O jornalismo brasileiro chegou ao ponto em que uma influenciadora conhecida por dancinhas, memes, apostas e exposição da própria vida pessoal passa a ser apresentada como “repórter” de Copa do Mundo por uma das maiores emissoras do país — mesmo nunca tendo produzido uma análise esportiva relevante, uma reportagem na beira do campo ou qualquer conteúdo técnico ligado ao futebol.
Esse não é apenas um episódio constrangedor. É a prova definitiva da idiotização do jornalismo brasileiro.
Virginia Fonseca não é culpada por aceitar espaço, audiência e dinheiro. O problema está nas redações que decidiram transformar informação em entretenimento e jornalistas em meros figurantes do algoritmo. A mensagem transmitida ao país é brutal: estudar, se qualificar, aprender técnica de entrevista, apuração, ética e responsabilidade editorial vale menos do que ter milhões de seguidores.
Não sou fã do Juca Kfouri, mas ele acertou ao definir a escolha como “um acinte ao jornalismo”. Porque o que está acontecendo não é modernização da comunicação. É a substituição da competência pelo alcance digital. É a transformação do jornalismo em um grande reality show de engajamento.
E essa degradação não aconteceu por acaso.
Ela foi construída politicamente ao longo de anos. Em 2009, durante o governo Lula, o STF derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalismo no Brasil. Sob o discurso romantizado da “liberdade de expressão”, o ministro Gilmar Mendes liderou uma decisão que abriu as portas para a precarização da profissão e destruiu uma das últimas barreiras técnicas existentes dentro das redações. Foi aí que as fake news começaram a ganhar força.
O impacto foi devastador.
Empresas de comunicação passaram a trocar profissionais especializados por mão de obra barata e improvisada. O jornalista deixou de ser tratado como curador da informação e passou a ser visto apenas como produtor genérico de conteúdo. A lógica da formação foi substituída pela lógica da viralização.
Hoje, basta assistir às coletivas esportivas brasileiras para enxergar o tamanho do desastre. Perguntas constrangedoras, profissionais despreparados, influenciadores buscando cortes para redes sociais e gente sem qualquer domínio técnico ocupando espaços que antes pertenciam a jornalistas especializados.
E enquanto isso acontecia, boa parte das entidades de classe preferiram atuar como braço político-ideológico da esquerda brasileira em vez de travar uma defesa séria da profissão. Defenderam governos, fizeram militância partidária e fecharam os olhos para a destruição gradual das redações, dos salários e da exigência técnica do jornalismo.
Agora, novamente em um governo Lula, surge mais uma etapa da precarização: a criação do chamado “profissional de multimídia”, função criada para concentrar tarefas, reduzir custos e dissolver ainda mais a identidade profissional do jornalista. O recado é simples: o jornalista precisa filmar, editar, fotografar, escrever, apresentar e publicar — tudo por menos e sem exigência de qualificação para a missão.
Virginia Fonseca não representa a causa da crise. Ela representa o símbolo máximo dela. O momento em que o jornalismo brasileiro deixou de sentir vergonha de abandonar critérios técnicos para transformar qualquer figura popular em “porta-voz da informação”.
A tragédia não é uma influenciadora participar da Copa. A tragédia é um país fazer seus jornalistas entenderem que quatro anos de faculdade, técnica, estudo e experiência valem menos que um vídeo viral no TikTok.
Se ainda existe alguma preocupação real com a credibilidade da imprensa brasileira, a solução passa obrigatoriamente pela retomada da exigência do diploma de jornalismo e pela reconstrução da valorização técnica da profissão.
Giovani Gafforelli é jornalista político e assessor de Comunicação da Bancada do NOVO na Câmara de Porto Alegre.


3 Comments
Giovanni,
Parabéns pelo texto. Ele é pontual e reflete a CRISE que vive o jornalismo brasileiro. Basta assistir um dia de GloboNews para entender o caos. A redeção consumida pela ideologia. Ninguém escapa!
Sou um velho comunicador – amassador de barro-. O tempo da informação já consumiu boa parte dos meus 70. Porém, te questiono: Você não acha que esse discurso do “diploma” foi engolido pelos fatos?
Não existe o menor espaço para reserva de marcado. Com a jornada de 5 x 2, as redações irão funcionar até sexta e vamos ler jornal de 48 horas e aguentar playlist nas rádios nos finais de semana.
A inteligência artificial com o ChatGPT e seus derivados engoliram os que pararam no tempo. Também pensei que era “analógico”. Me reinventei e estou na “Paulista” produzindo conteúdo.
Acalma teu coração…
Um abraço
Leudo Costa
Não se trata de reserva de mercado. A obrigatoriedade do diploma iria recolocar o profissional qualificado para apurar, entrevistar, entre outras coisas como curador da informação novamente. Eu sou heavyuser de IA, mas tenho método pra usar e ainda sigo editando qualquer conteúdo. A queda do diploma abriu as portas do inferno para os Influencers e para as fake news. As empresas de jornalismo compraram esse discurso para diminuir custos e para gerar like nas redes sociais. A troca do jornalista pelo influencer é como colocar um enfermeiro para construir uma ponte, um advogado para fazer uma cirurgia, o Influencer não sabe nada de apuração, são inúmeros casos de influencers que passam informações inverídicas sobre saúde, medicina, ciência, tecnologia, política e esporte. E ainda, as coletivas pós jogos são vergonhosas, são cada vez mais raras as perguntas difíceis e com coerência para os entrevistados, e cada vez mais populares perguntas que iniciam com “parabéns pela vitória” quando o clube vence.
Eu me formei após a queda do diploma, não porque achava que iria voltar a obrigatoriedade em breve. Hoje meu diploma tem um valor intangível em conhecimentos, técnica, método e etc, mas e como o mercado tem percebido o profissional que investiu tempo e dinheiro em qualificação?
Redação consumida pela ideologia. Disse tudo. Entre a influencer e o jornalista ativista sobreviverá quem tiver mais pa. Ou picareta.
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