
“Olho o mapa da cidade
Como quem examina
A anatomia de um corpo.
Um suave mistério amoroso,
A cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)”.
Mário Quintana.
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Conta-se que o poeta uruguaio Eduardo Galeano ao final de seus dias continuava suas caminhadas diárias pelas ruas da velha Montevidéu. E assim descreveu suas andanças:
“Quando caminho pela cidade onde nasci, palavras caminham dentro de mim e vão formando histórias”.
Poucos são os escritores que não se mostram nostálgicos declarados das cidades onde nasceram e onde foram crianças. Parece existir um invisível e misterioso cordão umbilical que nos une ao lugar que foi nosso berço. O irlandês James Joyce explorou intensamente este sentimento em uma das muitas frases lapidares:
“…Esta nossa jornada só vai terminar quando chegarmos onde tudo começou…”.
E poucos como ele souberam definir a alma de sua Dublin:
“É uma cidade que se ama mesmo sem nunca ter estado lá”.
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A mítica Dublin joyceana em nada lembra minha cidade-berço. Mas por outra visão, Porto Alegre carrega muito em comum com a Montevidéu de Eduardo Galeano. Dizem mesmo que as duas cidades são irmãs. Nosso cais do porto que margeia o Rio Guaiba parece replicar as ramblas que abraçam a capital oriental, só faltando a perfumada maresia oceânica. Minha Porto Alegre tem um guardião silencioso no horizonte, o Morro da Polícia que parece replicar o El Cerro, que guarda a entrada do porto de Montevidéu. Ainda, se as águas profundas do Rio de La Plata escondem um assombrado Admiral Graf Spee, a Lagoa dos Patos ostenta uma extensa história de naufrágios trágicos ou célebres como o veleiro Prince of Wales, que encalhou no Albardão em 1861, causando mortes e provocando um conflito diplomático entre a Inglaterra e o Brasil de D. Pedro II.
Cada cidade de nosso acervo sentimental possui uma rua, uma praça ou um simples recanto que reclama por nossa revisita e dispara emoções indesejadas. Porto Alegre tem sua Praça da Alfândega, um ponto cardial de encontros e desencontros, com estórias que se confundem com a própria história da cidade.
Seus jacarandás de Novembro já foram cantados em prosa e verso. Em uma de suas alamedas cobertas de flores azuis, há um certo banco de pedra, onde o poeta recitava versos à si mesmo, lembrando de sua distante cidade natal. Ao final da tarde, uma luz outonal acende dourados nas torres da igreja de Nossa Senhora das Dores. É quando seus sinos repicam, convidando a seguir as pegadas dos que vieram antes, a caminho de esquecidas memórias e antigas lejanias.
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