em 1861, causando mortes e provocando um conflito diplomático entre a Inglaterra e o Brasil de D. Pedro II.

Cada cidade de nosso acervo sentimental possui uma rua, uma praça ou um simples recanto que reclama por nossa revisita e dispara emoções indesejadas. Porto Alegre tem sua Praça da Alfândega, um ponto cardial de encontros e desencontros, com estórias que se confundem com a própria história da cidade. 

Seus jacarandás de Novembro já foram cantados em prosa e verso. Em uma de suas alamedas cobertas de flores azuis, há  um certo banco de pedra, onde o poeta recitava versos à si mesmo, lembrando de sua distante cidade natal. Ao final da tarde, uma luz outonal acende dourados nas torres da igreja de Nossa Senhora das Dores. É quando seus sinos repicam, convidando a seguir as pegadas dos que vieram antes, a caminho de esquecidas memórias e antigas lejanias. 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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