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Entrevista coletiva do Grêmio é marcada por atrito entre dirigente e repórter

Matheus D’ávila foi confrontado pelo vice-presidente de futebol do Clube; José Alberto Andrade cobra providências

Como manda o protocolo, após a partida entre Grêmio e América, na Arena, na noite desta quinta-feira, 22, o técnico Renato Portaluppi concedeu entrevista coletiva à imprensa. Além dele, falou aos repórteres o vice-presidente de futebol, Paulo Caleffi, que se envolveu em um atrito com o jornalista Matheus D’ávila, do canal de YouTube A Dupla, e contestou o profissional. No entanto, o momento também acabou sendo marcado por um pronunciamento de José Alberto Andrade, da rádio Gaúcha, que reclamou do fato de terem torcedores presentes no local, que teriam os desrespeitado. No ar, ele cobrou providências por parte do clube. 

A reportagem de Coletiva.net entrou em contato com Matheus para entender o ocorrido. Ele disse não ter ficado surpreso, uma vez que a postura do diretor “tem sido uma estratégia de Comunicação adotada”. “Ele já tinha sido um pouco mais ríspido e emocional em outros discursos”, contou. O jornalista também lamentou o fato de Caleffi ter “fugido do tom”. “Me ofende ele ter distorcido o que falei. Eu questionei se estava faltando transparência, não afirmei. Acho que ele fez aquilo também para não responder à minha pergunta”, completou. 

No final da coletiva, Matheus perguntou ao dirigente sobre acontecimentos recentes em relação ao atacante Luis Suárez que, de acordo com notícias, teria manifestado à direção do clube o desejo de se aposentar por conta de dores no joelho. “Você passou a coletiva toda minimizando essa informação. Mas, o que mais me chamou a atenção, foram algumas declarações soltas que não faziam sentido. Você falou na semana passada que conversava com o advogado do Suarez. O Renato disse em uma entrevista a frase ‘tomara que ele siga conosco’, por quê? Agora, você diz que ‘hoje não é verdade, mas no futuro tudo pode acontecer’. Está faltando transparência? Você está tentando minimizar o fato? Como explicar essas declarações”, questionou. 

Em resposta, Caleffi confrontou o repórter: “Sei que seu trabalho é vocacionado em fazer perguntas ácidas, dar declarações e fazer adjetivações”. O dirigente ainda pontuou que “vocês têm condições de nos expor, mas nós também temos condições de expor vocês”. “Quando você diz que a diretoria não está sendo transparente com o torcedor, eu não admito. Nosso trabalho é sério”, manifestou. Logo após, o profissional afirmou que não responderia ao questionamento de D’ávila, em respeito a quem trabalhava no clube, e para que “servisse de lição”. Após terminar a explanação, o vice-presidente de futebol deixou a bancada sob aplausos de presentes na sala. 

Claque

Em relação ao que chamou de “claque”, um grupo formado por torcedores, conselheiros e membros da direção presentes, o jornalista disse ter sido algo desagradável. “Ouvimos ataques, ofensas, algumas direcionadas a mim e também a outros colegas”, disse. Ele ainda informou que não foi a primeira vez que um caso como esse aconteceu no Grêmio, mas que foi o episódio mais grave.

Ao vivo na rádio Gaúcha durante o ‘Balanço Final’, José Alberto se manifestou contra o acontecido e apoiou Matheus. “Terminou a coletiva da pior forma possível. Agora, torcedores desacatam jornalistas. Confesso que tomo isso como um desrespeito”, reportou. Ao fundo, era possível ouvir presentes dizendo coisas como “podia ter ido dormir sem essa”. 

O repórter do Grupo RBS ainda criticou a postura de Caleffi ao alegar que o dirigente deu a entrevista com o intuito de “desmerecer e desautorizar o trabalho da imprensa”. Ele também lembrou que meses atrás, o diretor entrou ao vivo na rádio “para atacar um jornalista” que tinha dado a informação de que o jogador gremista Lucas Leiva se retiraria da carreira por problemas no coração. O repórter em questão era Marco Souza, que publicou a matéria em dezembro de 2022. Em março deste ano, o ex-atleta anunciou a aposentadoria por conta de uma doença cardíaca. 

Por conta de tudo isso, o jornalista afirmou que “ou o Grêmio toma providências, ou não venho mais”. “Podemos ser contestados pelo entrevistado, mas por claque, não. Tenho 38 anos de Jornalismo, pelo menos 35 deles como setorista do time. Então, não admito esse tipo de coisa”, disse. Perguntado se faria o mesmo, Matheus confirmou que continuará presente nas coletivas e a frequentar os treinos.

Manifestações

A reportagem de Coletiva.net entrou em contato com a assessoria de Comunicação do Grupo RBS pedindo uma avaliação sobre o ocorrido e em relação ao que foi dito por José Alberto. “Repórteres e comunicadores da empresa seguirão onde a notícia está, prezando por ambientes onde possam realizar seu trabalho com segurança e respeito ao livre exercício da profissão”, dizia a nota. A assessoria de Comunicação do Grêmio também foi procurada para comentar as palavras de Caleffi e a presença de torcedores. No entanto, até o fechamento desta matéria, o portal não obteve resposta. 

Além disso, entidades ligadas ao Jornalismo foram consultadas. Em nome da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), o presidente José Nunes demonstrou “grande preocupação às pressões sobre os repórteres que cobrem as coletivas pós-jogos com a presença de não-jornalistas”. Ele também informou que a entidade articulará uma reunião com a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg) e o Grêmio para que seja “garantida a normalidade nas coletivas”. 

A Aceg, por sua vez, repudiou a postura de Caleffi em relação a Matheus. “O referido dirigente se utilizou de expressões que procuraram diminuir e desconstituir o questionamento do repórter. Além disso, em uma demonstração de falta de respeito, não respondeu à pergunta e, mais, arvorou-se o direito de que tal atitude servisse de lição ao interlocutor”, emitiu o comunicado.

Além disso, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) manifestou “descontentamento com o que vem ocorrendo na Sala de Imprensa da Arena após os jogos do Grêmio, quando da ocorrência de entrevistas coletivas”. A entidade caracterizou o ocorrido como um tipo de procedimento que pode cercear a liberdade de imprensa. “Uma vez que aplausos, vaias e comentários agressivos podem ser considerados como ferramentas de pressão e/ou intimidação”, apontou a manifestação. 

Veja a entrevista: 

Confira as notas na íntegra: 

Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg)

A Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg) repudia a postura do vice – presidente de futebol do Grêmio Foot – Ball Porto Alegrense, Paulo Calleffi, em relação ao cronista esportivo Matheus D’Ávila, por ocasião da entrevista coletiva após o jogo contra o América – MG.   

O referido dirigente utilizou-se de expressões que procuraram diminuir e desconstituir o questionamento do repórter. Além disso, numa demonstração de falta de respeito não respondeu à pergunta e, mais, arvorou-se o direito de que tal atitude servisse de lição ao interlocutor.

A Aceg reitera total apoio ao seu associado e entende que esse tipo de conduta por parte de dirigentes de um cube com a grandeza do Grêmio, não contribui para as boas relações entre as partes.

Associação Riograndense de Imprensa (ARI):

Conforme o presidente da ARI, José Nunes há uma grande preocupação em relação às pressões sobre os repórteres que cobrem as coletivas pós-jogos com a presença de não-jornalistas nesses momentos. “A ARI vai articular com a Aceg uma conversa com a direção do Grêmio para que seja garantida a normalidade nas coletivas. É necessário que seja priorizado o respeito entre as partes e assegurando o livre exercício profissional da imprensa devidamente credenciada”, defende  Nunes.

Grupo RBS:

O Grupo RBS mantém seu compromisso com o jornalismo profissional, plural e isento. Repórteres e comunicadores da empresa seguirão onde a notícia está, prezando por ambientes onde possam realizar seu trabalho com segurança e respeito ao livre exercício da profissão.

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors):

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS – SindJoRS vem a público manifestar seu descontentamento com o que vem ocorrendo na Sala de Imprensa da Arena, após os jogos do Grêmio, quando da ocorrência de entrevistas coletivas. 

Entendemos que os conselheiros do Clube e torcedores mereçam consideração da diretoria do Grêmio Football Porto Alegrense, mas alertamos que a presença de pessoas alheias aos escalados para entrevistas e profissionais da imprensa, não colabora com o bom andamento do trabalho de jornalistas e repórteres fotográficos e cinematográficos. As pessoas que têm acompanhado o trabalho jornalístico são torcedores apaixonados, muitas vezes sem a compreensão da seriedade do fazer jornalístico. Por vezes – o que é mais grave – algumas destas pessoas se manifestam de forma desrespeitosa contra os profissionais da mídia, que estão exercendo seu papel de informar. Outrossim, esse tipo de procedimento também pode se caracterizar como cerceamento ao trabalho da imprensa, uma vez que aplausos, vaias e comentários agressivos podem ser considerados como ferramentas de pressão e/ou intimidação. A mídia livre e independente tem o papel de permitir que as pessoas tomem decisões com base em informações e na apresentação de uma diversidade de opiniões, livres de influência. A Arena é um estádio reconhecido pela FIFA e tem, em suas dependências, inúmeros espaços aos conselheiros e torcedores. Não é admissível que a Sala de Imprensa, destinada ao atendimento – como o próprio nome já indica – da imprensa, tenha pessoas outras que não sejam os entrevistados e os jornalistas. O espaço é destinado apenas a profissionais que estão em busca de informações, para produzir a notícia, desenvolver um post ou contar uma história. Portanto, lamentamos, profundamente, que a função da Sala de Imprensa da Arena esteja sendo desviada para entretenimento de terceiros, descaracterizando desrespeitosamente a função principal do jornalismo: oferecer informação à sociedade.

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