Seria apenas mais uma manhã quente e normal no imenso apartamento da Rua Tomaz Flores, no bairro Bom Fim, onde eu morava com a minha família. Havia entrado no penúltimo semestre da faculdade de comunicação, mas janeiro era período de férias, e nem mesmo os trabalhos de datilografia que eu assumia para aumentar a minha renda apareciam no início do ano. Aguardava na sala a hora em que a mãe Mirthô pediria para eu arrumar a mesa para o almoço e, para me distrair, deixei a televisão ligada. Minutos depois do meio-dia, a edição extraordinária do telejornal informava sobre a morte da maior cantora do Brasil.
O resto do meu dia foi de lágrimas, indagações, busca de notícias (em 1982 a comunicação era diferente dos dias atuais) e de audições dos LPs (assim se chamavam os discos naquela época) da cantora. Não sei como fiquei sabendo, mas teve uma vigília de fãs durante a noite no Araújo Vianna e, contra a vontade dos meus pais, desloquei-me para o local a fim de junto com outros admiradores e integrantes do fã clube prestar uma homenagem à Pimentinha. Aquela terça-feira ficou para sempre marcada na minha vida. Naquela manhã, em 19 de janeiro, calou-se a voz de Elis Regina Carvalho Costa, a melhor, a insuperável.
No Teatro Bandeirantes, em São Paulo, onde o espetáculo Falso Brilhante ficou em cartaz de 1975 a 1977, em quase 300 apresentações, o velório de Elis registrou a passagem de um número impressionante de fãs (a mídia noticiou 15 mil pessoas). Elis Regina, a gaúcha do bairro do IAPI, mudou-se para São Paulo em 1964, para definitivamente protagonizar a carreira mais perfeita da cantora que estava sempre à procura do melhor ângulo, da letra mais sensacional, dos arranjos mais surpreendentes para as suas interpretações. Desde 1965, com a música Arrastão, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes, Elis cravou seu nome em letras de ouro na história da Música Popular Brasileira (MPB).
Não tem uma única música cantada pela Elis Regina que eu goste menos. Não posso escolher uma só canção para selecionar como preferida. Nas mudanças de endereço que fiz já me desapeguei de vários LPs da minha coleção e, mesmo sem ter um equipamento para ouvi-los, os da Elis permanecem comigo. Todos. Não tive coragem de me separar de nenhum. Mas, para manter as audições diárias da Pimentinha, fui adquirindo ou ganhando, CDs e DVDs que tornam os meus dias e noites felizes e compensadores. Mesmo nas interpretações mais tristes, Elis mostra como a perfeição é uma meta que ela alcançou.
A escola de samba paulista, a Vai-Vai, do tradicional bairro Bixiga, homenageou a cantora, em 2015, com o samba-enredo “Simplesmente Elis, a fábula de uma voz na transversal do tempo”, que lhe rendeu o título de campeã naquele ano. Na música, sempre cantada em coro pelo público presente nos shows da filha caçula de Elis Regina, a Maria Rita, tem um trecho que define de forma simples e direta a importância da cantora na MPB. “Reluziu, seu canto ecoou no meu Brasil, cantora igual jamais se ouviu, saracura a cantar bem mais feliz, simplesmente Elis”.

