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Como ele quis

Comecei a perder meu velho no dia em que o coloquei debaixo de um chuveiro para o banho. Já lhe faltavam forças e até mesmo a vontade de viver que fizeram dele um pai admirado por seus seis filhos, um esposo dedicado a sua amada Sulema, um líder comunitário invejável, tratado por todos como Chefe Paulo.

Era verão, iniciamos um período de férias na casa de praia da família e a cuidadora contratada se apresentaria somente no dia seguinte. Coube a mim a tarefa que seria dela, e considerei aquele ato um momento inesperado e impactante, único. Ele, que incontáveis banhos me dera quando bebê, era então uma pessoa frágil, sem forças para se manter em pé. Se eu, enquanto recém-nascido, tinha no choro a forma de me comunicar, ele, idoso, ranzizava em protesto a qualquer desconforto.

Um enfisema pulmonar o debilitava dia a dia já há meses, o que envolvia idas e vindas ao hospital. Sofria mais não pela doença, mas por entender que estaria causando transtornos aos filhos que iam diariamente passar momentos a seu lado, em prejuízo de suas tarefas profissionais.

Nos últimos dias em casa, começou a se desfazer de coisas pessoais, entre elas as cartas de declaração de amor para a sua Su, que assinava como Pablo. Também os inúmeros poemas e acrósticos criados para ela nos tempos de namoro. Destruiu-os sem piedade, como se quisesse apagar momentos marcantes dos enamorados Pablo e Su, que partira anos antes.

E foi se desfazendo também dos quadros, das joias, de qualquer objeto que o cercava, mesmo que de ínfimo valor. Demonstrava uma ânsia em se desapegar de tudo que o cercava. Nada terreno indicava merecer sua atenção.

Até que quatro meses após aquele último verão teve de ser hospitalizado mais uma vez. A história (lenda? fato? evidência?) de que o ser humano entende que sua hora chegou se materializou em suas atitudes de despedida. Na manhã da véspera de sua morte, quando da já tradicional visita da filha Helena, orientou-a para que não retornasse mais à tarde e que avisasse os demais irmãos para que não o visitassem naquele dia. Alegava estar cansado e que iria dormir mais cedo. Enfatizou o pedido: não queria mesmo receber ninguém mais, a não ser a cuidadora.

Morreu como quis. No meio da madrugada, sem ninguém a seu lado. Optou por partir sem testemunhas, talvez com os aparelhos sendo desligados com a ajuda da cuidadora, desconfiança que eu e meus irmãos levaremos pelo resto de nossas vidas.

Autor

José Vieira da Cunha

José Antonio Vieira da Cunha atuou e dirigiu os principais veículos de Comunicação do Estado, da extinta Folha da Manhã à Coletiva Comunicação e à agência Moove. Entre eles estão a RBS TV, o Coojornal e sua Cooperativa dos Jornalistas de Porto Alegre, da qual foi um dos fundadores e seu primeiro presidente, o Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul, a Revista Amanhã e o Correio do Povo, onde foi editor e secretário de Redação. Ainda tem duas passagens importantes na área pública: foi secretário de Comunicação do governo do Estado (1987 a 1989) e presidente da TVE (1995 a 1999). Casado há 50 anos com Eliete Vieira da Cunha, é pai de Rodrigo e Bruno e tem cinco netos. E-mail para contato: [email protected]
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