Era um sábado comum de inverno, aquele 24 de agosto de 1974, quando 67 jornalistas se reuniram no salão nobre da Associação Riograndense de Imprensa, a ARI, no centro de Porto Alegre. Estavam ali movidos por um chamamento feito através de edital em jornal, como exigia a lei, mas antecedido por um boca-a-boca contagiante que circulou pelas redações. Os profissionais de jornalismo eram convidados a criar uma inédita e pioneira cooperativa, com um apelo forte – seria uma organização a ser administrada pelos próprios trabalhadores, sem ingerência de terceiros, exercendo suas vontades e direitos sem restrição que não as normas da convivência social.
A história bem sucedida do cooperativismo no Rio Grande do Sul, aliada ao apelo das características deste tipo de organização, soaram desde o início como um atrativo quase irrecusável. A começar pelo fato de os próprios cooperativados deterem o controle do negócio e estarem diretamente comprometidos com os resultados. Na cooperativa não há um dono, um capitalista, que seja o único a ditar as regras. Todos os associados são donos, com direitos e responsabilidades iguais. E ali, naquele ambiente formal da vetusta sede da ARI, havia um grupo de pessoas com interesses e objetivos comuns, motivados pela ideia de ter um jornal de jornalistas e lutar pela ampliação do mercado de trabalho.
Em comum, a uni-los, havia uma saudável inquietação, uma inconformidade com os rumos que a imprensa tomava naqueles anos, em muitos aspectos acomodada a ditames de uma censura policialesca ditada pelos governantes de plantão. Eram estas as molas principais que impulsionavam um pequeno grupo que começara a discutir a formação de uma cooperativa – eram seis ou sete, logo 12 e em seguida mais de 20 – um grupo que crescia com o próprio crescimento da discussão.
Até que chegou a hora de apresentar a ideia provocadora: criar uma organização que teria entre seus objetivos o de criar um verdadeiro jornal de jornalistas. Não seria uma empresa qualquer, mas uma iniciativa respaldada no cooperativismo, cuja essência é a união de pessoas que comungam de objetivos comuns, um organismo essencialmente democrático, em que todos os associados têm direito a um voto, independente do valor de cotas que cada um detenha. Suas decisões são tomadas em assembleias gerais das quais participam todos os associados, com iguais direitos para votar e ser votado, por exemplo. E, aqui um apelo social capaz de motivar jovens sonhadores, não visa lucro, e sim o bem estar de seus associados e a determinação de melhorar a renda deles.
Então, dos 67 presentes, apenas um não acreditou na ideia e se retirou antes do final da assembleia. Na mesa dos trabalhos, o fotógrafo Ricardo Kadão Chaves, da sucursal da revista Veja, fez o registro histórico da mesa que dirigia o encontro. Ali estão Carlos Urbim, Elmar Bones, Carlos Bastos, Rosvita Saueressig, este redator, Jorge Polydoro e Luiz Cláudio Cunha. Com exceção de Bastos, então na RBS TV, e Luiz Cláudio, na Veja, todos os demais atuavam na nervosa Folha da Manhã.
Não tiveram dificuldades para convencer os colegas presentes a ingressar na sociedade e iniciar um capítulo relevante da comunicação do Rio Grande do Sul. Sonhavam, mas certamente eles mesmos seriam surpreendidos com a história espetacular que começavam a escrever.



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